Negócios e finanças

A multa de US$ 1 bilhão da UE ao Google pode baratear seus apps e piorar suas buscas

Victor Maslow

Bruxelas aplicou uma multa ao Google nesta semana, e todas as manchetes destacaram o valor. O valor é a parte menos interessante da decisão. Para uma empresa que fatura mais do que isso numa tarde comum, uma penalidade europeia é só um custo de fazer negócio — arquivado e esquecido até o próximo balanço trimestral. O que o Google não consegue arquivar é a instrução que veio junto com a multa, porque essa parte nunca chega ao balanço da Alphabet. Ela chega ao seu celular.

A Comissão Europeia não queria só o dinheiro do Google; queria mudar o comportamento da empresa. A gigante foi considerada culpada por favorecer seus próprios serviços na Play Store e nos resultados de busca e — o que mais importa para você — por impedir que desenvolvedores de aplicativos informassem quando o mesmo produto custa mais barato em outro lugar. Tirando a linguagem jurídica, a solução é quase íntima: o software na sua tela está prestes a ganhar permissão para ser honesto com você sobre preços.

Durante anos, o arranjo funcionou silenciosamente contra o usuário. Uma assinatura comprada dentro de um aplicativo incluía uma comissão para o dono da loja, e os desenvolvedores eram proibidos de mencionar que a mesma assinatura era mais barata na web aberta. Você pagava o acréscimo sem nunca ser informado da saída. A ordem da Comissão abre essa porta: os desenvolvedores agora podem te direcionar para a oferta melhor, mesmo quando o Google não ganha nada com isso. “Os melhores produtos devem vencer porque são melhores”, disse Teresa Ribera, chefe de concorrência da Comissão, “não porque pertencem à empresa que controla o mecanismo de busca.”

A resposta do Google é que a cura vai doer. Kent Walker, diretor de assuntos globais da empresa, chama a decisão de “degradação de produto impulsionada por um pequeno grupo de reclamantes interesseiros” e alerta que o impacto recairá sobre empresas e consumidores europeus, não sobre a companhia. Há uma reclamação real escondida nesse discurso. Para cumprir as regras de neutralidade, o Google diz que terá que remover funcionalidades que as pessoas realmente usam — os preços instantâneos de hotéis, voos e restaurantes que aparecem nos resultados de busca — exatamente porque esses boxes são o tipo de autofavorecimento que a Comissão quer eliminar.

Então o leitor herda uma troca. Os aplicativos e assinaturas no seu celular podem ficar mais baratos, já que o imposto invisível da loja perde sua cobertura. A caixa de busca pode ficar mais simples, devolvendo uma lista de links onde antes devolvia uma resposta pronta. Ambos os efeitos são reais; ambos chegam primeiro na Europa. E repare quem está pagando a conta aqui — não a Alphabet, que absorve a multa e segue em frente, mas o usuário, que terá que reaprender a usar um mecanismo de busca, e o desenvolvedor, que terá que reconstruir um checkout. O dinheiro é simbólico. A mudança de comportamento é a fatura de verdade.

O valor em si é de aproximadamente um bilhão de dólares, anunciado pela Comissão em 23 de julho sob o Digital Markets Act — a lei criada justamente para forçar esse tipo de mudança estrutural, e não para arrecadar multas. O Google tem sessenta dias para se adequar ou enfrentará cobranças recorrentes sobre o valor original. Apesar de todo o discurso de “recorde” nas primeiras coberturas, não é um — a multa muito maior do Android, anos atrás, ofusca esta. E é exatamente esse o ponto. O tamanho do cheque nunca foi o verdadeiro dissuasor que o Digital Markets Act buscava.

Da próxima vez que um aplicativo te empurrar para um preço mais barato na web, ou uma busca por um voo devolver links onde antes devolvia uma tarifa, isso é o que uma multa de um bilhão de dólares realmente comprou — paga, como sempre, nas entrelinhas da sua própria tela.

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