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Gianni Infantino elogia a Argentina: “trabalho constante, profissionalismo e atenção aos detalhes”

O presidente da FIFA elogiou o profissionalismo da vice-campeã em carta à federação argentina. Seu próprio procurador disciplinar investiga a conduta desse mesmo time na mesma final.
Kenji Nakamura

Quando o presidente do futebol mundial quer encerrar um torneio com chave de ouro, ele recorre a uma carta. Gianni Infantino fez exatamente isso após a final da Copa do Mundo, escrevendo à Associação Argentina de Futebol para consolar os finalistas derrotados e saudar a forma como conduziram seu trabalho. Uma frase, em particular, foi feita para ser citada.

“Essas vitórias são sempre fruto de trabalho constante, profissionalismo e atenção aos detalhes, mas também de paixão”

A frase vem de uma carta que Infantino endereçou ao presidente da associação, Claudio Tapia, cuja cópia chegou à imprensa através do Goal. Por si só, parece o calor padrão do cargo: um chefe do esporte consolando uma seleção que ficou a um único gol do título e dizendo que o futuro é promissor.

Só parece assim se você olhar apenas para a carta. Dentro do mesmo prédio, ao mesmo tempo, o comitê disciplinar da FIFA havia nomeado um promotor disciplinar e ético para estudar os relatórios dos árbitros e as imagens daquela final e decidir se os jogadores argentinos deveriam ser sancionados. A conduta sob análise não é uma questão de estilo. Alega-se que Leandro Paredes agarrou o espanhol Eric García pelo pescoço e empurrou Gavi ao chão enquanto a Espanha comemorava; Nahuel Molina é acusado de atingir Rodri; o assistente técnico, Roberto Ayala, é mencionado por um aparente empurrão em Dani Olmo. Paredes levou cartão vermelho após o apito final.

Portanto, o mesmo órgão regulador, na mesma semana, produziu dois documentos sobre uma equipe. Um é uma carta elogiando seu profissionalismo. O outro é um processo investigando se ela trouxe o esporte ao descrédito. Ambos carregam o nome da FIFA, e não podem estar descrevendo a equipe com precisão ao mesmo tempo.

É aí que a palavra começa a vacilar. “Profissionalismo” é o termo central na frase de Infantino, e é exatamente a qualidade que seu próprio promotor está sendo convocado a testar. O contraste é ainda mais nítido vindo do outro banco. O técnico da Espanha, Luis de la Fuente, classificou o comportamento da Argentina como “intolerável, inaceitável, não pode ser permitido”, e reservou a palavra profissionalismo para seus próprios jogadores, dizendo que eles “sempre mantiveram a compostura e se comportaram como verdadeiros profissionais” diante das provocações. Os vencedores reivindicaram o termo; o presidente o entregou aos perdedores; o promotor está decidindo quem, se é que alguém, merece.

Lida como um sistema, e não como uma gafe, a carta não é um deslize. É como a máquina é construída. A FIFA opera dois canais em direção aos seus membros mais poderosos ao mesmo tempo: um canal público de calor, amizade e congratulação, e um canal processual mais silencioso que segue seu próprio cronograma. Infantino, que assinou “com toda a minha amizade”, é a central telefônica de ambos — o homem cujo instinto é vincular as grandes federações do esporte a ele pessoalmente, presidindo o órgão que também deveria policiá-las. Os dois impulsos não são reconciliados; eles são simplesmente conduzidos em fios separados.

Nada disso é novidade para ele. A FIFA parabenizou a Argentina após a última final e depois abriu um processo disciplinar por causa das comemorações que se seguiram. O padrão se repete porque os incentivos também: elogiar não custa nada e compra boa vontade, o processo é lento e pode ser resolvido discretamente, e as maiores federações conhecem ambos os fatos. Uma carta chega no dia em que o mundo está assistindo. A conclusão de um promotor chega meses depois, se é que chega.

É por isso que a frase vale a pena ser guardada. Infantino a disse como um elogio, e ela ainda pode ser lida como tal. Mas até que seu próprio promotor encerre o processo, “profissionalismo” não é um veredito que a FIFA tenha alcançado sobre a Argentina. É uma palavra que seu presidente usou antes que o órgão que ele lidera terminasse de decidir se era verdade.

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