Atores

Meryl Streep ainda discute com a estátua que a crítica ergueu pra ela

Penelope H. Fritz

A atriz que Hollywood pôs em mármore há quarenta anos acaba de assinar o melhor fim de semana de estreia da carreira inteira. A contradição não é detalhe. É a história.

Miranda Priestly voltou, e com ela voltou um curto-circuito curioso. A mulher a quem a crítica americana decidiu chamar de “maior atriz viva” em algum ponto da década de oitenta está de novo em cartaz, ao lado de Anne Hathaway, numa sequência de comédia da Disney sobre o mundo da moda, e essa sequência acaba de virar o melhor fim de semana de bilheteria de toda a filmografia dela. Para uma mulher cujos Oscars e mitologias deveriam ter encerrado o capítulo comercial faz tempo, isso tem graça. E Streep, que sempre foi mais engraçada do que a canonização permitia supor, está deixando a piada pousar com calma.

A voz veio primeiro. Mary Louise Streep cresceu no silêncio confortável de Bernardsville, em Nova Jersey, filha de um executivo farmacêutico de ascendência alemã e suíça e de uma ilustradora publicitária. A partir dos doze anos estudou canto lírico com Estelle Liebling, a mesma professora que tinha formado Beverly Sills. A carreira de ópera era plausível — existem gravações da adolescência que a família guarda com orgulho meio envergonhado — mas a disciplina passou intacta para o teatro quando ela descobriu a interpretação tarde, numa montagem universitária de A Senhorita Júlia no Vassar College em 1969, e o campus entendeu que aquela era a atriz da turma. Formou-se cum laude em arte dramática em 1971. A Yale School of Drama acrescentou a técnica, os idiomas, as úlceras de quem fazia mais de doze montagens por temporada, e um MFA em 1975. Saiu de New Haven direto pro Public Theater de Joseph Papp em Nova York.

Meryl Streep in Kramer vs. Kramer
Meryl Streep in Kramer vs. Kramer

Em 1976 já tinha uma indicação ao Tony por 27 Wagons Full of Cotton. Foi nessa época que conheceu John Cazale durante uma temporada de Medida por Medida no Shakespeare in the Park. Cazale, o inesquecível Fredo da saga O Poderoso Chefão, já estava com câncer ósseo terminal quando começaram a morar juntos. Morreu em março de 1978, aos quarenta e dois anos, depois de eles rodarem juntos O Franco Atirador. O luto é o peso não dito dentro das primeiras interpretações grandes de Streep.

Veio então o ciclo que construiu a lenda. Kramer vs. Kramer deu a ela o primeiro Oscar de atriz coadjuvante, ao lado de um Dustin Hoffman cujas táticas de método — um tapa sem aviso, um copo quebrado contra a parede pra surpreendê-la na cena, provocações no set usando o nome do noivo dela recém-falecido — envelheceram virando uma espécie de aviso para o ofício. A Mulher do Tenente Francês, em 1981, fez ela interpretar duas mulheres ao mesmo tempo, a vitoriana e a contemporânea. A Escolha de Sofia a consagrou de vez: o sotaque polonês, as frases em alemão diante de um oficial da SS, a escolha que não se nomeia. Pauline Kael, que nunca gostou dela, falou em truque de mágica, e desde então a discussão sobre Streep gira exatamente em torno desse termo. Entre Dois Amores com Robert Redford foi o biopic de prestígio em plena floração. A década fechou com Silkwood — O Retrato de uma Coragem, Loucuras de Amor, Coração de Ferro, Um Grito no Escuro e Lembranças de Hollywood — o que a própria atriz batizou, meio resignada, como sua década dos sotaques.

Os anos noventa foram mais ásperos. Hollywood não sabia o que fazer com uma dramática séria passada dos quarenta, e Streep respondeu indo pelo estranho: a comédia de horror cosmético A Morte Lhe Cai Bem, a aventura fluvial O Rio Selvagem, um melodrama subestimado com Clint Eastwood em As Pontes de Madison. O segundo fôlego veio na virada do século com Adaptação, As Horas, Sob o Domínio do Mal e a minissérie da HBO Angels in America. E aí, em 2006, o filme que reorganizou o registro comercial dela. O Diabo Veste Prada é uma comédia sobre uma editora-chefe tirânica de revista de moda que ela, como confessou neste mesmo ano, esteve a ponto de recusar por dinheiro e só aceitou depois que o estúdio dobrou o cachê. Miranda Priestly é, vinte anos depois, provavelmente o papel mais visto da carreira dela. As falas migraram pra fala comum de vinte países. Dúvida, em 2008, colocou ela frente a Philip Seymour Hoffman numa adaptação de teatro que não tinha por que funcionar no cinema. Mamma Mia!, no mesmo ano, provou que ela podia carregar um musical cantado e dançado até o maior debut internacional da carreira dela, até que a continuação de Prada tomou esse posto. A Dama de Ferro, em 2011, um biopic discutível de Margaret Thatcher, deu a ela o terceiro Oscar que a canonização exigia como confirmação.

A discussão sobre que tipo de atriz ela é nunca foi de fato encerrada. A queixa de Kael — a técnica é tão visível que mantém o espectador fora do personagem — não desapareceu, só perdeu por maioria. A resposta honesta é que Streep sempre foi mais relaxada na comédia do que no drama de prestígio, mais fluida no registro de musical e screwball do que no modo dor-e-troféu pelo qual a Academia a remunerou. O público que transformou Mamma Mia! e O Diabo Veste Prada em durabilidades culturais recebeu uma coisa que o público de A Escolha de Sofia não recebia totalmente: uma Streep visivelmente se divertindo, num registro que a própria canonização tinha mandado ela não frequentar. O terceiro Oscar veio de A Dama de Ferro. A permanência cultural veio da Miranda Priestly e da mãe cantando Dancing Queen. A Academia e o público discordaram sobre qual Streep importava. O público estava certo.

A camada pessoal é, por escolha, pobre de episódio. Casamento longo com o escultor Don Gummer, quatro filhos — Henry, Mamie, Grace e Louisa — e uma separação discreta anunciada em 2017 sem maior elaboração pública. Desde 2024 mantém com Martin Short, parceiro dela em Only Murders in the Building, uma relação discutida mas nunca formalmente confirmada, num status que aparentemente convém aos dois. Há décadas é voz pública sobre paridade salarial em Hollywood, sobre política ambiental através do grupo Mothers and Others que cofundou em 1989, e contra o costume de pôr atrizes mais jovens como contrapeso decorativo de atores mais velhos.

O Diabo Veste Prada 2 estreou em 1º de maio de 2026 com a melhor bilheteria de fim de semana da carreira inteira dela, à frente até de Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo. A turnê de divulgação foi a temporada mais exposta dela em anos: capa da Vogue de maio de 2026 ao lado de Anna Wintour, declarações chamando de “chato” o domínio dos super-heróis no cinema atual, defesa pública de Stanley Tucci como tesouro nacional, uma alfinetada direta no guarda-roupa de Melania Trump na tv americana. E, de novo, a hipótese aberta de um retorno à Broadway. Se acontecer, é o único suspense que sobrou de uma carreira que o cânone deu por fechada faz tempo. Coisa que, pra Streep, é exatamente o motivo de a piada continuar funcionando.

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