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O Chamado ainda assusta porque aposta no silêncio, não no susto fácil

O remake de Gore Verbinski (2002) abriu as portas de Hollywood para o terror asiático.
Martha O'Hara
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Rachel Keller vê uma fita de vídeo numa pousada de montanha, e o telefone do quarto toca logo em seguida. Uma voz sussurra: “Sete dias”. É um começo seco, quase doméstico, e O Chamado (2002) não precisa de muito mais para fazer a plateia contar os dias junto com a personagem. Gore Verbinski trata a maldição como pauta de reportagem: primeiro vêm os mortos, depois o que eles tinham em comum, e só no fim a pergunta que ninguém quer responder.

Naomi Watts vive Rachel, jornalista de Seattle que aceita investigar a morte da sobrinha Katie a pedido da irmã, Ruth. Ela descobre que os amigos de Katie morreram na mesma época, todos em acidentes estranhos, e que o fio comum é a fita. A premissa é de lenda urbana, dessas contadas entre adolescentes, e o roteiro de Ehren Kruger a leva a sério sem exigir que o espectador acredite em nada além do necessário. Watts faz de Rachel uma mulher prática, que só perde o chão quando o filho entra na equação. Ela é a pessoa certa para o caso, e o filho é o seu ponto fraco. David Dorfman, como Aidan, tem uma presença quieta, de criança que parece saber mais do que diz, e é a razão pela qual Rachel não pode simplesmente desistir. Martin Henderson, no papel de Noah, o ex-marido analista de vídeo, é o menos favorecido: serve à trama mais do que à emoção.

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O melhor do filme está na investigação. Rachel descobre que uma das mulheres da fita é Anna Morgan, criadora de cavalos que se matou depois que parte dos animais se afogou perto da ilha de Moesko. Na viagem de balsa até lá, um cavalo se joga ao mar. A cena perturba porque, na hora, ninguém a explica. Daí em diante o roteiro vai reunindo peças: Anna adotou Samara depois de quatro abortos espontâneos seguidos, a menina tinha o poder de gravar imagens em objetos e na mente das pessoas, e o casal usava o sótão do celeiro para mantê-la isolada deles próprios e do mundo exterior. Richard, o marido de Anna, interpretado por Brian Cox, insiste que a menina é má e se eletrocuta. A descoberta do sótão e da árvore escondida sob o papel de parede, que Rachel reconhece da pousada, é montada com paciência e sem sustos baratos.

Reconstituir o passado de Samara, porém, tem um preço. A explicação da maldição chega com cara de arquivo clínico: a ficha do hospital psiquiátrico de Eola, a certidão de nascimento falsa, o vídeo em que a menina pede desculpas e diz que “eles não vão parar”. O mistério inicial perde parte da força ao ser organizado assim. A cópia da fita que Rachel faz para Noah examinar também soa, a essa altura, mais como expediente do roteiro do que como escolha da personagem. São deslizes pequenos diante do conjunto, mas existem.

Verbinski conduz o filme num registro contido e opressor. A pousada e a casa dos Morgan pesam como lugares onde algo ruim já aconteceu antes da chegada dos personagens, e boa parte da história se passa em silêncio e em tons abafados. O site Horror Movie Talk chama o design de som de “absolutamente perfeito”, e a descrição procede: o medo vem mais do que se escuta do que do que se vê. A trilha de Hans Zimmer entra nessa mesma lógica. Em faixas como “Rachel Alone”, “Aidan Can’t Sleep” e “Before You Die You See the Ring”, a música acompanha a espera sem forçá-la, e serve ao clima antes de servir ao susto.

No clímax, Rachel cai no poço da pousada e tem uma visão de Anna jogando Samara lá dentro, onde a menina sobreviveu por uma semana. É o ponto emocional da história. O corpo de Samara vem à tona, Rachel e Noah lhe dão um enterro digno, e por um instante o filme parece fechar o ciclo. Mas Aidan avisa a mãe de que ajudar Samara foi um erro, e Rachel percebe que a semana de Noah acabou. O enterro, portanto, não encerra a história, e a sensação que fica é a de que ajudar Samara não bastou para parar a maldição.

O Chamado é um remake do japonês Ringu (1998), baseado no romance de Koji Suzuki, de 1991. A versão americana é mais explicativa e menos enigmática do que a fonte, e quem conhece o original sente a diferença. Ainda assim, o filme estreou nos Estados Unidos em outubro de 2002, com recepção de mista a positiva, rendeu 249,3 milhões de dólares no mundo e ganhou os prêmios Saturn de melhor filme de terror e de melhor atriz para Watts. Depois dele vieram as versões americanas de The Grudge (2004) e Dark Water (2005), entre outras.

Uma resenha publicada no site de Roger Ebert o descreve como um terror que não insulta a inteligência do espectador e deixa o mais intenso para o final. A descrição é boa: o filme confia mais na espera do que no choque.

O que fica na memória, no meu caso, não é nenhuma imagem da fita, e sim o poço. Samara foi jogada ali, sobreviveu uma semana, e enterrá-la não bastou. O filme perde força quando explica demais e deve muito ao original japonês, mas esse último passo, em que a boa ação não resolve nada, é o que o faz durar.

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Fotos: The Movie Database (TMDB)

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