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Allan ‘Puro Osso’ Nascimento, lutador do UFC, morre aos 34: o homem por trás do cartel

Jack T. Taylor

Chamavam-no de Puro Osso — só osso — apelido dado a um adolescente magricela de São Paulo que não tinha nada no corpo além da vontade de lutar. Quando a notícia de que Allan Nascimento havia morrido dormindo se espalhou, os homens que o conheciam não recorreram primeiro ao cartel dele. Lembraram-se do homem.

Esse instinto resume toda a história. A morte de um lutador costuma chegar como um balanço — uma divisão, um histórico de vitórias e derrotas, uma causa — e as notas sobre Nascimento saíram exatamente assim, enxutas e frias. Mas as pessoas que dividiram o ginásio com ele, que o acompanharam no corner nas noites de luta e o viram sangrar e se reconstruir recorreram a outro vocabulário. Guerreiro. Amigo. Ser humano extraordinário. O cartel é real. É também a coisa menos interessante que tinham a dizer sobre ele.

Nascimento foi formado na Chute Boxe, sob o comando de Diego Lima, a academia de São Paulo que transformou um garoto magro da região, Charles Oliveira, em campeão do UFC. É uma fábrica de caras duras e, segundo todos os relatos, Nascimento era o quieto do grupo — o lutador que os companheiros descrevem pela humildade e pela recusa em se acomodar, aquele que inspirava, como disse a academia, dentro e fora dos tatames. Em um esporte que recompensa o homem mais barulhento do prédio, ele foi lembrado pelo oposto.

Ele deixa mulher e dois filhos. Essa frase causa mais estrago do que qualquer número em sua ficha, porque localiza a perda onde ela realmente atinge — não em um ranking, mas em um lar. Os pesos-mosca são os homens menores do esporte e, com frequência demais, os mais invisíveis: os menores cachês, o menor tempo de tela, as mesmas mãos quebradas e rostos reconstruídos das estrelas que encabeçam os cards que eles abrem. Nascimento escolheu essa vida mesmo assim, e construiu uma família a partir dela.

O histórico, para registro, era mais afiado do que um fã casual imagina. Ele venceu 22 e perdeu 7 como profissional e fez 4-2 dentro do UFC depois de assinar em 2021, batendo Cody Durden, Jafel Filho, Carlos Hernandez e Jake Hadley e faturando dois bônus de Performance da Noite no caminho. As duas derrotas no UFC — para Tagir Ulanbekov e, em sua última luta em junho, para Mitch Raposo — vieram por decisão dividida, a matemática mais cruel que o esporte guarda: julgado perdedor por um único cartão, nunca finalizado, nunca dominado. Ele foi, até o fim, difícil de vencer e impossível de intimidar.

A forma como tudo aconteceu é o que não deixa a história sossegada. Ele foi encontrado sem resposta na segunda-feira, disse o UFC, após uma aparente parada cardíaca durante o sono — um atleta profissional em plena forma, morto no único lugar onde um lutador deveria estar seguro. Não há adversário para culpar aqui, nenhuma decisão ruim para recorrer. A organização enviou suas condolências à família e aos companheiros de equipe; a academia disse que o legado dele vai permanecer.

Para um peso-mosca que nunca lotou uma arena com o próprio nome, esse legado não será medido em cinturões ou vendas de pay-per-view. Será medido em dois filhos que crescem com um veredito único e unânime — dado não por três jurados ao lado do cage, mas por todo homem durão que já dividiu o ginásio com ele — de que o pai deles era um ser humano extraordinário. Não um cartel. Um homem.

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