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Anne Hathaway se junta a Tom Cruise em ‘Dias de Trovão’ — e é ela quem manda no carro

Liv Altman

Tom Cruise anunciou sua nova parceira de cena do mesmo jeito que anuncia tudo agora — como um evento, de dentro do infield de Daytona, com o logo de Days of Thunder atrás dele como um sistema climático que volta na hora marcada. A imprensa especializada classificou a notícia como nostalgia: mais um motor que Hollywood mantém na garagem, religado para um público que se lembra da primeira corrida. O que essa classificação ignora é a parte que realmente importa. Não é que Anne Hathaway apareceu. É o que foi contratada para fazer.

Ela não é a namorada do piloto. Na sequência, interpreta a dona e engenheira da equipe de corrida — a pessoa que controla a máquina na qual Cole Trickle se enfia, que assina os cheques, lê a telemetria e decide quando ele entra nos boxes. Esse é um centro de gravidade totalmente diferente daquele sobre o qual esta franquia foi construída, e vale a pena refletir sobre isso antes que o marketing reduza tudo de novo a “Cruise correndo rápido outra vez.”

Porque o filme original sabia exatamente onde queria sua figura feminina. O longa de Tony Scott deu a Nicole Kidman o papel da médica que se apaixona pelo piloto inconsequente e passa a segunda metade da trama implorando para ele reduzir o ritmo — a médica como consciência, o interesse amoroso como freio. Ela era essencial para a atmosfera da obra e, estruturalmente, uma mera passageira: a trama acontecia ao redor de Cole, e ela reagia a ele. Trinta e cinco anos depois, a mesma franquia entrega à sua líder feminina as chaves da garagem. A vaga não foi apenas preenchida de novo. Foi reescrita, de coadjuvante a chefe.

Para Hathaway, essa reescrita é quase autobiográfica. O público a conheceu como a garota que passava por uma transformação — a princesa em treinamento, a assistente que buscava café e recebia ordens num escritório de moda enquanto alguém mais poderoso decidia seu valor. A trajetória inicial foi um estudo em subserviência. Tudo depois disso tem sido uma migração lenta e deliberada para a outra cadeira: a mulher que comanda o ambiente, e não a que sobrevive a ele. Escalar a atriz como a pessoa que é dona do carro de Cole Trickle não é um esticão neste momento. É o destino para o qual ela vem dirigindo há duas décadas.

É por isso que esta escalação se lê como uma escolha, e não um mero contracheque. Hathaway não precisa de uma sequência de Cruise. Ela vem de um dos maiores anos de sua carreira, transitando entre outro retorno como Andy Sachs em O Diabo Veste Prada, que volta, e The Odyssey, de Christopher Nolan — uma das atrizes mais requisitadas do cinema atual. Ela aceitou um papel que a coloca como autoridade dentro de um gênero — o filme de corrida — que passou um século tratando mulheres como parte da paisagem nas arquibancadas. A tensão já se lê no papel: o astro mais bancável do mundo, interpretando um homem cujo ser inteiro é a recusa em ser gerenciado, respondendo a uma mulher cujo trabalho é gerenciá-lo.

O resto é o maximalismo habitual de Cruise. A Paramount marcou a sequência para o verão de 2028, filmando em IMAX e prometendo Dolby Cinema, 4DX e todos os formatos premium pelos quais o multiplex pode cobrar extra. Jonathan Levine dirige a partir de um roteiro de Will Staples, com Jerry Bruckheimer e Tommy Harper na produção ao lado de Cruise, que revelou tudo em Daytona horas antes dos carros de stock car correrem a final da temporada. Há até interesse noticiado em trazer Kidman de volta — noticiado, não confirmado — o que colocaria a velha passageira e a nova piloto no mesmo filme, uma escalação que ninguém deveria querer deixar na gaveta.

Se o longa será bom ou não se resume a uma pergunta que os trailers jamais anunciarão. Não é se Cruise ainda consegue dirigir em alta velocidade — consegue, tediosamente bem — mas se o filme tem coragem de deixar a mulher nos boxes chamá-lo para entrar, e levar isso a sério. Pela primeira vez, o carro de astro tem um nome na porta, e não é o dele.

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