Atores

Eiza González, a atriz que refez o corpo antes de alguém comprar o roteiro

Penelope H. Fritz

A imagem que define Eiza González em 2026 não é um fotograma. É uma foto publicada por ela mesma: as costas feitas de músculo que ela não tinha nove meses antes. O corpo é para Iron Jane, drama sobre fisiculturismo feminino que a agência dela ainda terminava de vender no Marché du Film de Cannes. Ela tinha se comprometido com o papel — emocional e fisicamente — antes que o papel tivesse comprador. Essa frase descreve o formato da carreira melhor do que qualquer linha da filmografia.

Vem de uma infância na Cidade do México com clima próprio. A mãe, Glenda Reyna, foi modelo. O pai, Carlos, morreu em acidente de moto quando ela tinha doze anos. Diagnosticada com TDAH, canalizou a hiperatividade no palco — canto, dança, atuação — até que esse canalizar virasse profissão. Aos catorze estudava no CEA da Televisa; aos dezesseis era a protagonista de Lola, érase una vez, a novela teen de 2007 que a tornou um rosto conhecido de Buenos Aires a Tijuana.

Aos anos de novela chegou um contrato de gravadora. Contracorriente, sua estreia de 2009 pela EMI Televisa, entrou na Billboard Latin; um segundo álbum, Te Acordarás de Mí, saiu em 2012. Existe uma versão da biografia em que essa teria sido a história inteira — estádios na América Latina, novela em casa, rosto famoso para sempre. Ela recusou. Em 2013, com inglês limitado e um empresário que a avisou que recomeçava do zero, mudou-se para Los Angeles.

O primeiro papel grande nos Estados Unidos foi aprendido foneticamente. From Dusk Till Dawn: The Series a escalou como Santánico Pandemonium — a rainha vampira de Robert Rodriguez, personagem que Salma Hayek havia estreado no cinema — e ela decorou as falas sílaba por sílaba. Três temporadas na El Rey Network viraram a fita que abriu a porta seguinte.

A porta seguinte era a de Edgar Wright. Baby Driver deu a ela Darling, uma mulher que gira uma pistola de salto alto e acende um diner com um magnetismo que sobrevive ao acordo do roteirista de não deixá-la falar muito. O filme rendeu 226 milhões de dólares no mundo. González não saiu dali com papel mais rico. Saiu com uma fila mais longa de papéis coadjuvantes em produções mais caras — Hobbs & Shaw, Bloodshot, I Care a Lot, Godzilla vs. Kong — a taquigrafia de gênero do action americano, onde uma atriz latina se lê como glamour armado até alguém decidir confiar de outra forma.

A década depois de Baby Driver é a parte mais discutível do percurso. González foi, repetidamente, a presença mais carismática de filmes cujos protagonistas eram menos interessantes do que ela. Produtores a contratavam por presença e a escreviam na arquitetura, não no centro. A leitura fácil é o conservadorismo dos estúdios diante de uma protagonista mexicana. A leitura mais interessante é que ela aceitou aqueles papéis sabendo exatamente o que iam permitir construir depois. Ambulance, de Michael Bay (2022), foi o teste — segundo nome no cartaz, sustentando hora e meia de perseguição ao lado de Jake Gyllenhaal e Yahya Abdul-Mateen II. O filme era irregular; o trabalho dela, não.

Desde Ambulance, ela é visivelmente escolhida em vez de visivelmente alocada. A adaptação Netflix da trilogia de Liu Cixin lhe deu Auggie Salazar em O Problema dos 3 Corpos, versão invertida de raça e gênero da física protagonista do romance, personagem que ela mesma descreveu como não desenhada para ser simpática. Treinou com físicas para encarná-la. Guy Ritchie a chamou em 2024 para Marjorie Stewart em The Ministry of Ungentlemanly Warfare, agente poliglota a quem ele pediu para cantar em alemão a música do clímax; ela ensaiou com um dialect coach em uma noite. Ash, estreia na direção de Flying Lotus em 2025, a colocou no centro de um horror cósmico — a crítica se dividiu entre admirar a interpretação e questionar o roteiro, mas a conversa sobre protagonista deixou de ser hipotética.

Em 2021 virou embaixadora global da Bvlgari, primeira latina no posto. Em 2025 caminhou pelo tapete de Cannes com o tenista búlgaro Grigor Dimitrov, depois de uma década recusando falar de relacionamentos na imprensa. Em entrevista, já tratou da depressão e do transtorno alimentar que vieram após a morte do pai — contexto que a versão press kit da história costuma deixar de fora.

Há dois filmes à frente. In the Grey é a segunda colaboração com Guy Ritchie, rodada em 2024 e empurrada para estreia tardia. Iron Jane, estreia de Lissette Feliciano sobre uma mulher que se encontra na subcultura brutal do fisiculturismo de competição, é o que pesa mais. González treinou como atleta e deixou a transformação ser pública, nas próprias plataformas, antes de o filme ter distribuição. A aposta é a mesma que ela assina desde os dezesseis: fazer o trabalho mais duro do que o papel pede, e deixar o papel chegar.

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