Cineastas

Pedro Almodóvar, o cineasta que transformou a Espanha em emoção pura

Penelope H. Fritz

No início de Dor e Glória há uma cena em que um diretor de meia-idade assiste a um Super-8 que filmou quando jovem e não consegue conectar aquela pessoa com quem está assistindo agora. Essa distância — entre o jovem anárquico que chegou a Madri sem nada além de uma câmera e o cineasta que ganhou dois Oscars, um Leão de Ouro e o afeto de duas gerações de espectadores europeus — é o espaço que toda a sua carreira vem cruzando.

Pedro Almodóvar Caballero nasceu em 25 de setembro de 1949 em Calzada de Calatrava, uma cidade pequena de La Mancha — a mesma planície castelhana que Dom Quixote atravessa em suas aventuras delirantes. O pai fazia vinho; a mãe lia e transcrevia cartas para os vizinhos analfabetos. Com oito anos, a família o mandou para um internato religioso em Cáceres, esperando que se tornasse padre. Chegou a Madri para estudar na escola nacional de cinema — que havia sido fechada pelo regime franquista. Conseguiu emprego na Telefónica e comprou sua primeira câmera Super-8 com o primeiro salário. Os filmes vieram antes de tudo.

A Madri que encontrou no fim dos anos setenta estava no meio da Movida Madrileña — a explosão cultural que se seguiu a trinta e seis anos de franquismo. Almodóvar foi a Movida no celulóide. Pepi, Luci, Bom (1980), Labirinto de Paixões (1982) e a delirante Entre Trevas (1983) tratavam sexo, drogas, transexualidade e absurdo político como material de farsa libertadora. Carmen Maura se tornou a atriz definitória dessa fase. Antonio Banderas apareceu em vários filmes antes que alguém fora da Espanha soubesse seu nome.

O reconhecimento internacional veio com Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988) — uma comédia de enredo madrilena que também é um estudo de solidariedade feminina e abandono masculino. Tudo Sobre Minha Mãe (1999) ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro. Fale com Ela (2002) ganhou o Oscar de melhor roteiro original. Dois filmes sobre o que as mulheres fazem quando os homens de quem dependiam desaparecem. Os dois profundamente estranhos. Os dois profundamente bons.

Há um debate legítimo sobre a relação de Almodóvar com as mulheres que seus filmes retratam. Seus defensores apontam a especificidade e a dignidade com que seus personagens femininos são construídos — mulheres trans, trabalhadoras do sexo, mães, dependentes químicas — todas com vidas interiores e histórias que o cinema dominante lhes nega. Seus críticos lembram que o diretor não é mulher, e que o olhar masculino opera em sua obra mesmo quando o tema é a experiência feminina. A resposta de Almodóvar está implícita nos próprios filmes: a distinção entre olhar para e olhar junto é a única que importa — e se resolve plano a plano.

Dor e Glória (2019) foi o filme em que ele finalmente apontou a câmera diretamente para si mesmo — para uma versão chamada Salvador Mallo, interpretada por Banderas na que é considerada a melhor atuação de sua carreira. O filme trata de dor crônica, heroína, um bloqueio criativo de anos e a ferida lentamente reaberta da memória de infância. Rendeu a Banderas o prêmio de melhor ator em Cannes. A Palma de Ouro não veio; Almodóvar, que passou a maior parte da carreira sem ela, continuou trabalhando como se a ausência não o preocupasse.

O Quarto ao Lado (2024), seu primeiro filme em inglês com Tilda Swinton e Julianne Moore, ganhou o Leão de Ouro em Veneza — o primeiro para um filme espanhol. Almodóvar confirmou que encerrou o capítulo em inglês e planeja filmar em espanhol em 2027. No meio do caminho fez Amarga Navidad (2026), uma tragicomédia autorreferencial sobre um diretor com bloqueio criativo, cuja estreia mundial em Competição no Festival de Cannes aconteceu em 19 de maio de 2026 — sete dias antes da atualização desta biografia. O filme recebeu uma ovação de seis minutos e meio e o Prêmio de Trilha Sonora. Pedro Almodóvar, aos 76 anos, ainda está no centro da sua própria obra.

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