Filmes

Never Change! no Hulu manda a turma de 2008 de volta ao colégio que um tornado interrompeu

Martha Lucas

A turma de 2008 do colégio North Meadows nunca atravessou o palco. Um tornado levou o prédio em plena temporada de provas, e o diploma que deveria fechar um capítulo e abrir o seguinte simplesmente nunca chegou. Cada um seguiu para o que vinha depois, como acontece com qualquer turma. Dezoito anos depois, beiram os 35, carregam financiamentos, separações e empregos que não levaram a lugar nenhum, quando uma brecha legal decide que, por um detalhe técnico, nenhum deles de fato se formou. A administração quer a papelada em ordem. Então eles têm que voltar.

YouTube video

Seria fácil arquivar Never Change! como comédia de fantasia: adultos espremidos em carteiras de criança, autorizações de corredor entregues a gente que paga IPTU. John Reynolds, que escreve o filme e guarda para si o protagonista, deixa você com a piada e logo move os móveis por baixo. O colégio é um dispositivo. O que a brecha legal expõe é uma geração a quem prometeram um fim e entregaram uma interrupção, e dessa interrupção ela saiu direto para o crash financeiro. A premissa exige terminar o último ano. O filme que pulsa por baixo fala de pessoas a quem nunca permitiram começar a ser adultas no prazo.

Vale começar pelo título, porque ali a crueldade cabe em duas palavras. «Never change!» é o que mais se escreve nos anuários, a ordem impossível de um adolescente a outro, um mandato disfarçado de elogio. O filme leva isso ao pé da letra. Exige-se de uma turma, por lei, não ter mudado: voltar e ser de novo quem eram antes de terem voz sobre em quem iam se tornar. Reynolds constrói a comédia na fresta entre a dedicatória e os corpos a que ela agora se aplica, e nessa fresta mora o desconforto.

Reynolds constrói a comédia como Search Party construía a angústia. Tem paciência. Deixa a cena correr além do ponto em que um filme mais grosseiro cortaria para a risada, e nesse segundo a mais o constrangimento coalha em algo mais engraçado e bem mais triste. O diálogo carrega boa parte do trabalho. São personagens que recuperam a cadência dos dezessete anos assim que cruzam a porta, e o roteiro está atento à velocidade com que o vocabulário de 2008 volta a quem se julgava livre dele. Reynolds confia que os atores interpretem a língua e não a situação, e por isso o riso chega de lado, numa frase pela metade ou num reflexo que denuncia o pouco que alguém andou.

O diretor Marty Schousboe filma o colégio como um lugar que não mudou nada, e essa imobilidade é ao mesmo tempo a crueldade da ideia e sua melhor piada. Os mesmos cartazes, a mesma hierarquia do refeitório, vários dos mesmos professores, um prédio que parece ter prendido a respiração à espera de uma turma que envelheceu década e meia no corredor de fora. Tudo o que mudou precisa aparecer nos rostos dos adultos que voltam, porque a instituição se recusa a registrar qualquer coisa. Um colégio, sugere o filme sem parar, sobrevive a todos os que passam por ele e não se lembra de nenhum.

O elenco sustenta o resto, e é profundo. Sofia Black-D’Elia, Carmen Christopher, Jo Firestone, Gary Richardson, Zach Cherry, Patti Harrison e Topher Grace encarnam adultos que recaem nos reflexos sociais da adolescência mal cruzam o umbral: as velhas alianças, as velhas humilhações, o mapa de lugares que ainda comanda a sala. A melhor escrita vive nessa recaída, na rapidez com que um trintão volta a ser quem era aos dezessete ao ser devolvido à mesma luz fluorescente. Rudy Pankow, Ana Gasteyer e Jackie Cruz completam um banco vindo em boa parte do mundo do SNL e da improvisação, e por isso a comédia é de conversa e de personagem antes de número montado.

O dado de 2008 não é cenário, e o filme sabe muito bem o que faz com ele. É a geração da crise, a que se formou rumo a um emprego que sumia e viu escorregar cada marco: a primeira casa, o trabalho estável, a simples sensação de ter chegado a algum lugar no tempo certo. Never Change! torna literal algo que essa geração carrega no corpo: que um começo limpo foi pulado, que os sinais chegaram tarde ou nunca, que a vida adulta se revelou menos uma porta que uma sequência de brechas e arranjos provisórios. Levar os personagens fisicamente de volta ao último instante antes de tudo descarrilar é a ideia central, e tem algo discretamente cruel. O filme não tem saudade de 2008; o que lhe interessa é o que 2008 levou embora.

E deixa a pergunta de fundo em aberto. Você pode completar a papelada. Pode subir ao palco dezoito anos atrasado, pegar o diploma na mão e deixar tirarem a foto. O que nenhuma brecha legal devolve é o trecho do meio, os anos devorados pelo tornado e pela economia enquanto cada um improvisava uma vida adulta sem o certificado que deveria autorizá-la. Um encerramento que chega tão tarde talvez não seja encerramento, apenas um papel enfim carimbado. O filme não finge o contrário, e é mais engraçado e mais verdadeiro por recusar o consolo que uma comédia menor teria distribuído no último rolo.

Never Change! estreou no Tribeca Festival antes de chegar ao Hulu nos Estados Unidos, com o Disney+ cuidando da distribuição internacional. Marty Schousboe dirige a partir do roteiro de Reynolds, e o elenco reúne Reynolds com Sofia Black-D’Elia, Carmen Christopher, Jo Firestone, Gary Richardson, Rudy Pankow, Ana Gasteyer, Jackie Cruz, Topher Grace, Patti Harrison e Zach Cherry ao longo de 98 minutos.

Elenco

Tags: , , , , ,

Discussão

Há 0 comentários.