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Bloomberg coloca a Alibaba na ponta da rede de chips Nvidia de US$ 2,5 bilhões que passava pela Tailândia

Por quase dois anos, chips americanos de inteligência artificial sob embargo chegaram a data centers chineses por meio de um único intermediário tailandês. Uma nova reportagem da Bloomberg agora dá nome aos dois extremos do encanamento — uma empresa de Bangcoc ligada à própria iniciativa nacional de IA da Tailândia, e a Alibaba.
Susan Hill

Bilhões de dólares em chips americanos com exportação restrita parecem ter chegado a data centers chineses através de um intermediário sediado na Tailândia, que comprava servidores da fabricante americana Super Micro Computer. A Bloomberg identifica esse intermediário como a OBON Corp, empresa de Bangcoc ligada à estratégia nacional de IA do país, e relata que parte dos servidores acabou na Alibaba, uma das três maiores provedoras de nuvem da China. As duas empresas negam qualquer irregularidade. A reportagem dá nome a um caminho que até agora aparecia nos autos do processo apenas como “Empresa-1” e clientes finais não identificados.

A denúncia original, tornada pública no início do ano, acusa o cofundador da Super Micro, Wally Liaw, e outras duas pessoas de conspirar para desviar US$ 2,5 bilhões em servidores Super Micro — equipados com os chips de IA mais avançados da Nvidia, incluindo os B200 e H200 — para a China por meio de uma fachada no sudeste asiático. Liaw foi preso em casa, declarou-se inocente e renunciou aos cargos na Super Micro depois da detenção. A ação da empresa caiu 33 por cento naquele dia. Segundo a acusação, mais de US$ 500 milhões em servidores foram enviados em uma única janela de seis semanas, no exato momento em que os Estados Unidos endureciam as regras de exportação para chips de IA avançados.

A identificação da OBON Corp por parte da Bloomberg acrescenta uma camada nova. Segundo a reportagem, a OBON tem laços com a estratégia estatal de IA da Tailândia, exatamente o tipo de entidade que em tese deveria estar sob escrutínio reforçado, e não funcionando como ponto de trânsito. A Reuters confirmou a identificação com fontes próprias.

O ângulo Alibaba é mais delicado. As fontes da Bloomberg afirmam que parte dos servidores chegou aos data centers da empresa, mas a denúncia não a nomeia e as autoridades americanas não a acusaram publicamente. A Alibaba declarou à Reuters que não tem relação comercial com a Super Micro, com a OBON nem com nenhum intermediário citado no processo, e garantiu que jamais utilizou chips Nvidia proibidos em seus data centers. A Nvidia, por sua vez, afirmou esperar conformidade rigorosa de seus parceiros e advertiu que qualquer sistema desviado não recebe serviço nem suporte da empresa.

Vale guardar ceticismo. A identificação da Bloomberg se apoia em fontes anônimas, não em uma peça judicial. A OBON Corp não respondeu aos pedidos de comentário. O fato de a denúncia deixar OBON e Alibaba sem nome é compatível tanto com uma investigação em curso quanto com falta de provas para indiciar. As duas leituras são plausíveis. O que o caso revela, em todo caso, é que uma suposta violação do controle de exportações de US$ 2,5 bilhões funcionou por quase dois anos através de um país cujas ambições em IA dependem de permanecer parceiro confiável dos Estados Unidos.

O contexto técnico importa. Os B200 e H200 da Nvidia são o silício que treina os modelos de IA de fronteira. Sem acesso a eles, as empresas chinesas precisam recorrer ou às alternativas domésticas da Huawei, ainda atrasadas em cargas de treinamento, ou às versões oficiais de exportação da Nvidia, deliberadamente cortadas. Dados da Morgan Stanley citados pela Reuters mostram que os modelos chineses de IA representaram 32 por cento do uso global de tokens em março de 2026, frente a apenas 5 por cento um ano antes. O salto coincide com a janela do suposto contrabando.

Para Alibaba e OBON, o custo imediato é de reputação, não judicial — nenhuma das duas foi denunciada. Para a Super Micro, o processo já custou um cofundador e cerca de um terço do valor de mercado no dia da denúncia. Para a política americana de controle de exportações, a pergunta de fundo é estrutural — se uma violação de US$ 2,5 bilhões consegue rodar por dois anos através de um único intermediário no sudeste asiático, a falha não é legal, é operacional.

Liaw foi liberado sob fiança e aguarda julgamento. Willy Sun, o terceirizado denunciado junto com ele, segue detido aguardando audiência. Steven Chang, o terceiro acusado, continua foragido em Taiwan. Jay Clayton, procurador federal do Distrito Sul de Nova York, sinalizou que novas denúncias podem vir conforme a investigação avança.

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