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Rafael Nadal: 22 Grand Slams e a doença que nunca o parou de verdade

Penelope H. Fritz

Rafael Nadal venceu 22 Grand Slams com um osso do pé que se deteriorava. A síndrome de Müller-Weiss, doença degenerativa rara nos ossos do tarso, foi diagnosticada no seu pé esquerdo enquanto ele já era um dos melhores tenistas do mundo. O diagnóstico indicava o fim da carreira. Os fatos contaram outra história.

Nasceu em junho de 1986 em Manacor, cidade de 42.000 habitantes na ilha de Maiorca, na Espanha. O tio Toni Nadal colocou uma raquete na mão do sobrinho aos três anos e percebeu que havia algo ali. Aos oito anos, Rafael já havia vencido um campeonato regional sub-12 e era também um futebolista promissor no Mallorca. Foi Toni quem tomou a decisão que mudaria o tênis: convenceu o sobrinho — destro no dia a dia — a jogar com a mão esquerda. O forehand cruzado com topspin extremo que surgiu dessa escolha demorou anos para ter uma resposta tática eficaz.

A formação com Toni não foi fácil. O treinador era exigente além dos padrões normais: catador de bolas, varredor de quadras, receptor de críticas que os outros meninos não recebiam. O resultado foi um atleta que entendia a dor como parte do trabalho, não como motivo de parada.

Quando venceu seu primeiro Roland Garros em 2005, aos 19 anos, foi chamado de especialista de saibro. O que Nadal fez foi transformar Roland Garros em laboratório: a geometria de ângulos, o trabalho de pernas, a intensidade tática que aperfeiçoou em Paris se revelaram transferíveis a todas as superfícies. Venceu em Wimbledon, no US Open, no Australian Open — completando o chamado Career Golden Slam, os quatro Grand Slams mais o ouro olímpico no simples, conquistado por apenas três homens na história.

A final de Wimbledon de 2008 contra Roger Federer é a referência: cinco sets, luz que acabava, chuva que interrompeu, encerrada na quase escuridão em mais de quatro horas. Nadal venceu. Semanas depois ganhou o ouro olímpico em Pequim. Tinha 22 anos.

A versão consagrada de Rafael Nadal — o Rei do Saibro, o guerreiro que nunca parava de correr — é real, mas também cumpre uma função: permite ao público admirar a força de vontade sem precisar confrontar o que essa força de vontade exigia na prática. Nadal competia sobre ossos documentalmente comprometidos. Os anti-inflamatórios que o mantinham jogando causavam pequenas perfurações no intestino. A série documental da Netflix Rafa, que estreia hoje (quatro episódios, dirigidos por Zach Heinzerling), é o primeiro acesso aprofundado a essa realidade interior.

Venceu o Australian Open de 2022 voltando de uma longa ausência por lesão no pé — seu 21.º Grand Slam, quando o mundo o dava como acabado. Venceu Roland Garros naquele junho: o 22.º, o 14.º em Paris. Lesões abdominais e no quadril limitaram sua agenda em 2023 e 2024. Anunciou a aposentadoria em outubro de 2024. Seu último jogo foi nas finais da Copa Davis em Málaga, em novembro: derrota de 6-4, 6-4 para o holandês Botic van de Zandschulp.

María Francisca Perelló — Xisca ou Mery — está na vida dele desde 2005. Casaram em 2019. O primeiro filho, Rafael Jr., nasceu em 2022; o segundo, Miquel, em agosto de 2025. Desde a aposentadoria, Nadal prefere ficar em casa de manhã para levar os filhos à escola.

22 Grand Slams são um dado. O que o documentário, o museu da Academia Rafa Nadal em Manacor e suas próprias conversações após a aposentadoria estão começando a revelar é a experiência interna por trás desse número: vinte anos competindo contra uma doença incurável, produzindo um palmarès que, em 2026, ainda lê como algo fora do alcance explicativo normal do esporte.

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