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‘Untold Reino Unido: Jamie Vardy’ na Netflix: a fábrica e a tornozeleira

Jack T. Taylor

Em 2003, o Sheffield Wednesday dispensou Jamie Vardy aos 16 anos sob o argumento de que ele era “baixo demais”. Durante os seis anos seguintes, o atacante combinou turnos de 12 horas numa fábrica em Sheffield — onde produzia talas médicas de fibra de carbono — com gols marcados a 30 libras por semana nas ligas amadoras inglesas; em 2007, uma condenação por agressão o obrigou a usar tornozeleira eletrônica por seis meses e a cumprir toque de recolher às 18h, deixando-o forçado a abandonar os jogos do Stocksbridge Park Steels antes do apito final. Dez anos depois, Vardy assinava com o Leicester City vindo do futebol amador inglês — a carreira que o novo documentário reconstrói e que, em 2026, deixou de ser estruturalmente possível.

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A tentação é ler a história do jeito que a imprensa britânica sempre vendeu: das margens ao topo, contra todas as probabilidades, um conto de fadas que o futebol inglês ainda produziria. As imagens de arquivo de Vardy marcando voleios no Stocksbridge, no FC Halifax Town e no Fleetwood Town — os três clubes amadores da carreira dele entre 2007 e 2012 — reforçam esse enquadramento, assim como a cotação de 5.000 a 1 com que o Leicester começou a temporada 2015-16 como candidato ao título, repetida no documentário como um refrão. Mas o número que importa mais do que cinco mil a um é vinte e cinco: a idade de Vardy quando se tornou profissional em tempo integral, depois da transferência para o Leicester por um milhão de libras em maio de 2012 — valor recorde para um jogador vindo do futebol amador.

Aos 25, pelos padrões da atual estrutura de base do futebol inglês, um jogador já foi descartado há muito tempo. O caminho que Vardy percorreu — do Stocksbridge, na oitava divisão inglesa, passando por Halifax, Fleetwood, até o Leicester no Championship — não se fechou por acaso. Foi fechado deliberadamente por um sistema financiado pela Premier League: as taxas de entrada nas academias de Categoria 1 hoje selecionam jogadores pela capacidade econômica das famílias; agências de empresários controlam cada vez mais jogadores com menos de 12 anos, avaliando viabilidade comercial antes do mérito esportivo; e os “parachute payments” pagos pela Premier League aos clubes rebaixados — concebidos originalmente como rede de proteção — transformaram a distância para o Championship e a League One num precipício estrutural.

Um caminho fechado por dentro

Lidos por esses parâmetros, os anos de Vardy são o relatório de um sobrevivente de uma economia futebolística que já não existe. Quem o vê correndo pela ponta no Stocksbridge não está olhando para uma promessa. Está olhando para um fóssil.

Por que Jesse Vile dirige este documentário

A escolha de Jesse Vile como diretor não é neutra. O cineasta americano radicado em Londres dirigiu ‘The Prince of Pennsylvania’ para a série ’30 for 30′ da ESPN — o caso John du Pont e a equipe de luta livre Foxcatcher —, as séries ‘Captive’ e ‘The Ripper’ para a Netflix, ‘This is Football’ para a Amazon e, mais recentemente, ‘The Diamond Heist’ produzido por Guy Ritchie. Vile passou uma década contando histórias em que o protagonista está oblíquo a um sistema e a câmera pergunta o que a instituição em volta desse protagonista está fazendo de fato.

A gramática habitual da franquia ‘Untold’ combina com essa visão: nada de narração em off, nada de orquestração musical, entrevistas frontais montadas duro contra material de arquivo. A pergunta deste capítulo nunca foi se Vardy aguentava noventa minutos de tela — a velocidade, a arrancada nas costas da defesa, a vida na linha do impedimento, tudo isso está nas tomadas. A pergunta era se Vile estaria disposto a mostrar o que o futebol inglês perdeu quando trocou a pirâmide amadora pelas academias.

A decisão de costurar ‘The Inbetweeners’ — o pequeno grupo de amigos de Sheffield a que Vardy pertence, nomeado no filme — junto com a esposa, Rebekah Vardy, como fio condutor real, em vez de entregar o arco estrutural a técnicos como Nigel Pearson ou Claudio Ranieri, é a resposta editorial. Quem quer perguntar o que um sistema está fazendo não pergunta primeiro aos administradores dele.

Rebekah Vardy e o peso duplo da imprensa britânica

A ancoragem de classe se aperta ainda mais quando o documentário mantém Rebekah Vardy no enquadramento. A mesma máquina midiática que construiu em torno do marido a narrativa do “rapaz que conseguiu” construiu em torno dela o espetáculo do caso ‘Wagatha Christie’ — o processo por difamação que ela perdeu para Coleen Rooney em 2022, depois que informações privadas vazaram para a imprensa marrom britânica. Muitas vezes, na mesma quinzena, no mesmo jornal, no mesmo eixo entre capa e contracapa.

A leitura estrutural não é apenas que um jogador virou as probabilidades. É que a cultura do futebol inglês e a cultura tabloide inglesa sabem exatamente qual história de classe trabalhadora romantizar e qual punir, e aplicam os dois tratamentos à mesma família com frequência. Um público de 2026 chega a este filme depois de quinze anos de aumento das taxas das academias, controle sistemático das agências sobre jogadores com menos de 12 anos, e dos parachute payments da Premier League ampliando a distância para a EFL até virar um precipício estrutural.

Esses dados nunca são ditos no documentário — não precisam ser. As imagens de Vardy em Stocksbridge ganhando 30 libras por semana, montadas contra as imagens do troféu erguido no King Power Stadium, fazem um trabalho que nenhum letreiro estatístico daria conta. É exatamente aí que está o sentido do filme: a carreira que ele celebra é a carreira que, na década seguinte, foi tornada metodicamente impossível pela mesma indústria que produz este documentário hoje.

A pergunta que ‘Untold Reino Unido: Jamie Vardy’ não responde — e não tenta responder — é se o futebol inglês de 2026 ainda consegue produzir um Vardy. Ou se, ao contrário, o menino de Sheffield rejeitado pelo clube da infância, marcando gols num campo de oitava divisão por 30 libras semanais entre turnos de fábrica com uma tornozeleira eletrônica no pé, virou peça de museu em vez de possibilidade.

O título a 5.000 contra 1 aconteceu uma vez só. O caminho que levou até lá — em silêncio, por desenho — foi murado por trás dele.

Untold UK: Jamie Vardy
Untold UK: Jamie Vardy. Jamie Vardy, Rebekah Vardy, in Untold UK: Jamie Vardy. Cr. Courtesy of Tom Cockram/Netflix © 2026

‘Untold Reino Unido: Jamie Vardy’ estreia na Netflix em 12 de maio de 2026, como o primeiro capítulo da antologia em três partes ‘Untold Reino Unido’, que segue semanalmente com o capítulo sobre o “Milagre de Istambul” do Liverpool — a final da Liga dos Campeões de 2005 — e o capítulo sobre Vinnie Jones. A direção é de Jesse Vile, com produção da Orchard Studios e da Revue Studios, montagem de Kevin Konak, fotografia de Tim Cragg e Tom Elliott, e música de David Schweitzer. Diante da câmera estão Jamie Vardy, a esposa Rebekah Vardy e o grupo de amigos de Sheffield apelidado de The Inbetweeners, ao lado de ex-companheiros e técnicos dos treze anos de Vardy no Leicester City — ciclo que ele encerrou em abril de 2025 com 500 partidas e 200 gols.

Esta é a primeira expansão internacional da franquia ‘Untold’, que desde 2021 representa a prateleira de documentários esportivos mais consistente do catálogo da Netflix, produzida até agora nos Estados Unidos. A escolha de Vardy como protagonista do primeiro capítulo individual da edição britânica — em vez de uma estrela em atividade da Premier League, um retrato tático ou uma biografia do futebol feminino — diz, ao mesmo tempo, qual história a Netflix acredita que o público britânico vai apertar play primeiro no serviço, e que tipo de narrativa esportiva a plataforma está disposta a produzir em série se a aposta der certo.

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