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Dogman: o drama policial de drag e cães que levou Caleb Landry Jones ao Dracula de Luc Besson

Veronica Loop
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Dogman, de Luc Besson, acompanha um homem que cresceu trancado num canil, conheceu Shakespeare num reformatório e acabou com um número de cabaré e uma matilha de cães adestrados. O filme estreou na competição de Veneza em 2023, dividiu a imprensa e deu início à parceria entre Besson e Caleb Landry Jones que resultou em Dracula dois anos depois.

Dogman, escrito e dirigido por Luc Besson, começa com uma prisão. Em Nova Jersey, a polícia para um caminhão cheio de cães. Ao volante está Douglas Munrow (Caleb Landry Jones), um homem que usa cadeira de rodas e está vestido de drag. Ele é levado sob custódia, e uma psiquiatra, Evelyn (Jojo T. Gibbs), é chamada para conversar com ele. O resto do filme é, em boa parte, a resposta dele às perguntas dela: a história de sua vida, contada em flashbacks.

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Essa história começa numa casa violenta. O pai de Douglas, Mike (Clemens Schick), e o irmão mais velho, Richie (Alexander Settineri), são fanáticos religiosos abusivos que criam cães para rinhas ilegais e os deixam passar fome para torná-los mais agressivos. Douglas alimenta os animais em segredo. Quando admite que ama os cães mais do que a própria família, o pai o tranca com eles no canil ao ar livre, e é ali que ele cresce. Um confronto posterior com o pai por causa de uma ninhada de filhotes termina com um tiro que o deixa paralisado.

Os flashbacks seguem então Douglas por casas de acolhimento e por uma instituição para menores, onde uma professora de teatro, Salma (Grace Palma), o apresenta a William Shakespeare e à ideia de que uma pessoa pode ser qualquer um num palco. Já adulto, ele vive à margem: administra um abrigo de cães até que seja fechado, leva seus animais para uma escola abandonada, se apresenta uma vez por semana num cabaré drag e treina os cães para roubar joias de casas ricas e para proteger as pessoas da vizinhança. Um investigador de seguros, Ackerman (Christopher Denham), e um chefe de gangue local conhecido como El Verdugo (John Charles Aguilar) acabam se aproximando. Como tudo termina, e o que Evelyn pensa de tudo isso, fica para o espectador descobrir.

De onde veio a ideia

Besson já disse que o ponto de partida foi uma notícia real sobre um menino de cinco anos que a família mantinha trancado numa jaula. Em torno dela, construiu um personagem que podia acompanhar da infância até a meia-idade, e uma moldura, a conversa com uma psiquiatra, que lhe permitia saltar entre fases da vida de Douglas. O filme anuncia seu tema antes da primeira cena com uma frase do poeta francês Alphonse de Lamartine: onde há uma pessoa infeliz, Deus envia um cão. Essa citação também abriu o primeiro trailer, exibido num evento fechado no Grand Rex, em Paris, em janeiro de 2023.

Quando o projeto foi anunciado, em janeiro de 2022, era o primeiro filme de Besson como diretor desde Anna, de 2019. A imprensa francesa comparou o material aos primeiros filmes dele, e não à ficção científica de grande escala de Lucy e de Valerian e a Cidade dos Mil Planetas: como os heróis de Subway e Léon, Douglas é um outsider que vive pelas próprias regras na beira de uma cidade. Dogman é um filme em inglês, ambientado em Nova Jersey, mas é uma produção francesa, feita pela Luc Besson Production com a EuropaCorp e a TF1 Films Production e produzida por Virginie Besson-Silla.

Filmado em Essonne e Newark

As filmagens aconteceram em 2022, em parte em locações em Newark, Nova Jersey, em junho, e em parte na França. As gravações francesas usaram o castelo de Saint-Germain-lès-Corbeil e os estúdios Dark Matters, em Tigery, no departamento de Essonne, ao sul de Paris, uma instalação construída para produção virtual, em que cenários digitais são projetados em grandes telas de LED atrás dos atores. Besson filmou em widescreen anamórfico, com Colin Wandersman como diretor de fotografia, Julien Rey como editor e Hugues Tissandier como designer de produção. O orçamento é apontado em cerca de 20 milhões de euros, ou 21 milhões de dólares.

A trilha sonora é de Éric Serra, compositor de The Big Blue, Nikita, Léon e O Quinto Elemento, naquela que as fontes francesas contam como sua 16ª colaboração com Besson. O álbum da trilha, lançado pela Because Music, tem 30 faixas e inclui também duas gravações de Édith Piaf e Autumn Star, canção de Sateen, filha de Besson, com Adrien Arnaud. Os números de cabaré de Douglas são feitos sobre gravações: La Foule e Non, je ne regrette rien, de Piaf, e Lili Marleen, como Marlene Dietrich.

Caleb Landry Jones e quase um ano de preparação

Caleb Landry Jones, nascido em Garland, no Texas, em 1989, estreou ainda adolescente num pequeno papel em Onde os Fracos Não Têm Vez e construiu reputação em papéis coadjuvantes em X-Men: Primeira Classe, Corra!, Projeto Flórida e Três Anúncios para um Crime. Em 2021, ganhou o prêmio de melhor ator em Cannes por Nitram, filme de Justin Kurzel sobre o atirador de Port Arthur. Ele também é músico, com vários álbuns lançados pelo selo Sacred Bones desde 2020.

Besson já disse que os dois se aproximaram por causa dos cães. Jones descreveu quase um ano de preparação, boa parte dele em longas conversas com Besson sobre o personagem e o roteiro. Fez aulas de balé e de canto, conheceu os lobos de um adestrador, caminhou com um elefante de circo e passou um tempo com um médico que explicou como a bala que paralisa Douglas afetaria o corpo dele. Também disse que não precisou cantar as músicas de Piaf, o que descreveu como um alívio.

Os cães foram a outra grande tarefa logística. Pela contagem do próprio Jones, cerca de 35 cães trabalharam com ele em muitas cenas, e mais de 100 numa sequência de ação, cada grupo com adestradores dando comandos fora de câmera. Ele brincou que o departamento de som passou por maus bocados e descreveu Besson como um diretor que operou a câmera no próprio ombro durante toda a filmagem.

O resto do elenco

Jojo T. Gibbs, nome norte-americano conhecido pela série Twenties, interpreta Evelyn, cujo passado também entra na conversa. O ator alemão Clemens Schick, que apareceu em Casino Royale, faz o pai. Christopher Denham faz Ackerman, Grace Palma faz Salma, Lincoln Powell interpreta Douglas adolescente, Iris Bry faz a mãe dele, e Marisa Berenson, estrela de Barry Lyndon e Cabaret, aparece como uma aristocrata. Vários artistas drag participam das cenas de cabaré.

Veneza, imprensa dividida e lançamento lento

Dogman estava previsto para estrear na França em 19 de abril de 2023. Depois de uma resposta positiva dos compradores no European Film Market, em Berlim, em fevereiro daquele ano, o lançamento foi adiado para mirar um festival de outono. O filme foi selecionado para a competição principal do 80º Festival de Veneza e fez ali sua estreia mundial em 31 de agosto de 2023. Concorreu ao Leão de Ouro, também foi indicado ao Queer Lion e ganhou um dos prêmios independentes do festival, o Fanheart3 Graffetta d’Oro de melhor filme.

A estreia veio poucos meses depois do fim de um longo processo judicial. Em 2018, a atriz Sand Van Roy acusou Besson de estupro, acusação que ele negou. O Ministério Público arquivou o caso em 2019, um juiz o rejeitou em dezembro de 2021 depois de uma segunda investigação, e em junho de 2023 a Corte de Cassação da França confirmou o arquivamento. Besson foi a Veneza pela primeira vez com Dogman, e a decisão do festival de selecioná-lo gerou críticas, além de apoio.

A imprensa se dividiu. As notas dos agregadores ficaram na faixa intermediária, enquanto as notas do público nos mesmos sites foram bem mais altas, e na Alemanha o órgão de classificação FSK descreveu um filme que mistura comédia, ação e drama psicológico num estilo por vezes exagerado. Dogman estreou na França em 27 de setembro de 2023, vendeu 289.480 ingressos no país e chegou à Alemanha e à Itália em outubro. A Briarcliff Entertainment o lançou nos Estados Unidos em março de 2024. A bilheteria mundial foi de cerca de 4,2 milhões de dólares.

De Dogman a Dracula

O resultado mais duradouro de Dogman talvez seja a parceria que ele iniciou. Besson disse em 2024 que, desde que trabalhou com Jones, só quis fazer outro filme com ele, chamando-o de absurdamente talentoso e dizendo não ter visto nada parecido desde Gary Oldman. Em seguida, construiu seu projeto seguinte em torno do ator: Dracula, lançado em alguns países como Dracula: A Love Tale, com Jones como o conde e Christoph Waltz e Zoë Bleu no elenco, de novo com fotografia de Colin Wandersman e produção de Virginie Besson-Silla, e com música de Danny Elfman.

Dracula estreou na França em 30 de julho de 2025 e foi o filme francês de maior bilheteria do ano no mundo, com cerca de 42,5 milhões de dólares para um orçamento divulgado de 45 milhões de euros. Nos Estados Unidos, entrou em cartaz em circuito amplo em fevereiro de 2026 e arrecadou mais de 9 milhões de dólares nos primeiros 10 dias, o melhor desempenho de um filme francês no país desde 2017. Como Dogman, dividiu os críticos e teve notas mais altas entre o público. Besson escreveu e produziu desde então Father Joe, com Al Pacino, que estreou em Veneza em setembro de 2026.

Visto de 2026, Dogman parece um ponto de virada na fase final da carreira de Besson: um filme menor e mais estranho que seus blockbusters, construído em torno de um ator e algumas dezenas de cães, feito num estúdio projetado para produção virtual e lançado depois de anos de problemas judiciais e financeiros em torno do diretor e de sua empresa. Se a mistura de história de crime, melodrama e cabaré se sustenta é uma pergunta que os espectadores respondem de maneiras muito diferentes, como mostra a distância entre críticos e público. O que não está em dúvida é que a colaboração entre Luc Besson e Caleb Landry Jones não terminou ali: ela levou diretamente a Dracula.

Direção

Luc Besson
Photo via The Movie Database (TMDB)

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