Música

Miley Cyrus ganhou o Grammy 20 anos depois de começar — e a demora diz tudo sobre a indústria

Penelope H. Fritz

Quando ‘Flowers’ quebrou o recorde de streams semanais do Spotify em 2023 e entregou os primeiros Grammy de Miley Cyrus em 2024, a pergunta certa não era ‘como ela voltou?’ A questão era: por que demorou tanto para alguém ouvir o que ela sempre esteve fazendo?

Miley Cyrus gravou um dos maiores hits da história do streaming escrevendo sobre se bastar. Sem precisar de ninguém para regar as plantas. Sem ninguém para segurá-la durante uma dança. ‘Flowers’, lançada em janeiro de 2023, quebrou o recorde de reproduções semanais do Spotify e preparou o terreno para os primeiros Grammy da artista — dois troféus, em fevereiro de 2024, na 66ª edição da premiação.

Mas o caminho de Miley Cyrus até esse momento começou com uma peluca loira e um contrato com a Disney. Ela nasceu como Destiny Hope Cyrus em 23 de novembro de 1992, em Franklin, Tennessee, filha do cantor de country Billy Ray Cyrus e sua esposa Tish. O apelido de infância ‘Smiley’ virou ‘Miley’ e depois nome legal em 2008. Aos nove anos, já tinha uma participação em um filme de Tim Burton. Aos onze, fez o teste para Hannah Montana diante de um produtor que achou que ela era jovem demais e baixa demais para o papel principal. Conseguiu o papel assim mesmo.

Hannah Montana estreou em 2006 e foi um sucesso imediato e total. A premissa da série era simples e eficaz: uma adolescente que leva uma vida normal mas é, em segredo, uma estrela pop — identidade protegida apenas por uma peruca. A Disney transformou isso numa franchise multibilionária. Cyrus trabalhava doze horas por dia aos treze anos para sustentar as duas versões de si mesma. A série foi até 2011. A propriedade durou muito mais.

O que veio depois foi uma negociação pública e longa. Cada álbum rejeitava a versão anterior e propunha outra. Breakout (2008) e ‘Party in the U.S.A.’ (2009) fizeram a transição com suavidade. Bangerz (2013) foi a ruptura mais barulhenta: hip-hop, performance controversa no VMA, o clipe de ‘Wrecking Ball’, três vezes platina, indicação ao Grammy. A apresentação de 2013 com Robin Thicke foi a notícia musical mais moralista da década — na leitura dela, era uma tentativa de ser vista como artista adulta por um público que insistia em ver uma criança se comportando mal.

O problema que a crítica sempre levantou contra Miley Cyrus foi a incoerência: mudanças de estilo demais para configurar uma biografia artística legítima. O contra-argumento que a carreira oferece é que o fio condutor nunca foi o gênero — foi o controle. Em cada fase, ela se afastou um pouco mais da imagem que outros construíram ao redor dela e se aproximou um pouco mais da música que ela própria criava. Isso era menos visível que as trocas de visual, mas mais significativo.

Após o experimento psicodélico de Miley Cyrus and Her Dead Petz (2015) e o retorno country de Younger Now (2017), veio Plastic Hearts (2020): glam rock com Joan Jett e Billy Idol, gravado depois que um incêndio destruiu sua casa em Malibu e um casamento com o ator Liam Hemsworth chegou ao fim. Foi o álbum mais bem recebido pela crítica até então.

Endless Summer Vacation (2023) trouxe ‘Flowers’ e os dois Grammy. Something Beautiful (2025), seu nono álbum de estúdio, veio com um filme-conceito que ela codirigiu, descrito por ela como «uma tentativa de medicar uma cultura doente através da música». Uma edição deluxe com Lindsey Buckingham, Mick Fleetwood e David Byrne saiu em setembro de 2025.

Em maio de 2026, Miley Cyrus recebeu a estrela número 2.845 na Calçada da Fama de Hollywood. Em junho, o Attention Tour abriu no Dodger Stadium. Vinte anos depois de Hannah Montana, ela está em turnê pelo país que criou a personagem — com música que só ela poderia ter feito.

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