Líderes Empresariais

Hiro Matsuoka, o herdeiro no comando da Toho que aposta o estúdio de Godzilla no mundo

Penelope H. Fritz
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Hiro Matsuoka
Nascimento18 de abril de 1966
Roma, Itália
OcupaçãoPresidente e CEO da Toho

Hiro Matsuoka gosta de dizer que o maior sucesso de sua gestão aconteceu por sorte, e os números dão razão a ele mais do que um CEO costuma admitir. Sua empresa chegou a avaliar a saga kabuki que se tornou Kokuho: O Preço da Perfeição, considerou o projeto caro demais e específico demais e desistiu. No fim, acabou distribuindo o filme, depois que um estúdio da Sony retomou o projeto. Essa franqueza é um bom ponto de partida para entender o homem à frente da Toho, o estúdio de Godzilla e dos filmes de samurai de Akira Kurosawa. Ele herdou uma empresa que domina os cinemas japoneses e ainda obtém a maior parte de sua receita em seu país. Sua missão, como ele próprio a define, é fazer a empresa ter relevância também no resto do mundo.

Ele nasceu praticamente dentro da empresa. Seu pai, Isao Matsuoka, disputou a Copa Davis de tênis pelo Japão antes de se tornar presidente da Toho e, mais tarde, presidente honorário. Antes dele, seu avô, Tatsuo, havia comandado o estúdio; e seu bisavô era Ichizo Kobayashi, o empresário ferroviário que fundou a Hankyu, a Takarazuka Revue e a própria Toho. Matsuoka nasceu em Roma, onde seu pai trabalhava no escritório europeu da Toho, e cresceu em Tóquio, como o filho do meio de três irmãos. Seu irmão mais novo é Shuzo Matsuoka, ex-tenista profissional que se tornou um dos rostos mais conhecidos da televisão japonesa.

Nascido em 18 de abril de 1966, ele estudou no sistema escolar Keio, da escola primária Yochisha ao curso de direito na Universidade Keio, onde se formou em 1989, passando boa parte desses anos nas quadras de tênis. Foi capitão da equipe universitária e ainda considera essa experiência um fracasso: seu irmão havia ido para uma escola especializada em tênis, seu próprio empenho foi apenas parcial e seus resultados, medianos. “Acho que minha motivação para trabalhar vem do desejo de nunca mais me sentir daquele jeito”, disse à revista de ex-alunos da Keio neste ano. Certa vez, uma professora do ensino fundamental lhe dissera que, para ele, o lugar certo para estudar não era a Inglaterra, mas os Estados Unidos. Ele seguiu o conselho: estudou no Albright College, na Pensilvânia, e concluiu um MBA na Universidade de Pittsburgh em 1992.

Em 1992, começou em um cargo de nível inicial na International Creative Management, agência de talentos de Hollywood, organizando documentos e aprendendo como os estúdios americanos realmente fecham seus negócios. Dois anos depois, voltou ao Japão para trabalhar na Toho-Towa, braço do grupo responsável pela distribuição de filmes estrangeiros no país, e avançou degrau por degrau: tornou-se diretor em 1998, presidente em 2008 e presidente do conselho em 2015. Durante duas décadas, sua carreira esteve ligada ao lado do grupo voltado para Hollywood, enquanto a empresa controladora se concentrava nas bilheterias domésticas.

Sua ascensão na própria Toho seguiu o mesmo ritmo gradual. Entrou para o conselho em 2014, tornou-se diretor-executivo em 2018 e assumiu o comando do planejamento de filmes e das operações internacionais em 2021. Em 26 de maio de 2022, tornou-se o 15º presidente da empresa, sucedendo Yoshishige Shimatani. Naquela altura, já havia ajudado a elaborar o plano que colocaria em prática. Durante a pandemia, ele e outros dois diretores redigiram o TOHO VISION 2032, uma estratégia de longo prazo atrelada ao centenário da empresa. O plano estabeleceu a animação como o quarto pilar dos negócios e definiu a meta de elevar a participação da receita obtida no exterior de cerca de um décimo para quase um terço.

Os primeiros anos de sua presidência transformaram o plano em aquisições. A Toho comprou o estúdio de animação Science SARU em 2024 e, em outubro daquele ano, a GKIDS, distribuidora norte-americana conhecida por trabalhar com os filmes do Studio Ghibli. Também adquiriu uma participação na produtora de Los Angeles Fifth Season e, no fim de 2025, fechou um acordo para comprar a distribuidora britânica Anime Limited e estabelecer uma base na Europa. O principal cartão de visitas de toda essa estratégia foi Godzilla Minus One. A Toho lançou o filme de Takashi Yamazaki na América do Norte por meio de sua própria subsidiária, em vez de recorrer a um parceiro de Hollywood. A produção se tornou o filme japonês em live-action de maior bilheteria já lançado na região e, em 2024, venceu o Oscar de efeitos visuais. Matsuoka também atuou, em nome da Toho, como produtor executivo da série da Apple TV+ Monarch – Legado de Monstros.

A versão que a Toho conta sobre esse período merece ser examinada com cuidado. Os resultados recordes da empresa — receita operacional de 360,63 bilhões de ienes no ano encerrado em fevereiro de 2026 e o terceiro ano consecutivo de lucro operacional recorde — devem muito a filmes produzidos por outras companhias. Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba Castelo Infinito foi feito pela Aniplex e pela Ufotable. Kokuho: O Preço da Perfeição foi produzido pelo Myriagon Studio, da Sony, depois que a Toho desistiu do projeto. A verdadeira vantagem da Toho está na distribuição e na exibição: Matsuoka afirma que a rede TOHO Cinemas ocupa o segundo lugar no Japão em número de telas, mas o primeiro em receita. A renda obtida no exterior ainda representa uma pequena parcela do total. Há também a questão da herança familiar. Quando foi anunciado como presidente, a imprensa de negócios japonesa destacou seu irmão e seu bisavô. Nas entrevistas, ele fala menos da árvore genealógica e mais da visão do fundador sobre o papel de um estúdio, sem renegar o legado: “Estamos dando continuidade ao ideal expresso por Ichizo-san de oferecer entretenimento saudável ao público em geral e, agora, estamos tentando fazer isso não apenas pelo Japão, mas pelo mundo.”

Suas declarações públicas revelam um executivo mais à vontade com a dúvida do que seu cargo poderia sugerir. Sobre Kokuho: O Preço da Perfeição, que havia arrecadado 20,42 bilhões de ienes até março de 2026 e se tornado o filme japonês em live-action de maior bilheteria de todos os tempos, ele disse: “Sinto que foi realmente uma questão de sorte, e não estou dizendo isso por falsa modéstia.” Sobre inteligência artificial, depois que a Toho criou um escritório interno dedicado à IA em 2025: “A IA é uma ferramenta importante para nós, mas, ao mesmo tempo, é uma ameaça.” Ele também vem tentando afastar a empresa do hábito de “não aumentar o número de funcionários”, que se consolidou após a crise da indústria cinematográfica nos anos 1970. O plano atual descreve essa mudança como a passagem de “poucos talentos de elite” para “muitos talentos de elite”, pois os negócios de animação e no exterior precisam de mais profissionais do que a Toho tem hoje.

Ele faz parte do conselho de curadores do Academy Museum of Motion Pictures e, em 29 de outubro de 2026, durante o Festival Internacional de Cinema de Tóquio, tem um encontro público marcado com Bill Kramer, CEO da Academy of Motion Picture Arts and Sciences, no Tokyo Midtown Hibiya Hall. Na pauta: o mercado global de cinema e o futuro da distribuição em salas e por streaming.

O teste mais importante virá poucos dias depois. A Toho definiu Godzilla Minus Zero, sequência de Yamazaki, como sua maior prioridade para o ano. O filme estreia no Japão em 3 de novembro de 2026, aniversário do longa original de 1954, e na América do Norte em 6 de novembro, com distribuição da GKIDS. É a primeira vez que um filme japonês de Godzilla chega aos cinemas quase simultaneamente dos dois lados do Pacífico. O lançamento mostrará se o plano que Matsuoka ajudou a elaborar pode tornar o mercado mundial tão confiável para a Toho quanto o japonês.

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