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Ryan Gosling, o ator que resistiu à fama por vinte anos e se tornou um fenômeno

Penelope H. Fritz

Ryan Gosling passou vinte anos sendo o tipo de ator que usa a fama como ferramenta, não como destino. Construiu sua credibilidade recusando — projetos que nenhuma lógica de estúdio aprovaria, personagens que exigem desconforto. Depois, em 2023, colocou um patins rosa e se transformou em Ken.

Nasceu em 12 de novembro de 1980 em London, Ontario, Canadá, numa família mórmon de recursos modestos — o pai trabalhava numa fábrica de papel, a mãe era secretária. Aos doze anos, abandonou a escola para entrar no Mickey Mouse Club, programa da Disney onde dividiu o palco com Britney Spears, Justin Timberlake e Christina Aguilera. Não era a estrela óbvia do programa. Essa experiência — se apresentar ao lado de pessoas que já sabiam exatamente para onde iam enquanto ele ainda estava encontrando o próprio caminho — parece ter moldado sua relação com a fama. Ele não tentou se tornar um nome fixo do sistema. Tentou desaparecer dentro dos personagens.

Seus primeiros trabalhos foram desenhados para impossibilitar o uso do termo ídolo adolescente sem ironia. O Crente, de 2001, lhe rendeu os primeiros elogios como ator disposto a ir onde a maioria prefere não olhar. Diário de uma Paixão, adaptação do romance de Nicholas Sparks, foi o que o tornou famoso: um drama romântico ao qual ele admite ter dificuldade de se conectar emocionalmente no começo, o que dá à performance uma qualidade levemente subterrânea que espectadores casuais não percebem e os habituais não conseguem ignorar.

Half Nelson — filmado com cerca de 700 mil dólares — lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar aos vinte e cinco anos e estabeleceu o padrão: fisicamente comprometido, tecnicamente exato, emocionalmente opaco de formas que recompensam a paciência. Blue Valentine retratou a dissolução de um casamento com uma dureza que lhe valeu uma classificação NC-17 antes de ser contestada com sucesso. Drive, de Nicolas Winding Refn, envolve toda essa intensidade em mecânica de gênero e produziu algo que confundiu quem esperava um filme de ação convencional e encantou todos os outros. A Grande Aposta, de Adam McKay, demonstrou seu instinto de transformar papéis secundários — um banqueiro de Wall Street que quebra a quarta parede para explicar a crise de 2008 — no motor de todo o filme.

La La Land, a fábula de Damien Chazelle sobre ambição e seus custos em Los Angeles, ampliou seu registro para o musical e lhe trouxe um Globo de Ouro. Blade Runner 2049 e Primeiro Homem vieram depois, mais evidências de um ator que trata a escala das franquias como material, não como aspiração.

A crítica mais recorrente a Gosling baseia-se na sua escolha de interpretar Ken em Barbie: que o papel trocou complexidade por visibilidade, que o número «I’m Just Ken» no Oscar — que ele ensaiou por mais de cinco semanas, segundo relatos — foi a capitulação definitiva de quem passou vinte anos evitando exatamente esse tipo de espetáculo. O contra-argumento tem mais substância: tirar uma indicação ao Oscar do personagem mais apagado da maior franquia de brinquedos do mundo é, na prática, o resultado mais estranho e mais difícil de conseguir. Sua declaração pública defendendo Greta Gerwig e Margot Robbie depois da indicação mostrou que seus velhos instintos permaneciam intactos, mesmo dentro do filme cor-de-rosa.

Gosling e a atriz Eva Mendes estão juntos desde que se conheceram no set de The Place Beyond the Pines em 2012; têm duas filhas e mantiveram uma privacidade que é, dada a visibilidade combinada dos dois, genuinamente incomum.

Project Hail Mary, lançado em março de 2026 com direção de Phil Lord e Christopher Miller, o coloca como Ryland Grace, um astronauta solitário sem memória que acorda no espaço profundo e precisa reconstituir por que está lá e o que a Terra precisa dele. O filme arrecadou 141 milhões de dólares globalmente e mantém 94% de aprovação da crítica. Star Wars: Starfighter, uma precuela de Ocean’s Eleven com Margot Robbie e mais projetos aguardam. O ator que sempre disse não acabou construindo uma carreira que pode dizer qualquer coisa. Inclusive com patins.

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