Série

Santita na Netflix transforma uma cadeirante em quem fez o estrago

Martha Lucas

María José Cano deixou o homem que amava no altar depois de um acidente que a colocou na cadeira de rodas. Vinte anos depois, ele voltou com um pedido. Mas a série Santita, que chega à Netflix em sete episódios, não está interessada em redenção. Está interessada em saber se uma mulher que se recusa a pedir desculpa pode ser amada do jeito que ela já é.

A declaração que define o tom vem logo no primeiro episódio. Paulina Dávila, como Santita, diz sem contexto e sem rodeios: “Yo sé que soy una cabrona y que he sido una cabrona. Y, probablemente, siempre sea una cabrona.” Ela não acrescenta nada. A série também não pede que ela acrescente.

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A cadeira de rodas é o mecanismo, não o tema

A telenovela mexicana tem uma longa tradição de santificar o corpo que sofre: a mulher com deficiência é boa porque aguenta. Santita desmonta essa lógica de propósito. María José não busca superação. Ela é médica, frequenta brigas de galo em Tijuana, e há vinte anos persegue o orgasmo que a lesão medular levou embora — premissa baseada na realidade médica de que algumas mulheres com lesões medulares podem recuperar a capacidade orgásmica por vias não genitais.

Rodrigo García — filho de Gabriel García Márquez, diretor de episódios de The Sopranos e Six Feet Under, responsável por filmes como Nine Lives e Albert Nobbs — concebeu Santita originalmente como longa-metragem. O personagem não cabia em duas horas. A Netflix deu sete episódios fechados, sem promessa de segunda temporada, sem o infinito de segundas chances que a telenovela garante. As consequências precisam ser encaradas, não adiadas.

Tijuana como geografia moral

A série foi gravada em Tijuana e na Cidade do México, e a escolha não é acidental. A cidade de fronteira funciona no imaginário moral mexicano como o lugar onde os sistemas de redenção perdem o valor fixo. Santita construiu a vida dela ali, longe de qualquer obrigação de se explicar. Segundo Paulina Dávila, as onze milhões de mulheres com deficiência no México são expostas de forma desproporcional à violência de gênero e à discriminação. O que a Netflix vende como história “irresponsável e irriverente” na sinopse oficial é, nesse contexto, uma reivindicação política que estava esperando orçamento de streaming.

Paulina Dávila, atriz colombiana interpretando uma personagem mexicana, cria uma fricção leve e intencional — ela não pode ser lida como arquétipo nacional, só como indivíduo cujo mau comportamento é estritamente dela. Gael García Bernal chega como Esteban com duas décadas de capital romântico acumulado no cinema latino e internacional. A série coloca ele na posição de quem foi abandonado, que volta com um pedido que o roteiro guarda do espectador, e pede que ele fique nessa posição enquanto Santita não explica nada. Essa inversão — o ídolo romântico de Y Tu Mamá También reduzido ao papel de parte lesada — é um dos movimentos mais precisos da série.

Santita - Netflix
Santita. (L to R) Cecilia Cañedo as Lía, Paola Fernández as Verónica in Santita. Cr. Courtesy of Netflix ©2026

A pergunta que fica sem resposta

O que o reencontro com Esteban não resolve — o que sete episódios de dramédia de fronteira podem encenar mas nunca fechar — é a pergunta central da série: dá pra amar uma mulher que se declarou cabrona desde o primeiro minuto, sem arco de aprendizado, sem promessa de melhora, e amar ela não apesar desse recuo, mas incluindo ele? A série dramatiza. Não responde.

Santita estreia na Netflix em 22 de abril de 2026, em sete episódios. Criada e escrita por Luis Cámara e Gabrielle Galanter, com direção de Rodrigo García. Com Paulina Dávila como María José Cano e Gael García Bernal como Esteban. Elenco de apoio: Ilse Salas, Erik Hayser, Álvaro Guerrero e Sally Quiñonez. Produção: Panorama Entertainment.

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