Filmes

Sam Neill morre aos 78 anos, o ator em quem os grandes diretores confiavam para servir ao filme

Camille Lefèvre

A maioria dos atores passa a carreira lutando para segurar o centro do quadro. Sam Neill passou a dele cedendo esse espaço — e essa generosidade, mais do que qualquer papel isolado, é o que o cinema acaba de perder. As homenagens começam com os óculos escuros descendo enquanto um braquiossauro surge no enquadramento, e fazem bem; mas o reflexo de arquivá-lo sob um único blockbuster erra a coisa mais estranha e mais refinada que ele de fato foi: o protagonista que toda uma geração de autores procurava justamente porque ele não competiria com os filmes deles.

Pense em quem confiou nele. Gillian Armstrong construiu a estreia de um cinema nacional inteiro sobre a contenção dele; Jane Campion o escalou como o marido colonial contido; Phillip Noyce o deixou à deriva em mar aberto em “Encontro Mortal”; John Carpenter usou a própria sanidade dele como superfície de horror; Fred Schepisi o colocou ao lado de Meryl Streep duas vezes e nunca se preocupou que ele roubasse a cena. Não são diretores com um estilo comum. O que compartilhavam era a necessidade de um ator que pudesse ser ajustado — uma superfície inteligente e discreta que um cineasta pudesse sintonizar com o que o filme pedisse — e Neill era o instrumento ao qual eles sempre voltavam.

Esse é o segredo da amplitude que todos elogiavam sem nomear direito. A mesma qualidade contida funcionava como decência no Dr. Alan Grant de Steven Spielberg e como algo mais frio quando um diretor virava o botão para o outro lado: o marido possessivo de “Possessão”, o homem se desfazendo em silêncio. Raramente anunciava uma emoção; entregava-a ao corte e ao plano e contraplano. Sua atuação era amiga da edição — ele dava ao diretor as peças e saía do caminho, e por isso podia carregar um drama de época e um filme de criatura na mesma temporada sem nunca parecer mudar de marcha.

A trajetória do trabalho é um mapa de um cinema. Ele surgiu em “Sleeping Dogs” e “My Brilliant Career”, parte da explosão antípoda que levou toda a sua geração — Campion, Armstrong e os outros — da Austrália e da Nova Zelândia para o mundo. “Jurassic Park” foi a exceção, não o auge: a única vez em que uma franquia global tomou emprestada sua estabilidade para ancorar o espetáculo, tornando seu rosto um item doméstico para milhões que jamais procurariam “Possessão”. Ele voltou a Grant por três décadas e nunca deixou o cachê avacalhar o ofício.

Ele morreu em Sydney, no St Vincent’s Private Hospital, aos 78 anos, informou sua família — a perda “repentina e inesperada” mas, nas palavras deles, “abençoada pelo fato de Sam estar livre do câncer”. Ele convivia com linfoma angioimunoblástico de células T, um câncer raro no sangue, desde 2022, e só nesta primavera havia anunciado que a doença tinha desaparecido. Nascido na Irlanda do Norte e criado em Dunedin desde os sete anos, manteve-se desafiadoramente neozelandês, cuidando do pinot noir em seu vinhedo Two Paddocks entre filmes e tratando o estrelato como um hobby levemente constrangedor. Deixa quatro filhos e oito netos.

Veja a primeira vez que Alan Grant vê um dinossauro vivo: a câmera segura o rosto de Neill, porque o filme precisa que acreditemos antes de ousar nos mostrar. Esse era o trabalho que ele fazia melhor do que quase ninguém — olhar, para que nós olhássemos. O cinema não tem falta de estrelas. Acaba de perder um dos seus últimos grandes reagentes, o homem cujo dom era fazer o filme dos outros parecer verdadeiro.

Tags: , , , ,

Discussão

Há 0 comentários.