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Harry Kane, favorito à Bola de Ouro: os gols são só metade da história

Kenji Nakamura

Durante quase uma década, Harry Kane foi o argumento que o futebol nunca conseguiu resolver de vez. Todo mundo concordava que ele estava entre os melhores centroavantes em atividade; o quadro de honra discordava, e é o quadro de honra que o esporte guarda na memória. Agora, o nome dele está na lista final da Bola de Ouro como favorito das casas de apostas, e a tentação é explicar isso com a contagem de gols. Essa é a leitura fácil, e perde a interessante. O que mudou não foi o dom do jogador. Foi a estrutura construída ao redor dele.

Comece pelo que Kane realmente é, porque os gols obscurecem isso. Ele sempre foi dois atacantes num corpo só: um armador que recua para tecer a jogada, saindo da última linha, e o finalizador que de alguma forma reaparece na área para concluí-la. Essa dualidade o tornou indispensável e, por anos, não realizado. Um time pode apostar num centroavante que faz tudo, ou pode ser desenhado para tornar esse “tudo” decisivo. Essas não são a mesma coisa, e a diferença é a história inteira da carreira dele.

O Bayern de Munique forneceu a segunda versão. Os números da temporada passada são a evidência mais estrondosa: 73 gols no total, 61 deles pelo clube em todas as competições, e uma marca de 36 na Bundesliga que lhe rendeu a segunda Chuteira de Ouro europeia. Ele superou por larga margem a contagem de Erling Haaland na Premier League e a de Kylian Mbappé em La Liga, conquistou o terceiro troféu consecutivo de artilheiro da Alemanha e, segundo o próprio levantamento do Bayern, tornou-se o primeiro inglês desde a década de 1930 a alcançar cinquenta gols numa única temporada. Ele marcou enquanto o clube selava um segundo título consecutivo e ainda fez um hat-trick na final da copa. “Você simplesmente não pode deixar Harry Kane em paz”, disse Deniz Undav, do Stuttgart. “Ele marca à vontade.”

Mas o volume não é o motivo pelo qual a votação mudou. Leia a temporada como design, e o mecanismo fica mais claro. No time de Vincent Kompany, o recuo deixou de ser um compromisso e virou uma arma: quando Kane recua para o meio-campo, ele arrasta um zagueiro junto e abre a linha para os corredores, ou é deixado sozinho e simplesmente constrói o ataque ele mesmo. O time é moldado para punir ambas as respostas. No Tottenham, o mesmo movimento era um ato solitário; no Bayern, é o primeiro passe de uma estrutura que espera o segundo e o terceiro. Mesmo jogador, equação diferente — e a equação é o que produz troféus.

Isso importa por um motivo específico. A Bola de Ouro raramente premiou o nove puro na era moderna da votação — o eleitorado tende a favorecer criadores e atletas completos, os jogadores vistos como autores de um time, e não como seus finalizadores. O verdadeiro trunfo de Kane é que ele não é um nove puro. Ele é o eixo: o homem que começa a jogada e a termina, a figura mais próxima de um armador que também lidera o campeonato em gols. Contra uma lista final repleta de Lamine Yamal, Mbappé e Ousmane Dembélé, esse é o argumento que convence.

A trajetória é a parte que a linha reta nunca conta. Nenhum inglês venceu este prêmio desde Michael Owen em 2001, e Kane passou os anos no meio do caminho como o artilheiro mais condecorado sem uma medalha para mostrar. O talento nunca foi a variável ausente. As medalhas eram. O Bayern não lhe ensinou a marcar; ele sempre soube fazer isso. Deu aos gols um lugar onde aterrissar.

A cerimônia será em Londres no mês que vem, a primeira já realizada fora de Paris, e se o voto seguir as odds, a lição será contada de forma generalizada como a de um atacante que finalmente recebeu o que merecia. A verdade mais fria é outra: o teto de um camisa 9 é definido menos pela sua finalização do que pelo desenho ao seu redor. Kane foi prova disso por uma década na direção errada. Ele está prestes a ser prova disso na direção certa.

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