Filmes

Damon Wayans entra em ‘St. Denis Medical’ e reencontra David Alan Grier: da TV mais ousada à mais gentil

Liv Altman

Existe um prazer especial em ver uma bola de demolição se aquietar numa cadeira de balanço. Damon Wayans construiu seu nome dentro de um programa que tratava a televisão aberta como algo a ser arrombado e incendiado, e agora aparece no cômodo mais acolhedor que a comédia americana guarda: o aconchegante mockumentário de câmera única no local de trabalho, onde ninguém sangra e todo mundo aprende uma pequena lição até o final.

A manchete se escreve sozinha, e todos os veículos já escreveram: Wayans reencontra David Alan Grier, seu antigo colega de esquetes cômicos, numa participação na comédia hospitalar da NBC onde Grier se tornou figura fixa. O reencontro é real e é encantador. Também é uma isca. Por baixo do título aprazível, esconde-se uma história mais silenciosa sobre dois homens que saíram da mesma rampa de lançamento, voaram em direções opostas e, de alguma forma, acabaram na mesma sala de espera sem grande risco.

Para sentir a distância, é preciso lembrar de onde eles vieram. In Living Color não era um programa que queria ser querido — queria ser perigoso. A máquina de esquetes de Keenen Ivory Wayans na Fox funcionava na base do nervo — Homey D. Clown batendo com uma meia na autoridade, as Fly Girls, uma sensibilidade que fazia os variedades educados da época parecerem embalsamados. Ganhou um Emmy no primeiro ano e passou o resto de sua trajetória justificando o nervosismo da emissora. Damon Wayans era um dos seus motores, cocriador e rosto de seus personagens mais citáveis.

Dessa pista compartilhada, as duas trajetórias se separaram o mais distante que trajetórias podem. Grier continuou buscando o prêmio mais difícil e respeitável; finalmente ganhou um Tony por A Soldier’s Play e acumulou trabalhos na tela em The Big Sick e A Cor Púrpura, o palhaço de esquetes se reinventando como ator de peso. Wayans ficou mais próximo da raiz anárquica — stand-up, a sitcom familiar (Minha Esposa e Meus Filhos), um seriado policial de rede, e recentemente uma série construída em torno do próprio filho. Um foi atrás da gravidade. O outro manteve fé na piada.

O que torna a sala onde eles se encontram tão reveladora. St. Denis Medical vem da equipe de Superstore e American Auto, Justin Spitzer e Eric Ledgin, e pertence à linhagem que The Office fundou e Parks and Recreation amaciou: o mockumentário da instituição decente e sem verba, onde a câmera flagra pessoas comuns sendo cansadas e gentis num hospital do Oregon que não tem dinheiro para consertar o próprio teto. É um gênero que funciona na base do afeto, não do perigo. A linha que costura é exatamente o oposto daquela em que In Living Color atirava seus dardos.

Grier prosperou ali. Seu Ron é um médico emergencista rabugento, um papel que permite a um homem antes conhecido por uma elasticidade boba interpretar um clima humano de cara fechada. Wayans chega como Dr. Highland, descrito como um novo médico charmoso mas pomposo que cobre a licença de Ron enquanto ele se recupera de uma cirurgia — uma figura por quem toda a equipe se apaixona de imediato, com uma exceção nos olhos lúcidos de Alex, interpretada por Allison Tolman. É uma participação calibrada para um formato que favorece novatos e nunca os deixa ficar. O homem que costumava dominar toda a transmissão agora assina o ponto para um turno.

Nada disso é um rebaixamento, e ler assim perde o ponto mais interessante. O mockumentário é o lugar onde uma geração de energia cômica foi amadurecer — onde as pessoas que antes queriam botar fogo na casa agora interpretam a equipe tentando mantê-la de pé. Dois veteranos de In Living Color dividindo um posto de enfermagem não é nostalgia. É um mapa de onde a cultura estacionou seus comediantes mais inquietos depois que decidiu que queria ser confortada.

St. Denis Medical volta para sua terceira temporada na segunda-feira, 2 de novembro, às 20h na NBC, com streaming no dia seguinte no Peacock. O reencontro chega na estreia.

Veja a cena em que toda a ala suspira pelo Dr. Highland e uma enfermeira não. Aquele único olhar de resistência — Alex se recusando a ser encantada — é o mais perto que esse programa gentil chega do velho perigo. É preciso uma bola de demolição, aposentada na cadeira de balanço, para lembrar a todos como era a sensação de uma aresta de verdade.

Tags: , , , , ,

Discussão

Há 0 comentários.