Atores

Kate Hudson e a recusa longa, teimosa, de ser só uma coisa

Penelope H. Fritz

Vinte e cinco anos separam suas duas indicações ao Oscar. No meio, Hollywood tentou vendê-la como uma marca. Ela foi dizendo não — primeiro em silêncio, depois com um disco, uma série da Netflix com o nome dela também na produção executiva e uma segunda indicação que finalmente caiu.

Durante boa parte da carreira, Kate Hudson foi tratada como resultado, não como artista. Resultado do charme herdado, do sorriso de uma mãe famosa, de uma covinha com a qual Hollywood podia negociar. Resultado, também, entre 2003 e 2010, de um punhado de comédias românticas que faturaram o suficiente para encaixotá-la por uma década inteira. A carreira que veio depois é o trabalho lento e deliberado de alguém tentando convencer uma cidade de que é ela quem escreve a equação, não a resposta copiada no rodapé do caderno. Aos quarenta e seis, esse argumento começa a ser ouvido.

Nasceu em Los Angeles, filha da atriz Goldie Hawn e do cantor e ator Bill Hudson, que se separaram antes de ela completar dois anos. O pai biológico saiu logo do enquadramento e ficou distante; o homem que ela chama de pai é Kurt Russell, parceiro da mãe desde a infância dela. A família ao redor — Hawn, Russell, o irmão mais velho Oliver Hudson, todos atores em atividade — era Hollywood na versão doméstica: trabalho visível, cotidiano, sem glamour. Tinha sido aprovada na New York University. Pulou e começou a fazer testes.

Kate Hudson in Shell (2024)
Kate Hudson in Shell (2024)

Os três primeiros papéis foram pequenos e esquecíveis: Desert Blue, 200 Cigarettes, Gossip. A virada veio quando Cameron Crowe perdeu sua Penny Lane original no filme autobiográfico sobre rock. Hudson, já no elenco como irmã mais velha do protagonista, pediu para testar para o papel principal. Crowe refez o plano de filmagem em torno dela. Almost Famous lhe rendeu o Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante e a primeira indicação ao Oscar na mesma categoria, em 2001. Tinha vinte e um anos. A cidade leu aquilo como o começo de uma grande carreira, e é por isso que o que veio depois soa estranho.

O que veio foi a máquina de comédia romântica do início dos anos dois mil. Como Perder um Homem em 10 Dias a juntou com Matthew McConaughey e arrecadou quase cento e oitenta milhões de dólares no mundo. Raising Helen, You Me and Dupree, Fool’s Gold, Bride Wars, My Best Friend’s Girl, A Little Bit of Heaven: por quase uma década, o nome dela em um cartaz significou um tipo bem específico de filme de casal. Alguns eram bons. A maioria não. O efeito acumulado foi uma espécie de prisão hollywoodiana: era bilheteria, era reconhecível, era amada pelo público e era quase impossível de escalar fora da pista que os estúdios montaram em torno dela. A crítica começou a resenhar a pista, não a atriz.

Tentou sair e parou no meio do caminho mais de uma vez. Rob Marshall a chamou para Nine ao lado de Daniel Day-Lewis, Marion Cotillard e Penélope Cruz. Produziu e estrelou Deepwater Horizon e Marshall, fez um papel recorrente em Glee como a professora de dança Cassandra July, e cofundou a Fabletics, marca de roupa esportiva que no começo dos anos vinte movimentava cifras que a maior parte das estrelas de cinema nunca vê. Nada disso era Penny Lane. Sia escalou Hudson como protagonista de Music, filme cuja representação do autismo recebeu críticas duras enquanto a própria Hudson recebia uma indicação ao Globo de Ouro pelo papel. Em retrospecto, o filme funcionou como uma porta emperrada: a fome por material com peso era óbvia; o material que ela encontrava muitas vezes falhava.

Há uma tensão que Hudson vem negociando desde jovem, e ela tem sido incomumente honesta a respeito. Já disse, várias vezes, que durante anos teve medo de cantar profissionalmente porque achava que isso prejudicaria a carreira de atriz. Essa frase, dita por uma mulher com um Globo de Ouro aos vinte e um e uma mãe de Hollywood na parede, já é uma tese sobre o que filhas de intérpretes famosos aprendem cedo: proteja o ativo que funciona. O ativo, no caso dela, era uma pista romântico-cômica na qual a colocaram sem que ela tivesse acabado de aceitar. O trabalho dos últimos cinco anos lê-se como uma recusa lenta e deliberada desse acordo.

O disco veio primeiro. Glorious, o álbum de estreia, saiu pela Virgin Music Group em maio de 2024, escrito em grande parte com o noivo, o músico Danny Fujikawa, e com a produtora Linda Perry. Estreou em cinco paradas da Billboard e um ano depois entrou no chart britânico de álbuns independentes em versão deluxe. Enquanto promovia o disco, gravava Running Point, comédia da Netflix sobre uma mulher que recebe o controle de um time de basquete fictício de Los Angeles; a série, criada por Mindy Kaling, estreou no início de 2025 com Hudson como protagonista e produtora executiva, e foi renovada para uma segunda temporada. Veio então Song Sung Blue, o drama musical de Craig Brewer sobre o casal real de Milwaukee por trás de uma tribute band de Neil Diamond chamada Lightning & Thunder. Ela interpreta Claire Sardina, ganhou sete quilos para o papel e conseguiu a segunda indicação ao Oscar em janeiro de 2026 — um quarto de século depois da primeira. Na cerimônia de março perdeu, mas o argumento que ia defender já tinha sido defendido.

A vida pessoal dela entrou na música mais abertamente do que no cinema. Do casamento com Chris Robinson, vocalista dos Black Crowes, nasceu em 2004 o filho Ryder; o casamento terminou em 2007. Uma relação longa com Matt Bellamy, dos Muse, deu a ela um segundo filho, Bingham, nascido em 2011, e acabou em 2014. Está com Fujikawa desde 2017 e com ele tem uma filha, Rani Rose. O padrão — três parceiros, todos músicos — alimenta a piada fácil e uma verdade menos fácil: quando fez Glorious, ela já tinha passado vinte anos dentro da sala onde a música é escrita.

Em abril de 2026 entrou em produção Hello & Paris, uma comédia romântica ao lado de Javier Bardem, com roteiro e direção de Elizabeth Chomko e distribuição fechada pela Amazon MGM por mais de trinta milhões de dólares. A dupla funciona como caso-teste do que vem agora: não a protagonista de comédia romântica que Hollywood pediu aos vinte e cinco, mas a versão do segundo ato, ao lado de um ator de peso equivalente, no gênero que a fez famosa e quase a quebrou. Tem quarenta e seis anos. Falou recentemente, em público, em escrever um projeto para si e para a mãe. O terceiro ato que vem montando há anos, em três salas ao mesmo tempo, começa a parecer um único argumento contínuo.

Kate Hudson in Glass Onion (2022)
Kate Hudson in Glass Onion (2022)

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