Negócios e finanças

Federação inglesa retira apoio a Infantino

Victor Maslow

As cartas sempre foram a verdadeira moeda de poder na FIFA, e Gianni Infantino passou a maior parte de uma década acumulando-as. A Football Association inglesa agora retirou sua carta, seguindo o País de Gales, que se moveu primeiro, e, ao fazê-lo, juntou-se ao desmonte daquilo que um dia tornou sua presidência intocável.

Entenda essa retirada pelo que ela é. Não se trata de uma federação reagindo a uma semana ruim. Trata-se de um órgão dirigente revogando um mandato que havia concedido quase sem questionamentos. Uma carta de apoio é uma formalidade quando um presidente concorre sem oposição; no momento em que pode ser retirada, ela se torna um instrumento de responsabilização. É isso que agora acontece em mais de um continente ao mesmo tempo.

A ruptura se deu por dinheiro. Infantino havia apoiado um plano para vender uma participação minoritária, de cerca de um quinto, em um novo veículo chamado FIFA Forward Enterprise, a subsidiária criada para deter os direitos comerciais e operacionais das competições da FIFA, incluindo a Copa do Mundo. A proposta era levantar até US$ 4,2 bilhões com investidores privados, diante de uma avaliação próxima de US$ 20 bilhões, com a promessa de distribuir mais de US$ 10 bilhões em financiamento ao desenvolvimento ao longo de quatro anos. O grupo de investidores alinhado para liderar a operação, Thrive Eternal, foi fundado neste ano por Joshua Kushner. A FIFA manteria a governança e venderia o negócio: em outras palavras, um preço de private equity atribuído à joia da coroa do futebol.

Aqui está a parte que a cobertura das agências tende a esconder: as associações não se opõem ao preço. Elas se opõem ao método. A UEFA descreveu um conjunto de “esquemas secretos em prazos acelerados, arquitetados por indivíduos sem rosto” e ameaçou boicotar torneios da FIFA. O País de Gales, na declaração que abriu a revolta, listou “falhas de boa governança, processos, liderança, valores, gestão das partes interessadas, comunicações e bom senso”, concluindo que Infantino havia “perdido a confiança da FAW para permanecer no comando do futebol mundial”. A FA deu total apoio a essa posição e depois formalizou por escrito à FIFA sua própria retirada. Infantino já havia escrito às associações pedindo desculpas pelos erros. Isso não mudou nada.

É por isso que o recuo de Infantino não resolve nada para ele. Ele abandonou a venda, mas um acordo desfeito responde a uma queixa sobre preço, e ninguém está reclamando do preço. As federações descrevem um processo no qual já não confiam, conduzido por um presidente que tentou transformar suas competições em um ativo sem convencer todos os presentes. Retirar o plano não restaura sua confiança; confirma o diagnóstico. A confiança, uma vez colocada no papel e depois retirada, não volta discretamente.

É a escala que deveria preocupá-lo. Infantino começou este ciclo com mais de 200 cartas de apoio das 211 associações-membro da FIFA, incluindo 52 das 55 que integram a UEFA. Essa quase unanimidade foi toda a base de uma presidência que não enfrenta um adversário sério desde 2016. Pelo menos 10 associações já retiraram formalmente seu apoio: País de Gales e Inglaterra, seguidos por Finlândia, Sérvia, Suécia, Croácia, Albânia, Grécia, República da Irlanda e Nova Zelândia. Alemanha, Países Baixos, Dinamarca, Romênia e Irlanda do Norte se declararam contra ele sem uma carta formal, e a Noruega foi mais longe, com sua presidente, Lise Klaveness, pedindo que ele renuncie imediatamente. Cada carta que retorna não é, por si só, uma manchete; é um voto mudando silenciosamente de lado antes mesmo de a votação acontecer.

As confederações se moveram em seguida, e com mais cautela do que as manchetes sugerem. UEFA, CONCACAF e AFC assinaram uma carta conjunta acusando a FIFA de uma “ruptura fundamental de confiança” e de “engano”, e pedindo uma “liderança que sirva ao futebol, não que busque comandá-lo”. O documento nunca menciona Infantino e jamais usa a palavra renúncia; ainda assim, entende-se que as três o pressionam a deixar o cargo antes de março, em vez de ser derrotado então. Os advogados da UEFA foram mais diretos, alertando para ações judiciais, arbitragem ou denúncias regulatórias e nomeando 18 executivos da FIFA obrigados a preservar documentos e mensagens como possíveis provas.

E então a aritmética muda, porque ela não corre em uma só direção. Os 54 membros da CAF cerraram fileiras atrás dele por unanimidade, mais de um quarto do eleitorado em um único bloco, e a CONMEBOL fez o mesmo. Seis federações árabes — Catar, Líbano, Marrocos, Sudão, Egito e Mauritânia — declararam total apoio em uma declaração conjunta. Marrocos, que sedia o Congresso que decidirá seu futuro, está entre elas. Infantino realizou ali uma reunião de crise e saiu dela com sua equipe sênior reiterando apoio, e desde então a FIFA descreveu a campanha contra ele como articulada. Isto não é um colapso. É uma divisão continental e, na contagem bruta, ele ainda está à frente.

O acerto de contas formal tem data marcada: qualquer rival tem até 18 de novembro para se declarar, e a votação será realizada no Congresso em Rabat na próxima primavera. Um presidente pode sobreviver a um acordo perdido e, pelos números de hoje, Infantino sobrevive a este. Mais difícil de sobreviver é o precedente que seus próprios apoiadores acabaram de estabelecer: uma carta de apoio pode ser revogada, e três das seis confederações agora dizem que o problema nunca foi o acordo, mas o homem. A venda da participação está morta. A auditoria sobre o homem que a propôs acaba de começar.

Tags: , , , , ,

Discussão

Há 0 comentários.