Cineastas

Scott Derrickson, o cineasta que recusou a Marvel e encontrou seu maior sucesso no terror

Penelope H. Fritz
Scott Derrickson
Scott Derrickson
Photo: Y! Música / CC BY 2.0, via Wikimedia Commons
Nascimento16 de julho de 1966
Denver, Colorado
OcupaçãoCineasta
Conhecido porDoutor Estranho, O Telefone Preto, Entre Montanhas
PrêmiosPrêmio Bram Stoker de Melhor Roteiro · Oscar (indicação)

A ligação veio em janeiro de 2020, e Scott Derrickson disse não. Não a uma proposta sem futuro ou a um roteiro ruim — ele já era o diretor oficialmente ligado a Doctor Strange in the Multiverse of Madness, da Marvel, sequência de um filme que ele havia feito e que arrecadou US$ 677 milhões. Ele disse não porque ele e o estúdio não conseguiam chegar a um acordo sobre que tipo de filme aquilo deveria ser. Ele queria uma verdadeira sequência de horror. A Marvel queria algo com classificação PG-13. Ele saiu.

Essa decisão, e suas consequências, é o episódio que melhor esclarece uma carreira que consistentemente recusou o tipo de estabilidade que Hollywood recompensa. Derrickson cresceu em Denver, Colorado, estudou na Biola University — uma pequena instituição cristã evangélica que moldou tanto seus instintos teológicos quanto seu fascínio pela colisão entre fé e mal — e depois obteve um MFA na School of Cinematic Arts da USC. A escola de cinema lhe deu técnica. A Biola lhe deu uma preocupação com a textura específica do mal, não como entretenimento de gênero, mas como uma questão que vale a pena levar a sério.

Scott Derrickson
Scott Derrickson

Seu longa de estreia, Hellraiser: Inferno (2000), foi lançado diretamente em vídeo — um ponto de partida que constrangeria a maioria dos cineastas e sobre o qual Derrickson falou com sua franqueza característica. O filme lhe abriu as portas. A partir dali, The Exorcism of Emily Rose (2005) revelou-se um verdadeiro debate disfarçado de horror de tribunal: o que significa acreditar em possessão em uma cultura que decidiu que tais coisas são impossíveis? O filme arrecadou US$ 144 milhões no mundo com um orçamento modesto e apresentou um cineasta cujos instintos para o horror eram teológicos, não mecânicos.

A carreira que se seguiu foi irregular, como costumam ser as carreiras interessantes. The Day the Earth Stood Still (2008), um remake que ninguém havia pedido, deu lucro e quase não conquistou boa vontade, nem da crítica nem do próprio Derrickson. Sinister (2012) foi outra coisa: um filme de imagens encontradas com uma autêntica arquitetura do medo, movido por uma mitologia que ia além dos sustos repentinos rumo a algo mais incômodo. Deliver Us From Evil veio em seguida, em 2014. Então chegou a ligação da Marvel.

Doctor Strange (2016) arrecadou US$ 677 milhões no mundo, recebeu uma indicação ao Oscar de Efeitos Visuais e alcançou a rara distinção de ser um filme da Marvel com o qual os críticos de fato se envolveram, em vez de apenas processá-lo. Também colocou Derrickson na estranha posição de ter feito o filme mais caro e menos pessoal de sua carreira justamente quando sua visibilidade comercial estava no auge. Quando a sequência foi anunciada, a distância entre o que ele queria fazer e o que o estúdio permitiria tornou-se irreconciliável.

Os dois capítulos mais disputados de sua filmografia formam um padrão coerente: o melhor trabalho de Derrickson acontece quando a visão do estúdio e a dele se alinham, e o mais fraco, quando divergem. O remake de Day the Earth Stood Still foi visivelmente limitado pela intervenção de executivos; Derrickson disse, com uma franqueza incomum, que fazer um filme em que cineasta e produtor puxam em direções opostas é a forma de fazer um filme realmente ruim. Sua saída da Marvel aplicou esse princípio antes que o estrago estivesse feito. Sam Raimi o substituiu em Doctor Strange in the Multiverse of Madness e fez um filme diferente — não a sequência de horror que Derrickson havia planejado.

O filme que nasceu dessa saída foi The Black Phone (2022). Baseado em um conto de Joe Hill, ele se inspirou em três anos de terapia sobre a própria experiência de infância de Derrickson e traduziu esse material em um thriller sobrenatural ambientado na Denver de 1978, sua cidade natal. O roteiro venceu o Bram Stoker Award de Melhor Roteiro, o filme arrecadou mais de US$ 160 milhões com um orçamento de US$ 18 milhões e levou os críticos a recalibrar o que antes supunham sobre ele. Ethan Hawke, no papel do assassino em série conhecido como The Grabber, entregou uma das atuações mais inquietantes daquele ano sob uma meia-máscara de cerâmica.

Em 2025, Derrickson lançou dois filmes no mesmo ano-calendário — algo que quase nunca acontece com diretores de seu perfil e que ele conseguiu fazer sem que nenhum dos projetos fosse prejudicado. The Gorge, um thriller de ficção científica para a Apple TV+ estrelado por Miles Teller e Anya Taylor-Joy, com Sigourney Weaver, estreou em 14 de fevereiro e se tornou o lançamento de filme mais assistido da história da plataforma. Black Phone 2, a sequência que ele e o colaborador frequente C. Robert Cargill construíram em torno de uma única virada narrativa que tornou o desfecho do primeiro filme retrospectivamente mais rico, estreou em outubro e arrecadou mais de US$ 130 milhões — entregando, segundo a própria descrição de Derrickson, mais intensidade e mais violência gráfica do que o original.

YouTube video

Sua produtora, Crooked Highway, tem um acordo de primeira opção com a Screen Gems, da Sony. O próximo projeto em desenvolvimento é Road of Bones, uma adaptação do romance de Christopher Golden ambientado na Rodovia Kolyma, na Sibéria — a rota construída pelos campos de trabalho de Stalin —, onde as ameaças sobrenaturais são indistinguíveis do terreno. É, em outras palavras, exatamente o tipo de tema que um cineasta moldado por uma formação complementar em teologia e três anos de terapia para traumas de infância consideraria digno de explorar.

Filmes em destaque

Tags: , , , , ,

Discussão

Há 0 comentários.