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Bong Joon-ho: o diretor que quebrou a hegemonia do inglês no Oscar e não parou

Penelope H. Fritz
Bong Joon-ho
Bong Joon-ho
Photo: Dick Thomas Johnson from Tokyo, Japan / CC BY 2.0, via Wikimedia Commons
Nascimento14 de setembro de 1969
Daegu, South Korea
OcupaçãoCineasta
Conhecido porParasita, Memórias de um Assassino, Expresso do Amanhã
PrêmiosPalma de Ouro · 4 Oscar · 2 BAFTA

O arquiteto de um dos filmes mais discutidos das últimas décadas trabalha hoje em algo que ninguém previa: uma animação de ficção sobre uma lula porca chamada Ally, que vive nas profundezas do Pacífico Sul e sonha em ser a estrela de um documentário de natureza. Para quem conheceu Bong Joon-ho por Parasite — que desmontou o mito da meritocracia com precisão cirúrgica — a virada para a animação parece um enigma. Para quem o acompanhava desde o início, é mais um capítulo de uma carreira que sempre gravitou em torno de criaturas que não pertencem ao mundo em que estão.

Nascido em 14 de setembro de 1969 em Daegu, Coreia do Sul, filho de um designer gráfico e neto do romancista Park Taewon — uma das figuras centrais da literatura coreana do século XX —, Bong carrega nos filmes aquela herança literária: a observação de classe implacável, a comédia negra que nunca cai na caricatura, a certeza de que toda história repousa sobre uma arquitetura subterrânea que o espectador só percebe quando desmorona. A família se mudou para Seul ainda quando ele era criança, e é Seul — partida, vertical, uma cidade de andares radicalmente distintos — a geografia que reaparece em toda a sua obra.

Na Universidade Yonsei, onde estudou sociologia a partir de 1988, Bong participou do movimento estudantil pela democracia que agitava os campi sul-coreanos. Depois de se formar em 1993 e passar pela Academia Coreana de Artes Cinematográficas, realizou seus primeiros curtas — trabalhos contidos, de um diretor já mais interessado no peso social do que na virtuosidade formal.

Seu longa de estreia, Barking Dogs Never Bite (2000), fracassou nas bilheterias mas construiu um público fiel. Foi Memories of Murder (2003) — baseado nos primeiros assassinatos em série documentados na Coreia do Sul, sem solução por décadas — que o colocou no mapa internacional. O filme é um policial que se recusa a fechar: dois detetives com métodos radicalmente opostos circulam em torno de um caso sem resposta, e os saltos de tom entre horror e comédia são tão bem calibrados que o final, quando chega, parece uma espécie de luto.

The Host (2006) foi o filme coreano mais visto de todos os tempos no lançamento; na superfície é um filme de monstro, mas no fundo é o retrato de uma família desajeitada e amorosa que as instituições destroem por indiferença estrutural, não por maldade. Mother (2009), construído em torno de Kim Hye-ja numa das maiores atuações do cinema asiático, aprofundou a investigação: o amor materno como força que não consegue vencer o sistema.

A fase anglófona começou com Snowpiercer (2013), adaptação de uma HQ francesa que coloca a luta de classes dentro de um trem que atravessa um planeta congelado. Okja (2017), produzido pela Netflix e levado à competição em Cannes apesar da resistência do festival ao streaming, ampliou a crítica social para o território do ativismo ambiental.

O que aconteceu com Parasite na conversa global revela algo sobre os limites do debate que o filme abriu. A leitura predominante foi a de uma história sobre desigualdade entre ricos e pobres — correta, mas incompleta. O giro mais cruel do filme confronta duas famílias pobres, em posições diferentes da mesma hierarquia, que se destroem mutuamente por recursos que nenhuma delas consegue garantir de verdade. Essa especificidade — que o sistema não só opõe ricos a pobres, mas treina os precarizados para combaterem entre si — foi muitas vezes diluída na recepção internacional num discurso mais confortável sobre desigualdade genérica. Bong observou em entrevistas que o filme não tem solução, apenas um loop; o final, que alguns críticos leram como esperançoso, foi concebido como algo mais próximo de uma porta fechada.

Mickey 17 (2025), com Robert Pattinson como trabalhador descartável numa missão de colonização interestelar, recebeu críticas divididas. Bong não fugiu das comparações com Parasite nem prometeu um retorno ao terreno seguro.

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Ally, apresentado no mercado de Cannes em maio de 2026, é sua primeira animação. Coescrito com Jason Yu e com um elenco de vozes que inclui Ayo Edebiri, Bradley Cooper e Werner Herzog, o filme se passa nas profundezas do Pacífico Sul, onde uma lula sonha com a fama do documentário. A Neon, que distribuiu Parasite na América do Norte, tem novamente os direitos para a região. A produção deve ser concluída em 2027.

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