Atores

David Bowie, o cantor que compôs o próprio fim e deixou o resto como arquivo público

Penelope H. Fritz

Em um galpão reconvertido no leste de Londres, uma vitrine guarda o macacão estampado que Kansai Yamamoto costurou para a turnê de Aladdin Sane, com os saltos das botas gastos. Duas salas adiante, uma pasta de rascunhos mostra a terceira estrofe de Space Oddity sendo riscada e as versões alternativas se aproximando da canção que todo mundo conhece. O David Bowie Centre do V&A East Storehouse abre neste inverno seu acesso livre; a catalogação dos oitenta mil objetos do acervo será concluída até o fim do ano. O artista que nunca parava de avançar foi pregado na parede pelo museu que enfim o reuniu em um lugar só.

David Robert Jones cresceu entre Brixton, onde nasceu em 8 de janeiro de 1947, e o subúrbio dormitório de Bromley, para onde a família se mudou quando ele tinha seis anos. A Bromley Technical High School era uma escola de arte em tudo menos no nome — desenho, tipografia, teatro, movimento cênico — e seu professor Owen Frampton, pai do guitarrista, dizia para ele se pensar como artista no sentido mais amplo. Bowie levou ao pé da letra. No fim dos anos 1960 estudava mímica e teatro de vanguarda com Lindsay Kemp, e a ideia de que o pop era veículo de um eu construído já estava resolvida antes de o primeiro sucesso pousar.

Space Oddity, publicada cinco dias antes do lançamento da Apollo 11, chegou ao quinto lugar das paradas britânicas; o álbum homônimo veio em seguida, e The Man Who Sold the World e Hunky Dory formaram o banco. Em 1972, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars sustentou por um disco inteiro que um álbum pop podia ser uma peça teatral com seus próprios dramatis personae. Aladdin Sane, Pin Ups, Diamond Dogs: a sequência de 1972 a 1974 é uma tese em quatro álbuns sobre como se refazer entre um lançamento e outro.

Young Americans virou para o soul de Filadélfia; Station to Station, gravado numa neblina angelina que ele mal lembraria, inventou o Magro Duque Branco e preparou os anos berlinenses. Com Tony Visconti na produção e Brian Eno como coautor, Low e “Heroes” em 1977 e Lodger em 1979 transformaram sintetizadores e instrumentais de ambiente em arquitetura pop. A trilogia berlinense reconfigurou o futuro da música britânica e norte-americana: uma geração de pós-punk, eletrônica e art-pop cavou seu primeiro idioma nesses três discos.

Scary Monsters (and Super Creeps) fechou a fase experimental em 1980. Let’s Dance, feito com Nile Rodgers, deu a Bowie o maior ano comercial da vida — a canção-título liderou as paradas de singles do Reino Unido e dos Estados Unidos — e ele desconfiou na hora do que aquele sucesso lhe estava ensinando. Tonight e Never Let Me Down, os dois discos seguintes, são os únicos que depois renegou. Fundar o Tin Machine em 1989 foi o preço que pagou para lembrar como soava uma banda.

A versão canonizada de Bowie costuma pular o miolo dos anos 1980, como se o homem de Let’s Dance fosse outro que o que faria Outside com Eno ou Heathen com Visconti. Os curadores do Centre não pularam nada. Está lá o terno de veludo verde-azulado da Glass Spider Tour. E a pasta de um disco do Tin Machine que ninguém tinha pedido. O sentido de um arquivo é guardar os contratos de que você se arrepende junto dos que você não se arrepende. A fase tardia de Bowie — disposição para fazer discos difíceis, para escrever um musical brechtiano fora da Broadway, Lazarus, com Ivo van Hove e Michael C. Hall em 2015, para gravar um álbum de despedidas com o quarteto do saxofonista de jazz Donny McCaslin — só parece inevitável visto do fim. Por dentro, eram apostas.

Blackstar chegou em 8 de janeiro de 2016, dia em que ele completou sessenta e nove anos; morreu de câncer de fígado dois dias depois, tendo guardado o diagnóstico em sigilo por dezoito meses. O EP No Plan saiu em 2017 com as canções que sobraram das sessões de Lazarus. A Parlophone montou seis caixas de época nos nove anos seguintes — Five Years 1969–1973, Who Can I Be Now? 1974–1976, A New Career in a New Town 1977–1982, Loving the Alien 1983–1988, Brilliant Adventure 1992–2001 e, por fim, I Can’t Give Everything Away 2002–2016, lançada em 12 de setembro de 2025. No dia seguinte, o David Bowie Centre do V&A abriu as portas alguns quilômetros mais a leste, com Nile Rodgers e The Last Dinner Party como curadores convidados das primeiras vitrines rotativas.

Casou-se com a modelo Iman Abdulmajid em 1992; a filha do casal, Alexandria Zahra Jones, que grava como Lexi Jones, lançou seu álbum de estreia Xandri em 2025. O filho do primeiro casamento, com Angie Bowie, Duncan Jones, nascido em 1971, é cineasta — Moon (2009) e Source Code (2011) não são discos-homenagem ao pai, mas dividem com Bowie a mania de dar à ficção científica o peso de uma peça de câmara.

No dia 22 de abril de 2026 abre no Lightroom de King’s Cross o espetáculo imersivo David Bowie: You’re Not Alone, montado a partir de gravações de arquivo e material inédito; a série Bowie Nights, com Anna Calvi, Adam Buxton, Carlos Alomar e Miranda Sawyer programados, vai até setembro. Até o fim do ano, os oitenta mil objetos do Centre do V&A estarão consultáveis online. O cânone está fechado. O argumento que ele deixou — sobre o personagem, sobre a performance e sobre o que um disco pop pode ser — é o que a obra continua sustentando, esteja ou não seu autor na sala.

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