Atores

Kate Winslet, trinta anos negando o estrelato

Penelope H. Fritz

Ela passou mais da metade da vida explicando para Hollywood que não é a mulher do vestido azul. Aquela imagem que rodou o planeta no fim dos anos noventa — Rose DeWitt Bukater na proa de um transatlântico que não ia afundar, iluminada como uma santa pré-rafaelita — era do tipo que termina uma carreira ao decidir por ela. A maioria das atrizes de vinte e dois anos teria assinado o contrato. Winslet leu, sacou o cheque do filme e transformou as três décadas seguintes numa recusa metódica a qualquer outra oferta escrita com a mesma caligrafia.

Veio do circuito de repertório de Reading, cidade do Berkshire sem rota óbvia para o cinema, numa família já do ofício. Os avós dirigiam o Reading Repertory Theatre, o pai atuava no interior. Aos dezessete conseguiu um papel num filme neozelandês de um Peter Jackson ainda desconhecido; o filme, Almas Gêmeas, a colocou nos festivais e no radar dos diretores de elenco americanos. Chegou a Hollywood já preferindo o cinema britânico autoral — Razão e Sensibilidade, de Ang Lee, veio quase em seguida — e entrou em Titanic com um roteiro que gostava, um diretor em quem confiava e nenhuma ideia de que o filme seguiria no topo da bilheteria mundial quatro anos depois.

O que fez com aquela visibilidade é o verdadeiro assunto de qualquer biografia dela. A década pós-Titanic se lê como uma lista de recusas: Hideous Kinky no deserto marroquino, Holy Smoke! com Jane Campion no interior australiano, Quills como a lavadeira de Charenton, Iris como a mente morrendo de Iris Murdoch. Nenhum era veículo de estrela. Todos eram o trabalho de uma atriz que parecia fazer testes, projeto a projeto, para uma carreira inteiramente outra.

O ciclo autoral de meados dos anos dois mil foi o que alcançou o calendário dos prêmios. Michel Gondry a colocou diante de Jim Carrey em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e a deixou pintar o próprio cabelo em cena. Todd Field a dirigiu em Pecados Íntimos como uma mãe de subúrbio pensando num caso com uma precisão que o roteiro não permitia em outro lugar. Sam Mendes — então seu marido — a dirigiu em Foi Apenas um Sonho como a metade Frank Wheeler de um casamento que Mendes filmava como sua própria desmontagem. E Stephen Daldry a escalou em O Leitor como Hanna Schmitz, ex-guarda de campo de concentração brigando com o próprio analfabetismo e a própria culpa: o papel que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz, depois de uma primeira indicação aos vinte e dois.

Saiu daquela fase com o Oscar que fingiu não querer e desistiu na mesma de usá-lo. Os anos seguintes se partiram em pedaços deliberadamente não hollywoodianos: Mildred Pierce na HBO, passando roupa e atendendo mesas durante cinco episódios em plena Depressão — e levando o Emmy por isso; Steve Jobs com roteiro de Aaron Sorkin e direção de Danny Boyle, como Joanna Hoffman diante do Jobs de Michael Fassbender, única pessoa do quarto sem medo dele; o segundo Avatar com James Cameron, em que sua única contribuição à promoção foi uma apneia recorde de sete minutos debaixo d’água. E quando a segunda vida na televisão de prestígio caiu no seu colo — Mare of Easttown em 2021 —, ela aceitou com a condição de que a edição deixasse em paz as rugas em volta dos olhos.

Esse detalhe é o argumento que atravessa tudo o que fez depois de Titanic. Winslet briga há trinta anos, em público, às vezes feio, muitas vezes com graça, com o jeito que o cinema em língua inglesa fotografa suas protagonistas mulheres. Recusou retoques em capas de revista. Recusou emagrecer para papéis. Recusou que tornassem o rosto simétrico nos primeiros planos. Falou abertamente dos tabloides que diziam que ela era pesada demais para ser Rose, do fotógrafo de set que a seguia com uma tabela de calorias e da decisão, em algum momento dos primeiros anos dois mil, de trabalhar simplesmente com diretores que vissem o mesmo rosto que ela. A linha que vai de Hideous Kinky até Lee Miller — interpretando a correspondente de guerra Lee Miller coberta da lama de Dachau, fotografando os corpos — é a linha de uma atriz que prefere ser a pior vestida da entrevista coletiva a voltar a ser o cartaz da campanha que a vendeu em 1998.

O interessante é o que essa briga lhe permitiu fazer nos últimos dois anos. Produziu e protagonizou Lee Miller, o filme sobre Lee Miller que tentava emplacar havia quase uma década. Fez a chanceler em deterioração de uma autocracia fictícia em The Regime, da HBO, comédia política subestimada que claramente curtiu. E em dezembro de 2025 estreou Goodbye June na Netflix: sua estreia como diretora, com roteiro do próprio filho Joe Anders, produzida com Kate Solomon — sua sócia em Lee Miller — e elenco formado por Helen Mirren, Toni Collette, Andrea Riseborough, Timothy Spall e ela mesma. O ponto de partida — irmãos se reunindo em volta de uma mãe morrendo no Natal — vem quase literalmente da morte da própria mãe, Sally Anne Bridges, de câncer de ovário em 2017. Tentou se tirar do elenco. Não conseguiu, segundo ela mesma, fazer três trabalhos ao mesmo tempo.

Os próximos dois anos já estão marcados. Está em pré-produção de O Senhor dos Anéis: A Caçada por Gollum, de Andy Serkis, com filmagens na Nova Zelândia a partir do fim de maio de 2026: a primeira vez que ela trabalha no círculo de Peter Jackson desde Almas Gêmeas, mais de três décadas depois. Todd Haynes, que a dirigiu em Mildred Pierce, está adaptando para a HBO o romance Trust, de Hernan Diaz, com ela no papel principal. Disse à Deadline no começo deste ano que há uma ‘forte probabilidade’ de Mare of Easttown voltar para uma segunda temporada em 2027, se a HBO bater o martelo. Vive nos arredores de Londres com Edward Abel Smith, seu terceiro marido, e seus três filhos — um deles agora escreve os filmes dela — com a certeza adulta de que a atriz da proa do navio nunca foi a atriz em que ela ia se transformar.

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