Esportes

Romell Glave é ouro nos 100 m do Europeu: o título que uma fratura na coluna quase impediu

Jack T. Taylor

A história fácil é a do homem que não terminou. Marcell Jacobs, o campeão, reduzindo na reta final, um título continental largado na noite de Birmingham para que outro o pegasse. Essa versão se escreve sozinha. Também está errada. O que aconteceu nos 100 metros masculinos no Campeonato Europeu não foi um presente dado a um sortudo qualquer. Foi um débito, anos atrasado, finalmente cobrado pelo velocista na pista com a mais longa conta a receber.

Romell Glave é rápido desde que o esporte conhece seu nome, e por quase o mesmo tempo ele vem se levantando do chão. O homem que cruzou a linha primeiro em Birmingham é o mesmo que foi, um dia, o adolescente mais veloz do planeta — e depois aquele cujo próprio corpo continuava tirando aquilo de volta. Ler sua vitória como o azar alheio é perder de vista o caminho percorrido.

Glave cresceu em Manchester — a paróquia na Jamaica, não a cidade inglesa — vendo Usain Bolt e decidindo que aquele era o emprego. Mudou-se para Londres adolescente, já carregando um dom, e aos dezessete foi o mais rápido do mundo na idade. Esse é o tipo de frase que deveria levar a algo limpo e rápido. A dele não levou. Um longo tempo parado. Uma fratura na coluna — a lesão que silenciosamente encerra velocistas, porque os 100 metros são uma violência que você inflige à própria espinha, repetidamente, no espaço de algumas passadas. Ele voltou correndo tempos que envergonhariam o garoto que fora.

A escalada dali não foi reta nem prometida. Bronze no último Campeonato Europeu, dois verões atrás. Uma semifinal de Mundial depois disso, onde correu lado a lado com a barreira dos dez segundos que separa o bom do sério. Nesta primavera, finalmente a rompeu de verdade, baixando de 9,98 e conquistando o título britânico, depois baixando ainda mais sua melhor marca. Cada passo foi um homem reconquistando terreno onde já pisara uma vez e perdera.

Então, quando o tiro soou na final, o quadro que importava não era o campeão quebrando atrás dele, mas o traço que levava Glave à frente: a recusa em deixar o corpo ter a última palavra. Pelo relógio, foi um vencedor confortável, com Jeremiah Azu o perseguindo para um um-dois britânico e o alemão Owen Ansah completando o pódio. A parte reveladora veio depois, no que Glave admitiu que estava escondendo. “A última semana ou mais foi de altos e baixos com meu corpo”, disse ele, “mas fui capaz de vir aqui independentemente de como me sentia.” Ele trocou um bronze por um ouro, disse ele, e conseguiu o um-dois — mas fez isso com um corpo que não estava cooperando totalmente. Campeões são feitos exatamente nessa brecha.

A prata de Azu foi seu próprio pequeno ato de teimosia; ele transformou um bronze do primeiro Europeu sênior em um degrau a mais, insistindo que, independentemente do que a temporada lhe jogasse, ele encontra o melhor quando as medalhas estão em jogo. Atrás dos dois britânicos, a história com que todos vão abrir — Jacobs, o bicampeão defensor, enrijecendo e diminuindo para terminar em sétimo — é real o bastante. Simplesmente não é o ponto. Favoritos quebram. Os homens que realmente são feitos para isso não quebram.

A prova foi disputada sob as luzes do Estádio Alexander, em Birmingham, na segunda noite do campeonato, o tipo de final em casa com que um velocista britânico sonha e raramente consegue. Glave conseguiu a sua, e venceu. Eis o detalhe que deveria inquietar o resto do continente: o tempo no placar estava bem longe da melhor marca pessoal que ele já possui. Ele se tornou campeão europeu num dia ruim. Os bons ainda estão à sua frente.

Tags: , , , , ,

Discussão

Há 0 comentários.