Televisão

Barrabrava no Prime Video parece guerra entre irmãos — é uma instituição argentina promovendo o seu próprio

A segunda temporada filma a promoção de um capitão de barra como papelada e não como catarse: o que fica em tela é uma instituição argentina funcionando exatamente como foi desenhada.
Veronica Loop

Há um momento na nova temporada em que ninguém dispara e ainda assim tudo muda. Um capitão aceita a cadeira que sempre esteve reservada para ele, duas mãos se firmam em seus ombros e a sala entende que o próximo ano de arrecadação de estádio, proteção policial e favores políticos acaba de ser realocado. A guerra dos irmãos é o que a câmera enquadra; a câmera não pisca, e dentro do enquadramento uma instituição continua funcionando.

Barrabrava chegou como thriller criminal sobre os irmãos Urrutia, expulsos da barra que serviam havia anos. A segunda temporada inverte essa premissa. El Polaco voltou, e voltou no topo. A pergunta não é mais se dois excluídos sobrevivem sem o aparato. A pergunta é o que o aparato faz com um deles quando ele assume o comando. A briga que sustenta os oito episódios não é Polaco contra César; é Polaco contra a cadeira em que acabou de se sentar.

Esse é o argumento que a série se recusa a suavizar desde o primeiro episódio. Uma barra brava não é uma tribo de fanáticos. É um nó ativo do poder argentino, um lugar onde o dinheiro do clube, a lealdade do bairro e a proteção federal se cruzam e se reorganizam. A série trata isso como um procedural trata um banco ou um hospital: com organogramas, regras de sucessão e o constrangimento das reuniões a que ninguém quer ir. Quando Polaco assume a captaincia, o que vemos é papelada. Mãos apertadas. Números acertados. Num canto, os flashbacks da temporada — um Polaco jovem e um César jovem — observam e arquivam a geometria. A organização se reproduz a cada geração, e está contratando.

Jesús Braceras, criador da série, dirige ao lado de Gabriel Nicoli, Lucía Garibaldi e Felipe Gómez Aparicio. A promoção é filmada como trabalho, não como coroação. A câmera fica na altura do peito dentro de vestiários e escritórios parecidos com qualquer pequeno comércio de Buenos Aires; o plano elevado, aquele que permitiria ao espectador se sentir acima do sistema, é recusado. O som obedece à mesma lógica. Trechos longos seguem sem trilha, para que o diálogo institucional — a negociação das canchas, os favores implícitos, a crueldade entediada — sustente sozinho a narrativa. Quando a música retorna, é cumbia ou trap saindo da caixinha de um celular, não orquestração. A violência explícita, quando aparece, chega como transgressão, não como catarse.

Matías Mayer interpreta Polaco com o cansaço particular de quem sabe o que vem depois da promoção. Ele não atua a subida, atua o instante imediatamente seguinte, quando a cadeira começa a pedir coisas. O César de Gastón Pauls está mais duro nesta temporada, não mais o irmão mais velho protetor, mas o rival cujo plano chegou primeiro e agora precisa defendê-lo. Em torno deles, a Ximena de Violeta Narvay, o Oveja de Miguel Ángel Rodríguez, a Gladys de Mónica Gonzaga e o Enzo de Ángelo Mutti Spinetta se movem com a ausência de surpresa de quem já viveu a pior versão da próxima cena. Os novos — Gustavo Garzón, Liz Solari, Pablo Alarcón, Cande Molfese, Micaela Riera, Ciro Martínez e Frijo — entram não como vilões, mas como colegas. Eles têm mesas. Eles vão a reuniões. Eles mantêm a instituição em pé enquanto os irmãos a despedaçam.

O ancoramento real não é metáfora e a sala dos roteiristas sabe disso. As barras argentinas movem dinheiro, votos e intimidação pelos clubes há meio século. O registro do Aprevide é atualizado e contornado na mesma semana. A federação emite sanções que ninguém aplica. Os operadores políticos pagam os ônibus, os ônibus enchem as arquibancadas, as arquibancadas entregam votos. Libertad del Puerto é um clube fictício, mas a estrutura que ele empresta a Polaco — uma associação privada cuja arquibancada virou poder público paralelo — se repete em clubes pelo país inteiro. A série não explica isso ao espectador porque o espectador já vive isso.

Barrabrava Season 2 key art

A segunda temporada se recusa a entregar um veredito. Polaco não é punido por se sentar na cadeira e não é redimido pelas novas responsabilidades. A instituição que o promoveu vai encontrar uma forma de absorvê-lo também. A pergunta irrespondível que Barrabrava deixa aberta não é se os irmãos se reconciliam. É se alguém consegue desmontar esse organismo por dentro sem antes virar a parte do organismo que precisa ser desmontada depois. A Argentina faz essa pergunta à sua classe política, à sua polícia e à sua federação há cinquenta anos. A série monta a pergunta e sai da sala.

Barrabrava segunda temporada estreia globalmente no Prime Video em 22 de maio de 2026, com oito episódios. Criada por Jesús Braceras, dirigida por Braceras com Gabriel Nicoli, Lucía Garibaldi e Felipe Gómez Aparicio; roteirizada por Braceras, Nicoli, Cecilia Guerty, Mariano Hueter, Julio Boccalatte, Mariana Wainstein, Diego Fió e Bruno Luciani. Produção da Cimarrón Cine para o slate Local Originals do Amazon MGM Studios. No elenco: Matías Mayer, Gastón Pauls, Violeta Narvay, Miguel Ángel Rodríguez, Mónica Gonzaga, Ángelo Mutti Spinetta e Neo Pistea, com Gustavo Garzón, Liz Solari, Pablo Alarcón, Cande Molfese, Micaela Riera, Ciro Martínez e Frijo entrando nesta temporada.

Discussão

Há 0 comentários.