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Nêmesis na Netflix não é uma série de assalto. É uma biografia paralela de dois homens de LA

Martha O'Hara

Dois homens formados pela mesma Los Angeles, ambos fluentes na mesma geometria urbana, ambos apontados para as mesmas saídas de autoestrada quando eram adolescentes. Um terminou com um distintivo de detetive. O outro com uma quadrilha de assaltantes. O primeiro eixo da série é o reconhecimento entre os dois — muito antes do início da perseguição — de que a designação foi quase aleatória, que a diferença entre o policial deste lado da mesa e o ladrão do outro não foi de caráter, mas de CEP.

Courtney A. Kemp vem escrevendo esse argumento desde 2014. Em Power, colocou-o sobre Ghost, depois dividiu-o entre Tommy e Kanan, depois duplicou-o dentro dos quatro spin-offs do universo Power, até a tese deixar de ser um recurso de enredo para se tornar uma espécie de assinatura autoral: o homem negro com a ambição de superar o sistema que o produziu acaba precisando dos agentes e dos marginalizados desse sistema na mesma agenda. A série às vezes era lida como drama policial porque dramas policiais têm público, mas o argumento real sempre foi sociologia.

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Nêmesis aperta essa tese sobre uma tela menor. Dois homens. Oito episódios. Uma cidade. O crime é o portão de entrada, não a história. O detetive Isaiah Stiles e o ladrão mestre Coltrane Wilder não são apresentados como opostos. São apresentados como irmãos de geografia: cresceram a seis quarteirões de distância, pegaram os mesmos ônibus, jogaram nas mesmas ligas de sábado de manhã, e só se encontraram numa sala de interrogatório quinze anos depois porque um dos dois pegou outro caminho aos dezessete.

A construção é deliberada. Mario Van Peebles dirige os dois primeiros episódios — a montagem arquitetônica do duelo de temporada — e o tempo que impõe é paciente onde o procedural médio seria ofegante. Os diretores seguintes (Millicent Shelton nos episódios três e quatro, Rob Hardy no cinco e no seis, Ruben Garcia fechando a temporada) respeitam esse registro. A fotografia é de lente aberta, a música é escassa, a edição confia que uma cena faça o seu trabalho. A sala de roteiristas, codirigida com Tani Marole, escreve interrogatórios longos. Longos o bastante para que o detetive e o ladrão comecem a soar como dois irmãos comparando anotações sobre uma família da qual cada um saiu à sua maneira.

Los Angeles é o terceiro personagem. A série não filma a LA de cartão-postal — filma a LA entre Crenshaw e Koreatown, os nós de autoestrada onde o detetive e o ladrão cresceram a seis quarteirões e nunca se cruzaram até que já havia um distintivo no meio. A classe média negra na tela não é a fantasia de mansões de Inglewood das produções recentes da Netflix; é o bairro de casas de tijolo, hipotecas renegociadas e dois empregos do South LA pós-2020. As cozinhas ainda guardam restos da noite anterior.

A LAPD que Stiles veste é a LAPD que sobreviveu aos debates de abolição de 2020 e saiu com câmeras corporais novas e a mesma demografia em suas delegacias. Kemp metaboliza esse clima nacional não resolvido recusando-se a processar a LAPD e recusando-se a santificá-la. Stiles é um trabalhador complicado dentro de uma instituição complicada. E a quadrilha que Wilder lidera é uma atualização de 2026 do criminoso que, em Heat (1995), era um homem branco de terno bege porque Michael Mann ainda não conseguia escrevê-lo de outra forma. Os trinta anos entre os dois filmes são a conversa que Nêmesis está tendo com a tradição do cinema de assalto.

O elenco também carrega o argumento. Matthew Law na cadeira do detetive é uma aposta de protagonista — reconhecível por papéis secundários, mas sem ser nome de casa, o que lhe permite carregar um interrogatório sem que o público importe um papel anterior. Y’lan Noel como Wilder é o casting mais difícil: passou cinco temporadas de Insecure sendo lido como interesse romântico, e Kemp está dobrando essa aposta.

Nemesis. Y’Lan Noel as Coltrane Wilder in episode 102 of Nemesis Cr. Saeed Adyani/Netflix © 2026

O que a temporada deixa em aberto não é se Stiles vai capturar Wilder — todo trailer já respondeu. O que a temporada não consegue decidir é se a captura significará algo além de papelada. Quando o detetive algemar seu nêmesis, a cidade que produziu os dois ainda estará lá. O sistema escolar que canaliza crianças aos onze anos para vetores diferentes ainda estará lá. As decisões de política habitacional que decidiram quais avós podiam comprar e quais não podiam ainda estarão lá. A prisão não é a resolução. É o momento em que os dois homens finalmente param de fingir que a semelhança era coincidência.

Nêmesis estreia em 14 de maio de 2026 na Netflix, com os oito episódios disponíveis simultaneamente em 190 países. Matthew Law interpreta o detetive Isaiah Stiles; Y’lan Noel interpreta Coltrane Wilder. Cleopatra Coleman, Tre Hale, Domenick Lombardozzi, Jonnie Park, Ariana Guerra e Gabrielle Dennis completam o elenco. Mario Van Peebles dirige os episódios um e dois e atua como produtor executivo. A série é co-criada por Courtney A. Kemp e Tani Marole; é o primeiro projeto do acordo plurianual de Kemp com a Netflix. Uma segunda temporada já foi encomendada.

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