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Michaela Coel continua recusando a versão mais fácil de si mesma

Penelope H. Fritz

A história que sempre se repete sobre ela é a do contrato que recusou. Um milhão de dólares da Netflix em troca de ceder os direitos da série que se chamaria I May Destroy You. Ela disse não. A série foi parar na BBC e na HBO, arrastou quase todos os prêmios importantes que uma minissérie de estreia pode levar e tornou Michaela Coel a primeira mulher negra a vencer o Emmy primetime de roteiro de minissérie. Essa parte é verdade. O que se perde no recontar é que aquela recusa não foi o momento em que Coel decidiu ser difícil de lidar: foi o momento em que obrigou o resto da indústria a enxergar isso.

Filha de pais ganenses que se separaram antes do seu nascimento, foi criada pela mãe e a irmã mais velha num conjunto de habitação social do leste de Londres. O caminho até a Guildhall School of Music and Drama passou por alguns anos de poesia falada, uma graduação em Literatura Inglesa e Teologia em Birmingham que ela não terminou e um monólogo, Chewing Gum Dreams, encenado num teatro pequeno de Hackney quando ninguém fora do leste de Londres conhecia o seu nome. Entrou na Guildhall em 2009 — segundo seu próprio relato, a primeira mulher negra admitida pela escola em cinco anos — e saiu três anos depois com a bolsa Laurence Olivier e uma ideia muito clara do que não faria.

Veio primeiro Chewing Gum, a sitcom para o canal E4 adaptada do seu monólogo. A personagem Tracey — uma jovem de um conjunto habitacional religioso do leste londrino disposta a perder a virgindade da forma mais indigna possível — era algo que a televisão britânica nunca tinha topado. A série lhe rendeu um BAFTA de melhor interpretação feminina em comédia e abriu uma pista: um pequeno papel em Star Wars: Os Últimos Jedi, o protagonismo no thriller da BBC Black Earth Rising e o musical independente Been So Long.

Depois veio a palestra MacTaggart de 2018 no festival de televisão de Edimburgo, o discurso que a tv britânica reserva a quem tem uma posição a defender. Coel usou aquele palco para revelar que tinha sido dopada e abusada sexualmente enquanto trabalhava na segunda temporada de Chewing Gum. Não contou para catarse: contou porque estava prestes a escrever uma série sobre isso e porque a indústria que tinha falhado no seu dever de cuidado precisava ouvir, do palco que ela mesma tinha conquistado, que ela sabia.

I May Destroy You estreou em 2020 na BBC One e na HBO. Foi um daqueles casos raros em que a minissérie de prestígio realmente mereceu o prestígio: doze episódios que partem de um estupro e se abrem para um estudo do que é o consentimento, do que custam as amizades no fim dos vinte e do que significa transformar o próprio ataque em obra. As críticas estiveram entre as mais fortes da década em qualquer formato; o BAFTA deu à série roteiro, direção e melhor atriz; o Emmy de melhor roteiro de minissérie foi, pela primeira vez, para uma mulher negra. A série hoje aparece por padrão nas listas das melhores TVs do século.

O que recebe menos atenção é o que Coel escolheu não fazer depois. O caminho fácil estava ali: um overall deal com a Netflix, um letreiro aberto na HBO, uma vaga de lançamento na Apple TV+. Em vez disso, ela publicou Misfits: A Personal Manifesto, um livro curto construído em torno do discurso MacTaggart, e topou um papel pequeno como Aneka em Pantera Negra: Wakanda Para Sempre, filme que rodou em Atlanta sem se mudar de Londres e sem se comprometer com uma continuação. A crítica recorrente das revistas do setor — lenta demais, reservada demais, pouco interessada na máquina de franquia — em 2026 se lê como uma lista de elogios.

A agenda que ela tem agora não é a de nenhum algoritmo. The Christophers, a sátira de Steven Soderbergh sobre o mundo da arte a partir de um roteiro de Ed Solomon, a juntou a Ian McKellen e James Corden no papel de falsários vendendo obras tardias como mestres desconhecidos; a Neon lançou o filme em abril com boas críticas. Mother Mary, o psicodrama de David Lowery sobre uma estrela pop e sua ex-figurinista, abriu no mesmo mês na A24 e deu a ela o papel menor e mais cortante, ao lado de Anne Hathaway. Em 2024, já tinha recolhido um segundo Emmy primetime, dessa vez como melhor atriz convidada em série dramática, por um único episódio do reboot de Mr. & Mrs. Smith — a prova de que ela ainda consegue entrar na série de outra pessoa e roubá-la.

Volta ao roteiro e à direção com First Day on Earth, série em dez episódios para HBO e BBC que está rodando neste momento em Gana com Ncuti Gatwa, Thandiwe Newton, Maxine Peake e Danny Sapani. É o seu primeiro reencontro com a emissora que a lançou desde I May Destroy You. E a A24 lhe entregou Bloodsport — o remake do filme de artes marciais de Jean-Claude Van Damme — para escrever e dirigir nos seus próprios termos, um projeto que quase ninguém apostaria nela.

Falou publicamente sobre se reconhecer como arromântica e sobre a distância que tomou do cristianismo pentecostal em que cresceu. A Royal Society of Literature a elegeu Fellow em 2022. Defendeu melhores protocolos de cuidado nos sets de televisão e os direitos de propriedade intelectual de roteiristas racializados.

Coel já disse que se fascina pelos lutadores: a disciplina, o isolamento, a disposição de apanhar. A frase soa como autorretrato de quem há anos toca a carreira como esporte de contato contra uma indústria que queria vê-la produzindo drama traumático em série. First Day on Earth chega em 2027. Bloodsport está em desenvolvimento. Mother Mary e The Christophers estão em cartaz agora. O trabalho continua, e a recusa também.

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