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I Love Boosters, com Keke Palmer, chega ao Brasil após encantar a crítica e fracassar nos EUA

Martha O'Hara
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A imagem que acompanha I Love Boosters é uma multidão de rostos tão espremidos que se leem como um único arranjo: cabelos empilhados em verde, em azul e rosa, em laranja, em magenta, florzinhas presas em volta dos olhos, um canteiro de flores amarelas, azuis e cor-de-rosa onde deveriam estar os ombros, uma onda de babados vermelhos de um lado e, na beirada, uma mulher loira de óculos pretos. Tudo iluminado contra o preto. É o resumo mais honesto da proposta de Boots Riley, uma comédia sobre ladras de loja que roubam uma grife de luxo e revendem as roupas baratinho, vestida como a passarela que quer saquear.

Essa imagem agora precisa vender o filme pela segunda vez, e o Brasil faz parte dessa nova largada. Nos Estados Unidos, o próprio diretor chamou a passagem pelos cinemas de decepção, mesmo com a crítica fechada a favor dele. Fora de lá, o longa recomeça do zero: sessões comerciais na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, onde Riley integra o júri, estreia nos cinemas brasileiros pela Universal em novembro, uma das galas principais do Festival de Cinema de Londres do BFI, uma vaga na competição do Festival de Cinema de Roma e lançamento no Reino Unido e na Irlanda pela Focus Features no fim do mês. A pergunta que fica é se a boa vontade da crítica consegue lá fora o que não conseguiu em casa.

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O elenco é montado como um retrato de grupo, não como veículo para uma estrela. Keke Palmer vive Corvette, aspirante a estilista que rouba da grife que admira, e Naomi Ackie como Sade e Taylour Paige como Mariah completam o trio conhecido como Velvet Gang. Demi Moore é Christie Smith, a estilista cuja rede de lojas elas depenam. Poppy Liu interpreta Jianhu, operária de uma das fábricas da grife na China, e Eiza González é Violeta, uma ex-colega de trabalho que quer que a gangue lute por condições melhores em vez de só faturar. Odie Henderson, do Boston Globe, destacou Palmer e Moore como especialmente encantadoras.

Riley chegou ao cinema pela música. Ele lidera o grupo de hip-hop The Coup, e este filme nasce de uma das canções da própria banda, «I Love Boosters!». Seu longa de estreia, Sorry to Bother You (2018), acompanhava um operador de telemarketing vivido por LaKeith Stanfield que se dá bem ao adotar uma «voz de branco», e transformou um orçamento modesto em sucesso de verdade. Depois ele criou e dirigiu a série absurdista I’m a Virgo (2023). O novo filme mantém a mesma lógica de comédia de trabalho que escorrega para a ficção científica, e o mesmo arranjo fora dos Estados Unidos: como na estreia, Focus Features e Universal cuidam da distribuição internacional.

A premissa fica com os pés no chão antes de virar de ponta-cabeça. A Velvet Gang furta roupas da rede Metro Designers na Baía de São Francisco e as revende com desconto para fechar as contas do mês, uma prática que o slogan do filme define como «serviço comunitário». A admiração de Corvette por Christie azeda quando uma das peças novas da grife se revela idêntica a uma criação dela. Então chega Jianhu, com teletransportadores roubados da fábrica, mandando mercadoria de volta para a China como moeda de pressão por salários melhores, e a comédia de assalto vira algo bem mais estranho. Riley nunca teve interesse em manter suas metáforas na coleira.

A crítica, em sua maioria, foi junto. O filme tem 92% de resenhas positivas entre 152 críticos no Rotten Tomatoes e nota 71 no Metacritic. Amy Nicholson, do Los Angeles Times, chamou o longa de «uma delícia maximalista» e de «uma extravagância de comédia chapada, cheia de paetês, com a ousadia de dar uma banana para o realismo à moda Monty Python». Odie Henderson, no Boston Globe, deu crédito a Riley «não só por criar um filme tão absolutamente maluco quanto I Love Boosters, mas também por ancorá-lo numa exigência furiosa de respeito à classe trabalhadora».

As ressalvas existem, e explicam parte do resultado americano. Segundo o verbete na Wikipedia, o filme arrecadou US$ 9,7 milhões no mercado doméstico americano contra um orçamento de cerca de US$ 20 milhões, enquanto Sorry to Bother You fez US$ 18,3 milhões com US$ 3,2 milhões. O público consultado pelo CinemaScore deu nota B. Maya Phillips, do The New York Times, achou parte da maluquice «mais caricatamente gasta do que suas guinadas mais inventivas», às custas de «uma mensagem política mais coerente e mordaz». Radheyan Simonpillai, do The Guardian, que no geral se divertiu, escreveu que os personagens «podem parecer frustrantemente limitados». Há ainda um problema de calendário que o circuito de festivais não resolve: a estreia britânica chega depois dos lançamentos em digital e em disco nos Estados Unidos, e uma comédia maximalista que depende do boca a boca alcança novos públicos com boa parte desse boca a boca já gasto.

Onde o filme parece mais seguro de si é nas superfícies. Foi rodado em Atlanta pela diretora de fotografia Natasha Braier, com trilha de Tune-Yards, e o The New York Times elogiou o figurino e o design de produção, além de Palmer. A Neon montou parte da campanha em torno desse guarda-roupa, com um vídeo promocional dedicado ao figurino ao lado de featurettes sobre o que é o boosting e como identificar uma peça falsificada. Riley e Palmer ainda gravaram um EP original de trilha sonora, puxado pelo single «2-D». Num filme sobre quem tem o direito de vestir o quê, a roupa não é enfeite: é o argumento.

A still from the Boots Riley comedy I Love Boosters, 2026
A still from Boots Riley film I Love Boosters (2026)

Além desses seis nomes, o elenco inclui LaKeith Stanfield como um homem misterioso com um anel no dedo mindinho, Will Poulter, Don Cheadle, Adam DeVine, Kara Young, Robin Thede, Jason Ritter, Eric André e Jermaine Fowler, com Viggo Mortensen dando voz ao narrador de um documentário. Aaron Ryder e Andrew Swett produziram pela Ryder Picture Company, com financiamento da Neon e da Waypoint Entertainment. A duração é de 113 minutos.

Estreia nos cinemas brasileiros em 19 de novembro, pela Universal, com sessões comerciais na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, onde Riley integra o júri da competição Novos Diretores. I Love Boosters abriu o SXSW Film & TV Festival em 12 de março de 2026 e foi lançado nos Estados Unidos e no Canadá pela Neon em 22 de maio, seguido do digital em 23 de junho e do disco em 22 de setembro. No circuito internacional, é Headline Gala no Festival de Cinema de Londres do BFI (de 7 a 18 de outubro) e compete neste mês na seção Progressive Cinema do Festival de Cinema de Roma. A Focus Features leva o filme aos cinemas do Reino Unido e da Irlanda em 30 de outubro, e as programações apontam 5 de novembro na Alemanha. Um filme que já chegou às prateleiras americanas em disco ganha desse calendário algo raro: uma segunda noite de estreia.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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