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Bardem vive um diretor que usa a própria filha em ‘El ser querido’

Veronica Loop

Um diretor de cinema consagrado oferece à filha adulta o papel principal do próximo filme. Ela passou anos fracassando no ofício que ele domina; ele passou o mesmo tempo sendo perdoado por tudo o que quebrou pelo caminho. Rodrigo Sorogoyen constrói ‘El ser querido’ sobre essa única transação, e nunca deixa o espectador confundi-la com generosidade.

O diretor é Esteban Martínez, e Javier Bardem o interpreta como um homem que há muito confundiu controle com olhar. A filha é Emilia, vivida por Vicky Luengo: uma atriz cuja carreira parada abre para o pai exatamente a brecha que ele procurava. Colocá-los para trabalhar juntos de novo não é uma reconciliação. É uma negociação de poder, e o filme observa as condições apodrecerem.

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Duas atuações, uma armadilha

Escalar Bardem é o primeiro argumento do filme. Ele chega com quatro décadas de autoridade e um rosto em que a câmera sempre confiou, e Sorogoyen vira essa confiança contra o espectador. Esteban é magnético justamente porque Bardem faz a crueldade parecer convicção; a gente lhe dá o benefício da dúvida que quem o cerca deixou de dar há tempos. Diante dele, Luengo se recusa a fazer de Emilia uma vítima à espera de resgate. Ela vive uma profissional que sabe exatamente quem é o pai e aceita o trabalho mesmo assim, porque esse trabalho é a única coisa que ele já lhe ofereceu e que ela de fato quer.

Sorogoyen passou a carreira estudando pessoas presas em sistemas que premiam a sua pior versão: a máquina política de ‘El Reino’, a tropa de choque de ‘Antidisturbios’, o cerco rural de ‘As Bestas’. De novo com a sua roteirista de sempre, Isabel Peña, ele move o sistema para um interior, um set de filmagem, onde quem abusa também escreve o papel dos outros. É a sua premissa mais autoincriminadora até agora: um filme sobre um diretor que dobra todos ao redor, feito por um diretor cuja autoridade sobre o elenco é quase absoluta.

Um set como arma

O filme que Esteban roda é um drama de época ambientado num deserto, e Sorogoyen registra longos trechos de ‘El ser querido’ como a mecânica do próprio cinema: a espera, os ensaios, as pequenas humilhações que um diretor administra sem levantar a voz. O reencontro inicial carrega quase tudo. Numa única sequência longa, pai e filha se veem depois de mais de uma década e negociam os termos do trabalho; quando termina, as regras de toda a relação já estão dadas. Cada cena seguinte se lê como um lance numa partida cujo risco só os dois entendem por completo.

Essa consciência de si é também a aposta comercial do filme. Um drama em espanhol sem gancho de gênero se vende por duas coisas: um diretor cujo trabalho recente viajou muito além da Espanha e um astro cujo nome ainda abre um lançamento autoral em quase qualquer lugar. A Movistar Plus+, coprodutora, monta um catálogo pensado para competir com as plataformas pelo prestígio, e não pelo volume, e ‘El ser querido’ é justamente o título que sustenta essa estratégia.

O que o filme não faz é fingir que o seu tema é novo. O autor monstruoso que fere quem o ama é um dos autorretratos mais repetidos do cinema, e ‘El ser querido’ não escapa de todo do elogio escondido nesse arquétipo: a ideia de que o gênio compensa os próprios estragos. Cannes deu a Bardem uma longa ovação de pé e depois entregou a Palma de Ouro a outro, um veredicto em si mesmo: a atuação é inegável; o filme ao redor, um pouco menos. As críticas foram boas sem ser unânimes, e a ressalva se repete. Quanto mais Sorogoyen se aproxima da maquinaria do cinema, mais o drama corre o risco de admirar o mesmo controle que pretende denunciar.

Javier Bardem in a scene from The Beloved directed by Rodrigo Sorogoyen
Javier Bardem in The Beloved (2026)

Ao lado de Bardem e Luengo, o elenco reúne Marina Foïs, Raúl Arévalo, Melina Matthews e Laura Birn. Sorogoyen dirige a partir de um roteiro escrito com Peña, produzido por Caballo Films e Movistar Plus+ com a francesa Le Pacte, uma coprodução hispano-francesa pensada para o lançamento em festival e uma distribuição internacional. Tem 135 minutos enxutos e disputou a mostra competitiva de Cannes.

‘El ser querido’ já está nos cinemas franceses pela Le Pacte e estreia na Espanha em 26 de agosto de 2026 pela A Contracorriente, enquanto a Curzon prepara um lançamento posterior no Reino Unido e na Irlanda; ainda não há estreia brasileira confirmada. Sorogoyen enfim rodou o filme que rondava a carreira inteira: um retrato do artista como a pessoa mais perigosa da sala. É o seu trabalho mais desconfortável e, só por aquela cena do reencontro, um dos seus melhores.

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