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Muhammad Ali: três títulos, uma recusa e o que nenhum árbitro poderia parar

Penelope H. Fritz
Muhammad Ali
Muhammad Ali
Photo: Auguste Couder / Public domain, via Wikimedia Commons
Nascimento17 de janeiro de 1942
Louisville
Falecimento3 de junho de 2016 (74)
OcupaçãoBoxeador profissional
PrêmiosMedalha Presidencial do Cidadu00e3o u00b7 Medalha Presidencial da Liberdade u00b7 Medalha da Liberdade de Filadu00e9lfia

A coisa mais importante que Muhammad Ali fez no boxe foi se recusar a boxear. Quando o exército dos Estados Unidos chamou seu nome no centro de recrutamento de Houston, em abril de 1967, Ali deu um passo à frente, ouviu seu nome de batismo ser lido em voz alta — Cassius Marcellus Clay — e não se moveu. As consequências foram imediatas: título mundial revogado, passaporte apreendido, licença cassada em todos os estados. Por três anos e meio, o lutador que muitos consideravam o peso pesado mais perigoso do planeta não pôde combater.

Ele tinha vinte e cinco anos.

Ali cresceu em Louisville, no Kentucky, filho de um pintor de outdoors e de uma empregada doméstica, numa cidade ainda organizada pela lógica da segregação racial. O roubo de sua bicicleta, aos doze anos, foi o que o levou até um policial chamado Joe Martin, que também treinava jovens boxeadores em uma academia local. O menino que queria bater no ladrão se tornaria, oito anos depois, medalha de ouro olímpica nos meio-pesados em Roma 1960, e profissional no ano seguinte.

A personalidade que emergiu nesses primeiros anos — as provocações em rima, as previsões, a certeza inabalável — não era simples barulho promocional. Era uma teoria sobre o que significava ser um homem negro nos Estados Unidos que se recusava a se curvar. Quando Cassius Clay derrotou Sonny Liston em 1964, surpreendendo o mundo do boxe e grande parte da imprensa, anunciou no dia seguinte sua filiação à Nation of Islam e mudou seu nome para Muhammad Ali. A imprensa esportiva se recusou em sua maior parte a usar esse nome por anos.

O exílio que se seguiu à recusa ao recrutamento foi onde Ali se transformou de campeão de boxe em algo que o esporte raramente vira: um mártir por uma posição política que seria eventualmente vindicada. A Suprema Corte anulou sua condenação por unanimidade em 1971. A essa altura, ele já havia perdido os melhores anos de sua carreira atlética.

O que veio depois foi a era das grandes lutas — combates que Ali, pela lógica brutal do boxe, não deveria ter vencido. Joe Frazier em Nova York em 1971, a Luta do Século, foi sua primeira derrota como profissional, uma decisão unânime após quinze rounds que doeu de maneiras que iam além do físico. Ele se vingou. Depois veio George Foreman em Kinshasa em 1974 — o Rumble in the Jungle — onde Ali passou sete rounds absorvendo socos encostado nas cordas, deixando Foreman se esgotar antes de nocauteá-lo no oitavo. Era campeão novamente. Depois o Thrilla in Manila contra Frazier em 1975 — catorze rounds de destruição mútua que ambos chamaram de a coisa mais difícil que já tinham feito. Ali venceu, o técnico de Frazier interrompendo antes do décimo quinto round.

O que os relatos posteriores tendem a suavizar: Ali voltou vezes demais. As lutas contra Larry Holmes em 1980 e Trevor Berbick em 1981 — depois de já ter se aposentado, quando os sintomas do que se tornaria o mal de Parkinson já eram observáveis — eram combates que ele não deveria ter aceitado. Holmes, seu ex-sparring e um homem que visivelmente não queria machucá-lo, encerrou o combate no décimo primeiro round. O dano que essas lutas tardias podem ter acelerado foi real.

Ele foi diagnosticado com a síndrome de Parkinson em 1984, três anos após a luta com Berbick. Não desapareceu. Acendeu a tocha olímpica em Atlanta em 1996, as mãos tremendo pela doença que lhe havia tirado a voz e os movimentos, mas não a presença. Co-fundou o Centro de Parkinson Muhammad Ali em Phoenix. Recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade em 2005.

Muhammad Ali morreu em 3 de junho de 2016 em Scottsdale, no Arizona, aos setenta e quatro anos, de choque séptico decorrente de complicações respiratórias causadas pelo Parkinson. Deixou nove filhos, entre eles sua filha Laila Ali, ela própria campeã mundial de boxe. O arco completo de sua vida argumentou que o ringue nunca foi toda a história — foi onde a história podia ser contada.

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