Atores

Heather Graham, a filha do agente do FBI que entrou em todas as salas das quais o pai a tinha alertado

Penelope H. Fritz

Heather Graham trabalha há trinta e seis anos na indústria que o pai jurava que ia reclamar sua alma. O aviso era literal. James Graham, agente do FBI, católico devoto, repetia para a filha mais velha que o entretenimento era o mal e que qualquer carreira dentro dele pertencia ao demônio. Ela saiu de casa, parou de falar com ele aos vinte e cinco anos e construiu exatamente a filmografia que mais confirmava esses medos — Rollergirl em Boogie Nights: Prazer Sem Limites, Felicity Shagwell em Austin Powers: O Agente Bond Cama, Jade a stripper de Las Vegas em Se Beber, Não Case!. O afastamento já dura mais do que toda a infância dela.

Nasceu em Milwaukee, dentro da vida itinerante de uma família federal — Joan, mãe, professora e autora de livros infantis; Aimee, irmã, também atriz e roteirista. A casa, do lado paterno, era extremamente católica no sentido que Graham acabaria descrevendo aos entrevistadores: uma religião controladora, um pai controlador, um enquadramento inegociável sobre o que uma jovem mulher podia ou não se tornar. Inscreveu-se brevemente na UCLA, estudou inglês e largou para fazer testes. Em dois anos, estava num set com Gus Van Sant e Matt Dillon.

Essa primeira onda — Drugstore Cowboy, a adolescente de olhar suave atrás na caravana de viciados, e depois Annie Blackburn na série Twin Peaks de David Lynch e no filme Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer — ensinou duas coisas que não mudaram: ela rende mais com diretores que tratam o rosto dela como instrumento, e não como cartaz; e sobrevive a ser subestimada. Lynch ficou como referência para a vida toda; pratica diariamente a Meditação Transcendental que ele lhe ensinou em 1991. Ele devolveu o gesto em 2017 ao trazer Annie de volta, pelo nome, em Twin Peaks.

A parte central dos anos noventa foi a que precisou ser atravessada. Caçadores de Emoção, de Doug Liman, colocou-a à porta da comédia masculina de uma geração; Boogie Nights: Prazer Sem Limites, de Paul Thomas Anderson, colocou-a de patins no centro do retrato pornoindustrial que definiu o ano. Rollergirl é o papel que quase todo mundo cita primeiro, e aquele com o qual ela mantém a relação mais complicada. O filme a transformou em estrela e congelou dela, por vinte anos, uma única imagem — a patinadora perpétua, semi-vestida, semi-sábia. Também lhe deu um trabalho que ela ainda defende sem ironia.

Veio então o ciclo da protagonista de estúdio. Perdidos no Espaço, Por que Estamos Comendo Aquela Mosca? ao lado de Steve Martin e Eddie Murphy, e o ano em que ela se tornou, por um verão, a atriz mais serigrafada do planeta: Austin Powers: O Agente Bond Cama, em que sua Felicity Shagwell sustentou as cenas mais citáveis da franquia e quase toda a publicidade. O filme de Mike Myers é desses que os historiadores da cultura pop nem sempre levam a sério. Deveriam. Por um verão, foi a régua da comédia.

O preconceito que a acompanhou na década seguinte foi o de sempre para uma atriz que aos vinte e sete tinha sido bela e nua na tela: precisou provar repetidamente que conseguia sustentar um papel pensado. Provou — Mary Jane Kelly em Do Inferno, dos irmãos Hughes, a protagonista de The Guru, Alice em Killing Me Softly, o coral kennedyano Bobby. O trabalho foi desigual, os diretores também, e a imprensa continuou fixada, com uma insistência que hoje se lê como vergonhosa, em suas relações com colegas mais velhos e na pergunta de quanto tempo Hollywood ainda ia querer olhá-la. A pergunta era maliciosa; a resposta acabou sendo: muito tempo.

Depois encontrou o segundo pico comercial no lugar em que ninguém a tinha posto: a comédia como a única adulta em cena. Se Beber, Não Case!, a trilogia bilionária acidental de Todd Phillips, deu a ela Jade — a stripper com bebê de quem metade do público não lembra o nome e cuja atuação é a coisa mais firme do filme. Voltou à televisão com Scrubs, Portlandia, Californication e o ciclo Lifetime de Flowers in the Attic. Nada disso era o degrau de protagonismo que ela ocupava aos vinte e oito. Era mais constante e, segundo ela, mais interessante.

O movimento que reorganizou a última década da carreira dela está atrás da câmera. Half Magic, em 2018, foi sua estreia como roteirista e diretora e uma das primeiras comédias lançadas nos Estados Unidos a colocar o desejo feminino pós-#MeToo na superfície, não no subtexto. As críticas foram divididas; o filme existe. Seis anos depois, Chosen Family, de novo escrito, dirigido e protagonizado por ela, abriu o festival de Santa Bárbara em 2024 e saiu em outubro pela Brainstorm Media. O título é o argumento. Uma professora de yoga com um histórico de relações ruins e uma família partida constrói a casa que não herdou. Quem leu uma entrevista de Graham na última década consegue fazer a conta autobiográfica.

O que ela faz agora é a sequência mais consistente de trabalho dos últimos quinze anos. They Will Kill You, o híbrido de horror e ação de Eduardo Martínez-Solinas para Warner Bros. e Skydance, estreou no SXSW em março de 2026 e a colocou como a vilã Sharon ao lado de Zazie Beetz, Patricia Arquette e Tom Felton. Está neste momento em Vancouver rodando The Young People, de Osgood Perkins, para a Neon, primeiro projeto do acordo Phobos depois do sucesso de Longlegs. Está em pré-produção em Entity Within, em que vai interpretar Doris Bither — a mulher cujo caso foi a fonte de O Espírito Maligno. A virada para o gênero não é fuga. É uma atriz em atividade entrando nos cinquenta no terror, onde as caracterizadoras sempre puderam ser bruxas, mães, assassinas, monstros e outras funções que a armadilha do glamour não permitia.

Tem cinquenta e seis anos. Vive, até onde se reconstrói de fontes públicas, em Los Angeles com John de Neufville. Não fala com os pais há trinta e um anos. Está meditando, escrevendo o próximo roteiro, abrindo o SXSW, rodando no Canadá. A carreira contra a qual o pai a alertou durou mais do que o silêncio entre os dois, e a esta altura não está claro qual das duas coisas é a resposta mais durável à pergunta que ele lhe fez.

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