Filmes

Cynthia Erivo volta ao Festival de Cinema de Londres a um Oscar do EGOT

O Screen Talk do Festival de Cinema de Londres não é uma parada promocional: é um acerto de contas na cidade que a formou.
Camille Lefèvre

Há um tipo de retorno que só uma cidade natal pode encenar. Quando o BFI London Film Festival incluiu Cynthia Erivo entre os artistas que convidará para um Screen Talk presencial neste outono, a imprensa especializada registrou o fato como mais um nome de peso numa agenda lotada — um elo entre Andrew Scott e Jesse Eisenberg. Visto de Stockwell, onde ela nasceu, o gesto se aproxima de um fechamento de ciclo: a cidade que a formou recebendo de volta uma das artistas mais condecoradas de sua geração.

O enquadramento padrão — indicada ao Oscar, estrela de Wicked — achata o fato mais interessante, que é o de Erivo não ser uma criatura de tela, mas sim um animal de palco que foi construído, deliberada e lentamente, antes que uma câmera a encontrasse. Ela surgiu do teatro e da Royal Academy of Dramatic Art, e isso se revela naquilo que nenhuma franquia consegue fabricar: ela trata a voz como um instrumento e o corpo como um argumento, sustentando uma nota ou um silêncio até que ele signifique algo. Essa disciplina é a linha condutora que a sinopse da programação apaga, e é o verdadeiro tema de qualquer conversa honesta sobre ela.

Isso também explica a peculiar tensão que ela carrega para um palco de festival. Erivo possui um Tony, conquistado por sua arrasadora Celie no revival de 2016 de The Color Purple na Broadway; um Grammy por aquela gravação do elenco, e um segundo pelo seu dueto em Wicked com Ariana Grande; e um Daytime Emmy. Ela está, em outras palavras, a uma única estatueta — um Oscar — do EGOT, e já esteve nesse limiar três vezes sem cruzá-lo, duas vezes por Harriet e uma por Elphaba. Poucos artistas chegam a uma retrospectiva de carreira com o saldo tão perto do completo e tão abertamente em aberto.

O que mudou desde sua última volta a Londres é a escala. Elphaba transformou uma atriz respeitada em uma máquina de bilheteria: Wicked: For Good teve a maior estreia já registrada para uma adaptação da Broadway e se tornou um dos eventos comerciais definidores de seu ano. Esse sucesso é a tensão que um Screen Talk deve explorar, não escamotear — o embate entre o rigor do Menier Chocolate Factory que a formou e a máquina verde e global que ela agora comanda. A versão mais reveladora de Erivo não é nem a purista do teatro de prestígio nem a estrela de blockbuster, mas a artista que negocia, em tempo real, o que uma custa à outra.

O festival montou uma programação desenhada para convidar exatamente esse tipo de autoexame. Os Screen Talks trazem artistas ao palco para traçar o ofício, não para divulgar um lançamento, e a escalação deste ano é profunda — Sofia Coppola, Mahershala Ali, John Malkovich, Ava DuVernay, Danny Boyle e mais, com as conversas transmitidas no BFI Player e no canal do festival no YouTube para quem estiver fora da sala. Andrew Scott abre o festival interpretando Ian Charleson em Elsinore; Eisenberg o encerra como diretor de The Debut. Erivo está no centro dessa constelação não como o maior nome, mas como aquele cuja história está menos acabada.

A conversa acontece durante a 70ª edição do festival, no BFI Southbank, nas datas de outubro que a programação já definiu. Tire o tapete vermelho e o que resta é mais simples e mais estranho: uma mulher que saiu de Stockwell para aprender a dominar um palco, voltando a um palco londrino para falar sobre como faz isso — a um Oscar de distância de não ter mais nada a conquistar.

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