Esportes

Ancelotti tirou o brilho da Seleção e apostou tudo na disciplina para acabar com 24 anos

Carlo Ancelotti disse em voz alta que o Brasil não tem mais um Pelé nem um Ronaldo, e montou um time que lhe dá razão: defender bem, esperar e atacar no contra-ataque. O país que ensinou o mundo a vencer com beleza tenta agora vencer se contendo.
Jack T. Taylor

Há uma frase que Carlo Ancelotti soltou no tom seco de quem lê a previsão do tempo e que deveria ter aberto uma discussão em cada bar do Rio. O Brasil, disse ele, não tem mais um Pelé nem um Ronaldo, nenhum gênio no banco capaz de resolver um jogo com um único toque de instinto. Não falou para ferir. Falou como uma ordem de serviço. E essa ordem é toda a história desta Seleção.

Porque o país que ensinou o resto do mundo a acreditar que vencer e a beleza eram a mesma coisa vem lhe dando razão em silêncio há um ano. Vinícius Júnior, o atacante mais perigoso da sua geração, descreve agora a própria função com o vocabulário de quem defende para viver: manter a forma, segurar a linha, esperar e machucar quando o adversário se inclina demais para a frente. Não é assim que o Brasil deveria falar. É assim que este Brasil aprendeu a falar.

A renúncia, e por que ela pode ser a decisão certa

O traço que define este time não é o talento. É a disposição de viver sem ele. Ancelotti é o primeiro técnico estrangeiro a quem o Brasil confiou a camisa, e a contratação já era uma confissão: a velha ideia de que o talento sozinho acabaria por levá-los para casa esbarrou num muro depois de duas décadas de eliminações nas quartas e de derrotas nos pênaltis.

O que ele lhes deu em troca foi estrutura. Uma defesa que não se rompe quando o jogo fica barulhento, um meio-campo que protege em vez de arriscar, um ataque sem um nove fixo, feito de jogadores que rodam e chegam atrasados para punir o meio segundo seguinte ao erro. É, sem dúvida, um time de Ancelotti: equilibrado, paciente, alérgico ao caos. O brilho continua no prédio. Ele apenas trancou a porta e ficou com a chave.

Nada conta isso com mais clareza do que o que aconteceu com o homem que, por uma década, foi a própria ideia do Brasil. Neymar está na lista, convocado aos trinta e quatro anos com um joelho reconstruído e um corpo que já o traiu mais de uma vez. Mas Ancelotti definiu seu papel sem nenhum traço de sentimentalismo: ele está porque pode ajudar, um minuto, cinco, noventa ou uma cobrança de pênalti. O dono do jogo bonito reduzido a um recurso. Não é traição: é veredito.

A convocação defende o mesmo argumento. Raphinha e Matheus Cunha carregam o gol, o jovem Endrick é a aposta de futuro, e Vinícius é o único autorizado a romper a estrutura quando o momento de verdade chega. Casemiro e Marquinhos dividem a braçadeira e sustentam a coluna. Os que ficaram em casa dizem mais do que os escolhidos: Richarlison, Gabriel Jesus, Savinho, João Pedro e Thiago Silva viram a lista sair sem eles. Ancelotti não escolheu os vinte e seis brasileiros mais habilidosos, mas os vinte e seis que cabem na ideia.

O sorteio dá fôlego à experiência. O Brasil estreia no Grupo C contra Marrocos em Nova Jersey, depois enfrenta o Haiti na Filadélfia e fecha diante da Escócia em Miami. Só Marrocos — o time que eliminou Espanha e Portugal a caminho das semifinais da última Copa — parece um teste real de se a nova contenção aguenta diante de um adversário que se recusa a se abrir. O grupo está para ser ganho; o torneio é outra história, assim como o peso de uma espera que já chega a vinte e quatro anos desde o último título.

E aqui está o que a estrutura não resolve. Mais cedo ou mais tarde, este Brasil vai chegar a uma noite de mata-mata equilibrada, feia, com os minutos se esgotando, dessas em que o plano cumpriu o seu papel e não produziu nada. O instinto que construiu a alma futebolística do país vai gritar para que rompam a forma, tentem o passe impossível, sejam o Brasil. Ancelotti passou um ano ensinando-os a não ouvir essa voz. Sua aposta, a mais ousada de um técnico brasileiro em uma geração, é que o time que lhes der a sexta estrela será o mais disposto a deixar de ser ele mesmo. Estamos prestes a descobrir se uma nação pode ser treinada para abrir mão da própria natureza, ou se a natureza, aos oitenta e nove minutos, sempre dá a última palavra.

Discussão

Há 0 comentários.