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Michelle Pfeiffer, a estrela de cinema que sempre soube quando sumir

Penelope H. Fritz

Hollywood entende mal as atrizes que preferem não ser olhadas. Michelle Pfeiffer foi uma delas por quase toda a carreira: visível, ausente, visível de novo em termos que a indústria nem sempre assinou. Fez Mulher-Gato e foi para casa por anos. Acumulou três indicações ao Oscar em cinco temporadas e ficou ainda mais tempo fora. O capítulo atual não é um retorno porque nada nele indica que ela algum dia precisou de um; é uma recalibragem, com dois papéis de protagonista na TV ao mesmo tempo, uma marca de perfumes que ela de fato comanda e uma agenda de avó da qual fala sem cerimônia.

A biografia californiana é curta. Filha de um técnico de aquecimento e ar-condicionado e de uma dona de casa, a segunda de quatro irmãos, cresceu em Midway City, condado de Orange, e se formou no Fountain Valley High em 1976. Estudou um ano de taquigrafia judicial no Golden West College, pagou contas como caixa do supermercado Vons e caiu na atuação via o concurso Miss Orange County e uma aula de Milton Katselas em Los Angeles. Em 1981 casou-se com o ator Peter Horton; foi na lua de mel que soube ter conseguido o papel principal em Grease 2.

Grease 2 foi um fracasso de bilheteria e Brian De Palma se recusou até a fazer um teste com ela para Scarface por causa disso. O produtor Martin Bregman insistiu. A Elvira Hancock de Pfeiffer — entediada, anestesiada pela cocaína, cada fala um pedaço de vidro refrigerado — é um dos grandes coadjuvantes dos anos 1980 e é o ponto exato em que a carreira dela se organiza. As Bruxas de Eastwick, Casada com a Máfia, Tequila Sunrise, Ligações Perigosas: cinco anos de um papel atrás do outro, três indicações ao Oscar entre 1989 e 1993 (Ligações Perigosas, Os Fabulosos Baker Boys, Love Field), um Globo de Ouro, um BAFTA, o Urso de Prata de Berlim por Love Field e o Prêmio Elvira Notari de Veneza por A Idade da Inocência. No começo dos anos 1990 ela era uma das atrizes mais bem pagas do mundo.

Os dois papéis que quase todo mundo lembra chegaram quase de fileira. Como Selina Kyle em Batman: O Retorno treinou seis meses de kickboxing e três meses com um chicote de quatro metros e atravessou a Gotham de Tim Burton como se a tivesse desenhado; como condessa Ellen Olenska em A Idade da Inocência entregou a Scorsese o centro silencioso do filme mais contido dele. Wolf, Mentes Perigosas, Um Dia Especial, Mil Acres, A História de Nós Dois, Revelação: o final dos anos 1990 segura a bilheteria e começa a aceitar escolhas mais estranhas.

O nó da narrativa Pfeiffer é o que a imprensa continuou chamando de “hiato” e que ela corrige com paciência. Depois dos dois filhos — Claudia Rose, adotada nos meses anteriores ao casamento com David E. Kelley, e John Henry, nascido no ano seguinte — não se afastou porque Hollywood deixou de oferecer trabalho. Repetiu em entrevistas: trabalho havia; o que ela não queria era arrastar crianças em idade escolar pelo planeta. Os cinco anos entre Stardust e Sombras da Noite não são a história de uma atriz que perde o pé, são a história de uma indústria que não consegue imaginar uma estrela dizendo, sem levantar a voz, que naquele ano a manhã da escola importa mais que o papel. A versão gentil desse mal-entendido reaparece toda vez que um perfil usa a palavra “invendável” — palavra que a própria Pfeiffer já usou, às vezes com ironia, às vezes com irritação.

Voltar foi um segundo ato lento, e foi a Marvel que fez parecer um retorno no sentido popular. Como Janet van Dyne, a Vespa original perdida no reino quântico, em Homem-Formiga e a Vespa, sustentou um filme Marvel aos sessenta de um modo a que Hollywood não estava habituada; Malévola: Dona do Mal e depois French Exit, a adaptação que Azazel Jacobs fez do romance de Patrick deWitt, lhe renderam uma indicação ao Globo de Ouro e o tipo de papel — viúva, sem dinheiro, fugindo para Paris com um gato — que o instinto dela para a comédia afiada esperava havia tempos. The First Lady, em que interpreta Betty Ford com a dignidade concreta que reserva a mulheres sobre as quais todo mundo já decidiu, foi a ponte para a televisão.

The Madison, o drama de Taylor Sheridan na Paramount+ com Kurt Russell, estreou em março de 2026 e está disputando vinte e sete categorias do Emmy. Margo’s Got Money Troubles, a comédia da Apple TV+ em que interpreta uma ex-garçonete da Hooters noiva de um pastor de jovens diante da mãe solteira e cam girl de Elle Fanning, estreou em abril e é o primeiro projeto que faz com o marido em trinta e três anos de casamento, David E. Kelley. Fora da tela ela comanda a Henry Rose, a linha de perfumes que lançou em 2019 e batizou com os nomes dos dois filhos: a primeira marca de perfumaria fina totalmente circular, auditada pela Environmental Working Group, e a única coisa que construiu sem se limitar a emprestar o rosto. Em junho receberá o Legend Tribute do Gotham TV Awards e o IndieWire Honors, com uma semana de intervalo.

Ela planeja, segundo as próprias palavras, passar a maior parte do que resta de 2026 sem filmar, porque a filha acabou de ter um bebê e ela prefere estar presente. Não é uma retirada. É a segunda vez na carreira em que responde à pergunta que Hollywood nem sempre pensa em fazer — se o papel é mais interessante que o resto da vida — e a segunda vez em que a resposta é a mesma.

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