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Rosamund Pike, a atriz que transformou a loira fria em ameaça

De Bond girl a indicada ao Oscar e vencedora do Olivier, Pike passou duas décadas desmontando aquilo que a vendeu. A vitória de abril por Inter Alia só confirmou o que Garota Exemplar já tinha tornado inegável: ela não é o tipo. Ela é a pergunta que o tipo tenta esconder.
Penelope H. Fritz

Existe uma forma específica em que Rosamund Pike deveria caber, e quanto mais se olha a carreira dela com calma, mais nítido fica que ela passou anos se recusando a entrar nessa forma. A forma era a loira hitchcockiana: contida, inglesa, ótima em plano aberto, menos interessante no close. Foi esse o argumento de elenco quando ela entrou em 007 – Um Novo Dia para Morrer duas semanas depois de sair de Oxford. É, mais ou menos, o argumento que continua a persegui-la. O que mudou é que ela aprendeu a usar esse argumento contra ele mesmo.

Filha única de dois cantores de ópera — Julian Pike e Caroline Friend — cresceu acompanhando o trabalho dos pais entre Londres e os teatros europeus onde eles cantavam. Hammersmith, local de nascimento oficial, foi mais um ponto de passagem do que uma casa. Aprendeu violoncelo e piano com a disciplina das crianças criadas nos bastidores, aprendeu alemão e francês e, aos dezesseis, depois de entrar no National Youth Theatre, decidiu que o ofício da família, no fim das contas, era atuar. Todas as escolas de teatro a rejeitaram. Wadham College, em Oxford, não. Estudou Literatura Inglesa, tirou um ano sabático no meio do curso para atuar e saiu em 2001 com upper second-class honours e um currículo de palco que já incluía Skylight e All My Sons.

Um ano depois era Miranda Frost em 007 – Um Novo Dia para Morrer, ao lado de Pierce Brosnan, contra Halle Berry, e ganhou o Empire Award de melhor revelação. O papel pedia frieza, beleza e traição. Ela entregou os três com mais inteligência do que o filme merecia, e passou o resto da década tentando escapar do rótulo que o papel deixara colado. Jane Bennet em Orgulho e Preconceito. Helen em An Education. Made in Dagenham, Barney’s Version, Jack Reacher ao lado de Tom Cruise. Em cada papel, uma boa atriz inglesa em trabalho confiável; nenhum era aquilo para o qual ela estava claramente preparada.

O papel chegou em 2014. David Fincher a escalou como Amy Dunne em Garota Exemplar depois de testar e descartar a maior parte das contemporâneas dela em Hollywood. Amy era a mesma loira fria que Pike interpretava havia dez anos, só que dessa vez a frieza era a arma, a loirice era a máscara e o casamento no centro do filme era a armadilha. Vieram a indicação ao Oscar, ao BAFTA, ao Globo de Ouro, ao SAG. Não levou nenhum. O que levou foi permissão. Permissão para interpretar Marie Colvin em A Private War, a correspondente de guerra morta em Homs, tapa-olho e fúria fria. Permissão para fazer Ruth Williams Khama em A United Kingdom. E, finalmente, permissão para levar o Globo de Ouro inteiro por Eu Me Importo, em que ela arma um golpe de tutela contra idosos americanos e desafia o público a odiá-la.

Para uma atriz dessa disciplina, são as escolhas que não deram certo as mais reveladoras. Doom, sobre o qual ela disse este mês à Variety que é um dos piores filmes já feitos. A Roda do Tempo, as três temporadas da Amazon como Moiraine Damodred, encerradas em 2025: amada pelos fãs, ignorada pela conversa de prêmios que o cinema dela vinha dominando. O crédito de produtora em O Problema dos 3 Corpos, na Netflix, rendeu uma indicação ao Emmy de drama, mas também escancarou que a economia do prestige streaming continua tratando atrizes-produtoras como segundo escalão. O padrão está aí, e Pike não disfarça: em cada entrevista de Inter Alia, ela vem dizendo, com franqueza, que o teatro chegou primeiro ao tipo de escrita em que ela quer trabalhar.

Inter Alia, a peça de Suzie Miller que é, no essencial, uma inquirição de duas horas a uma juíza do Tribunal Superior cujo filho é acusado de estupro, estreou no National Theatre em 2025 e foi transferida para o Wyndham’s. Em 12 de abril de 2026, ela ganhou o Olivier de melhor atriz e usou o discurso para reconhecer Jodie Comer em Prima Facie, peça anterior da mesma Miller que ela própria cita como referência. A produção segue agora para a Broadway: Music Box Theatre, previews a partir de 10 de novembro, estreia em 1º de dezembro. Entre a temporada londrina e a transferência para Nova York, Pike entrega no mesmo ano três filmes: In the Grey, dirigido por Guy Ritchie com Jake Gyllenhaal e Henry Cavill, em cartaz esta semana; Ladies First, para a Netflix, ao lado de Sacha Baron Cohen, uma comédia de realidade alternativa em que o matriarcado manda, em 22 de maio; e Wife and Dog, de novo com Ritchie, ao lado de Benedict Cumberbatch e Anthony Hopkins, em outubro.

Pike está com o matemático e empresário Robie Uniacke desde 2009. Não são casados — ela já foi clara em dizer que prefere assim — e os dois filhos do casal, Solo e Atom, crescem bilíngues em mandarim, idioma que a própria Pike estuda desde que adotou o nome artístico chinês 裴淳华, em 2015. Solo, o mais velho, venceu o concurso Chinese Bridge em 2024.

O que os próximos doze meses argumentam é que o molde hitchcockiano deixou de servir. Três interpretações de Pike chegam às telas entre maio e outubro; em novembro, uma transferência à Broadway construída em torno dela. A atriz que deveria caber numa forma agora dita os termos dessa forma. A loira fria é a protagonista. A protagonista é a ameaça.

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