Atores

Bryce Dallas Howard, a atriz que está se ensinando a dirigir

Penelope H. Fritz
Bryce Dallas Howard
Bryce Dallas Howard
Nascimento2 de março de 1981
Los Angeles, California, USA
OcupaçãoAtor
Conhecido porHistórias Cruzadas, Uma Mente Brilhante, Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros
PrêmiosSAG · Hasty Pudding Woman of the Year (2019) · Hollywood Film

Há um momento, em quase toda entrevista dada por Bryce Dallas Howard nos últimos três anos, em que ela para de falar do filme que veio promover e começa a explicar como a câmera estava posicionada, como uma chefe de departamento resolveu um problema logístico, ou qual foi a primeira intuição da montadora. É o discurso de quem está silenciosamente se reciclando para o trabalho que de fato quer, sem largar o que paga as contas. A atriz que quase todo mundo reconhece de bate-pronto — Claire Dearing em três Jurassic World — é também, em 2026, uma das diretoras de episódios em quem a Lucasfilm mais confia, e uma documentarista cujos dois longas para Apple e Disney construíram algo que a indústria raramente concede a uma atriz: uma voz própria de direção.

Essa voz é gentil, o que surpreendeu quem esperava algo mais barulhento de uma Howard. O pai dela, Ron, é o diretor vencedor do Oscar por Uma Mente Brilhante e Apollo 13. A mãe, Cheryl, é escritora. Bryce cresceu em Armonk e Greenwich, deliberadamente longe do meio, com televisão racionada e vida ao ar livre obrigatória. Estudou no Stella Adler Studio e na Tisch School of the Arts da NYU, para onde voltou quase duas décadas depois para terminar o bacharelado. É um detalhe que diz mais sobre ela do que qualquer turnê de imprensa: não dá por sabido o que já sabe. Termina o diploma.

M. Night Shyamalan a viu numa montagem off-Broadway de Como Quiserdes no Public Theater e a escalou como protagonista cega de A Vila, em 2004. Tinha vinte e três anos. O filme dividiu a crítica, a interpretação não, e ali já estava tudo: rosto aberto, precisão emocional, ligeira recusa do glamour. Sam Raimi a transformou em Gwen Stacy em Homem-Aranha 3. McG a colocou em O Exterminador do Futuro: A Salvação. A saga Crepúsculo a contratou como Victoria em Eclipse. Tate Taylor a escalou contra o tipo como Hilly Holbrook, a mais impiedosa entre as vilãs bem-nascidas de Histórias Cruzadas; o elenco levou o SAG Award.

Em 2015 veio Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros, e o rosto dela passou a ser legível em qualquer cidade com multiplex. Interpreta Claire Dearing há três filmes, um videogame, uma atração de parque temático e uma máquina de marketing do tamanho de um país pequeno. O preço dessa visibilidade, ela mesma contou em detalhe, foi ser pedida várias vezes a emagrecer para a franquia. Não emagreceu. Colin Trevorrow, diretor do filme original e de Jurassic World: Domínio, acabou intervindo para recusar o pedido em nome dela. Também já falou em público sobre ter recebido muito menos do que Chris Pratt em Jurassic World: Reino Ameaçado, e contou que o próprio Pratt negociou para ela cláusulas de paridade salarial nas receitas paralelas — jogos, parques, spin-offs.

É a parte que a maioria dos perfis evita ou moraliza. Howard não faz nenhuma das duas coisas. Fala disso como uma eletricista fala de uma falha de fiação: uma coisa que aconteceu, num sistema em que ela escolheu continuar trabalhando, com consequências que assume publicamente. A franqueza é a disciplina dela. É, provavelmente, o que a tornou uma diretora crível para outras atrizes e atores, que no set a leem como alguém que não se envergonha nem da própria ambição nem do seu preço.

A carreira de direção começou com um documentário sobre paternidade, Pais, coproduzido com o próprio pai e comprado pela Apple em Toronto, em 2019. É sentimental, mas o sentimento está sob suspeita: o filme fala, em parte, do abismo entre a paternidade que o mercado vende aos homens e aquela que muitos deles gostariam de viver. A Lucasfilm percebeu. Jon Favreau lhe entregou Santuário, sétimo episódio de The Mandalorian, e a chamou de volta para A Herdeira na segunda temporada (a primeira aparição em live-action de Bo-Katan, sequência que a franquia não para de citar) e Armas de Aluguel na terceira, além do retorno do mandaloriano em O Livro de Boba Fett. Em 2024 dirigiu um episódio de Star Wars: Skeleton Crew — uma virada de tom, já que Skeleton Crew é, no fundo, Star Wars filmado como cinema Amblin, e Amblin é o ofício de família.

Bryce Dallas Howard
Bryce Dallas Howard. Photo: BrokenSphere / CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons (source)

Os anos mais vistos como atriz também foram os mais ásperos. Argylle: O Superespião, a comédia de espiões de Matthew Vaughn de 2024, não pegou; ela disse. A correção veio quase imediatamente. Em 2025 a Amazon lançou Deep Cover, uma comédia de ação muito improvisada com Orlando Bloom e Nick Mohammed que devolveu a ela o registro cômico que a crítica esperava havia anos — noventa e três por cento no Rotten Tomatoes. No mesmo abril, o Disney+ estreou o segundo documentário dela, Pets, uma volta ao mundo sobre o motivo de a relação entre humanos e animais ser um dos lugares em que mais depositamos amor.

Por trás disso há uma agenda que não parece mais a de uma atriz esperando uma chamada. Em 2026 ela dirige dois episódios da segunda temporada de Ahsoka, a comédia romântica All of Her para a Lionsgate (roteiro de Sarah Streicher a partir de uma história de Colin Trevorrow) e um remake de O Vôo do Navegador para a Disney. Em abril, entrou no elenco do terror sobrenatural Anything but Ghosts, de Curry Barker, ao lado de Aaron Paul: um projeto de escala Blumhouse, encerrado em Vancouver sob o título provisório Faraday, agora em pós-produção pela Focus Features. A agenda de direção já é mais longa que a de atuação. E isso, a essa altura, não é mais acidente.

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O pai dela já disse em entrevistas que a parte mais difícil de passar de ator a diretor é convencer o mercado de que a virada aconteceu. Howard não exatamente virou; ela recusou o binário. Faz as duas coisas, à mostra, nos termos dela, e o corpo de trabalho que vem montando atrás das câmeras é o que ocupa mais páginas nos cadernos dela hoje. A atriz continua aqui. A diretora, enfim, também

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