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História de um Assassinato: Sienna Miller esconde um corpo em 71 minutos de James Toback

Camille Lefèvre
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Rodado como The Private Life of a Modern Woman e lançado em Veneza em 2017, o thriller de câmara de James Toback coloca Sienna Miller no centro de uma morte acidental e das perguntas que ela levanta, e deu a Charles Grodin seu último papel nas telas.

História de um Assassinato (An Imperfect Murder) é um filme pequeno com uma grande árvore genealógica literária. Escrito e dirigido por James Toback e exibido fora de competição no 74º Festival Internacional de Cinema de Veneza em 3 de setembro de 2017, com o título original The Private Life of a Modern Woman, o longa acompanha uma atriz bem-sucedida de Nova York nas horas seguintes à morte de um homem em seu apartamento. Tem 71 minutos, traz a última atuação de Charles Grodin nas telas, e seu caminho do Lido até as telas americanas acabou sendo mais longo e mais estranho do que o próprio filme.

Sienna Miller interpreta Vera Lockman, uma atriz cuja carreira vai bem e cujo passado ainda não a deixou totalmente em paz. Seu ex-namorado Sal, usuário de drogas e pequeno criminoso vivido por Nick Mathews, aparece armado no apartamento dela exigindo dinheiro. Os dois disputam a arma, ela dispara e Sal morre. Pelo próprio relato da trama, a morte é quase um acidente, e o filme deixa em aberto, por um tempo, se Vera está lembrando ou sonhando o que aconteceu. O que ela faz em seguida é a história: liga para o número de emergência, desliga e dobra o corpo dentro de um grande baú de viagem azul.

A partir daí, o filme vira uma sequência de visitas. Um jovem aparece querendo que Vera leia sua tese sobre o assassinato em Dostoiévski e Dickens. Franklin, uma figura de mentor interpretada pelo próprio Toback, a questiona sobre seu estado de espírito. Vera sai da cidade de carro com o baú e o afunda na água. O detetive McCutcheon, vivido por Alec Baldwin, chega fazendo perguntas sobre o homem desaparecido. A mãe dela, Elaine, e o avô, Arthur, vêm jantar, e o empresário Carl Icahn, que aparece como ele mesmo, tem um papel na forma como Vera pesa sua situação. Vamos deixar o final onde o filme o deixa.

Um thriller que assume os próprios antepassados

A tese sobre Dostoiévski e Dickens não é um toque sutil, nem pretende ser. Crime e Castigo é o modelo óbvio: uma morte, um corpo, uma consciência entregue a uma discussão consigo mesma enquanto um investigador paciente vai fechando o cerco. Toback nunca escondeu suas dívidas. Sua carreira começou com o roteiro semiautobiográfico de The Gambler (1974), sobre um professor de literatura com um vício ruinoso em jogo, e sua estreia na direção, Fingers (1978), escalou Harvey Keitel como um homem dividido entre o piano de concerto e a cobrança de dívidas. Vidas duplas e apetites que destroem seus donos atravessam quase tudo o que ele fez.

História de um Assassinato foi seu primeiro longa dramático desde When Will I Be Loved (2004), treze anos antes, e nesse intervalo ele havia trabalhado com documentário, em Tyson (2008), que ganhou um prêmio na mostra Un Certain Regard em Cannes, e Seduced and Abandoned (2013). O novo filme está mais próximo, em escala, de Two Girls and a Guy (1997), seu drama mais contido: um punhado de cômodos, uma lista curta de personagens e uma figura central cujo relato sobre si mesma não para de mudar. A pergunta que ele se propõe a fazer não é quem matou Sal, mas que tipo de pessoa Vera se revela depois de decidir não contar nada a ninguém.

Para Sienna Miller, o papel fica entre duas fases de uma carreira que começou com Layer Cake e Alfie em 2004. Ela havia interpretado Edie Sedgwick em Factory Girl (2006) e Tippi Hedren no telefilme The Girl (2012), e nos anos imediatamente anteriores a Veneza tinha assumido papéis coadjuvantes em Foxcatcher (2014), Sniper Americano (2014) e Z: A Cidade Perdida (2016). Vera é protagonista em todos os sentidos: o filme é construído em torno dela, a trama é uma cadeia de conversas com ela, e a única pergunta que a trama continua fazendo, quem Vera realmente é, repousa apenas sobre ela.

Um jantar em família e uma despedida

Charles Grodin interpreta Arthur, o avô de Vera, um homem que convive com a doença de Alzheimer, e o jantar em família em que a doença de Arthur vem à tona é uma das sequências centrais do filme. Foi seu último filme. Grodin, nascido em Pittsburgh em 1935, teve um pequeno papel em O Bebê de Rosemary (1968), foi o protagonista de The Heartbreak Kid (1972), de Elaine May, que lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro, e se tornou o “escada” mais confiável da comédia americana com O Céu Pode Esperar (1978), Fuga à Meia-Noite (1988) e Beethoven (1992). Também ganhou um Emmy como roteirista de The Paul Simon Special e apresentou seu próprio talk show na CNBC. Morreu em 18 de maio de 2021, sete meses depois de este filme finalmente chegar ao público americano.

A presença de Alec Baldwin também não é por acaso. Baldwin e Toback passaram juntos o Festival de Cannes de 2012 tentando financiar um filme, uma busca que virou o documentário Seduced and Abandoned, que estreou em Cannes no ano seguinte. Aqui, Baldwin vive o policial a cujas perguntas Vera precisa sobreviver, um papel que coloca uma das vozes mais reconhecíveis do cinema e da televisão americanos do outro lado da mesa.

Colleen Camp, escalada como Elaine, a mãe de Vera, já havia dividido um filme com Miller em Factory Girl; sua longa carreira vai de Apocalypse Now (1979) à comédia cult Os Sete Suspeitos (1985), em que interpretou a empregada Yvette. Em volta deles, Toback escalou gente próxima. John Buffalo Mailer, o filho mais novo do romancista Norman Mailer, interpreta Leon, e Oliver “Power” Grant, associado ao Wu-Tang Clan que fundou a marca de roupas Wu Wear e já havia atuado em Black and White (1999), de Toback, interpreta Rameesh. Grant morreu em fevereiro de 2026. A aparição de Carl Icahn como ele mesmo é a escolha de elenco mais inusitada do filme: um investidor bilionário entrando numa ficção sobre culpa e dinheiro.

Pequeno de propósito

O filme foi produzido por Michael Mailer, filho mais velho de Norman Mailer, por meio da Michael Mailer Films, com a BondIt Media Capital e a Private Life Productions. Mailer já havia apoiado Toback em Black and White e Harvard Man (2001), e foi produtor executivo de Two Girls and a Guy. O diretor de fotografia foi Larry McConkey, veterano da Steadicam mais conhecido como o operador por trás do longo plano-sequência no Copacabana em Os Bons Companheiros (1990) e do extenso plano no Winter Garden em A Fogueira das Vaidades (1990). Aaron Yanes, que havia montado Seduced and Abandoned, assinou a montagem, e Jeanne Fox supervisionou a música, que se apoia no repertório clássico, com a Sétima Sinfonia de Shostakovich, a “Leningrado”, em destaque na trilha sonora.

Com 71 minutos, o filme fica bem abaixo da duração da maioria dos longas lançados nos cinemas, uma extensão mais adequada à forma como se assiste a filmes em casa do que à programação de uma sala. Depois de Veneza, circulou pelo circuito de festivais, incluindo o Festival Internacional de Cinema de Oldenburg, na Alemanha, que havia dedicado uma retrospectiva a Toback em 2008, onde foi exibido em 2018.

Três anos entre Veneza e o lançamento

A trajetória posterior do filme não pode ser separada da de seu diretor. Em 22 de outubro de 2017, sete semanas após a estreia em Veneza, o Los Angeles Times publicou uma investigação na qual 38 mulheres acusavam Toback de assédio ou agressão sexual, descrevendo encontros apresentados como entrevistas ou testes de elenco. Em janeiro de 2018, o jornal informou que 395 mulheres o haviam procurado com relatos semelhantes ao longo de quatro décadas. Toback negou todas as acusações.

Em abril de 2018, promotores do condado de Los Angeles decidiram não apresentar denúncia, citando a prescrição na maioria dos casos. Em dezembro de 2022, uma ação civil foi movida em Nova York com base no Adult Survivors Act, lei que havia reaberto temporariamente o prazo para esse tipo de reivindicação; o processo chegou a 40 autoras. Toback não compareceu ao julgamento e representou a si mesmo, e em 9 de abril de 2025 um veredicto determinou que ele pagasse 1,68 bilhão de dólares às mulheres.

Nesse meio-tempo, o filme chegou ao público americano em 9 de outubro de 2020, três anos depois de Veneza, em lançamento limitado nos cinemas e em vídeo sob demanda pela Quiver Distribution, agora com o título An Imperfect Murder. Não encontramos nenhuma explicação pública para esse intervalo, e não vamos inventar uma. O novo título empurra o filme para a prateleira dos thrillers; o antigo descrevia o que Toback parecia buscar, o retrato de uma mulher examinando a própria vida depois de um único acontecimento catastrófico.

O que resta é um objeto curioso: uma peça de câmara que cita Dostoiévski em voz alta, um papel principal escrito inteiramente em torno de Sienna Miller, um último papel para Charles Grodin e um diretor cujo nome hoje chega antes de qualquer discussão sobre o filme. Se a ambição literária encontra correspondência no que acontece na tela é algo que cada espectador vai decidir por conta própria. Como registro de onde essas carreiras estavam em 2017, História de um Assassinato revela mais do que sua curta duração sugere.

Direção

James Toback
Photo via The Movie Database (TMDB)

James Toback

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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