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Hitomi Kanehara, prodígio do Akutagawa que volta a pena contra o mundo editorial que a revelou

Penelope H. Fritz
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Hitomi Kanehara
NascimentoAugust 8, 1983
Tóquio
ProfissãoRomancista
PrêmiosPrêmio Akutagawa · Prêmio Sakunosuke Oda · Prêmio Literário Bunkamura Les Deux Magots

Em meados de novembro, na cidade de Uji, ao sul de Kyoto, Hitomi Kanehara receberá o Prêmio Literário Murasaki Shikibu, criado pela cidade para reconhecer a escrita de mulheres e batizado em homenagem à autora de The Tale of Genji. O livro premiado é YABUNONAKA, um longo romance sobre a exploração sexual no mercado editorial literário do Japão e a denúncia que a expõe, contado por oito narradores: quatro homens e quatro mulheres. No ano passado, a obra já havia recebido o Prêmio Mainichi de Cultura Editorial. Ao anunciar o prêmio, em setembro, o júri destacou sua «força narrativa» e sua «estrutura excepcional». Kanehara disse esperar que o livro ofereça aos leitores um pequeno ponto de apoio para refletir sobre questões sem resposta, enquanto os tempos mudam ao redor como uma tempestade.

É uma longa trajetória desde o começo. Aos vinte anos, Kanehara dividiu o Prêmio Akutagawa com Risa Wataya, então com dezenove, por seu primeiro romance, Snakes and Earrings. Na época, as duas eram as vencedoras mais jovens da história do prêmio literário mais acompanhado do Japão. O livro acabou vendendo mais de um milhão de exemplares no país.

Snakes and Earrings acompanha Lui, uma jovem de Tóquio que se envolve com um namorado punk cuja língua é bifurcada como a de uma cobra e com um tatuador de gostos sádicos. Ela própria divide a língua, faz uma tatuagem de dragão e qilin e bebe até se aproximar do nada. Kanehara escreveu o livro em frases secas e rápidas, que se recusam a explicar ou julgar — e foi justamente essa recusa que perturbou os leitores. Anunciado em janeiro de 2004, o Akutagawa veio poucos meses depois de o livro ter vencido o Prêmio Literário Subaru, em 2003; o romancista Ryu Murakami escreveu o posfácio para a edição em brochura. A tradução de David James Karashima para o inglês foi publicada em 2005, e Yukio Ninagawa adaptou a obra para o cinema em 2008, com Yuriko Yoshitaka no papel de Lui.

Kanehara nasceu em Tóquio em 8 de agosto de 1983. Seu pai, Mizuhito Kanehara, é professor da Universidade Hosei e prolífico tradutor de ficção infantil e juvenil. Ela parou de frequentar a escola na quarta série. Aos 12 anos, passou um ano em San Francisco, onde o pai estudava, leu os romances japoneses que ele escolhia para ela — entre eles, obras de Ryu Murakami e Eimi Yamada — e começou a escrever. Aos 14, assistia às aulas do seminário universitário do pai quando descobriu Story of the Eye, de Georges Bataille. Ela já falou abertamente sobre a automutilação na adolescência, e o corpo em sofrimento — perfurado, faminto ou cortado — atravessa seus primeiros livros, de AMEBIC (2005) a Autofiction (2006), que conta de trás para a frente a vida amorosa de uma jovem romancista, começando com uma esposa ciumenta de 22 anos e chegando a uma garota de 15. Karashima traduziu o livro para o inglês em 2007.

Depois, seus temas mudaram. Casada com seu editor na editora Shueisha, ela teve a primeira filha em 2007, e seus romances passaram a investigar o efeito da maternidade na percepção que uma mulher tem de si mesma. TRIP TRAP (2009) venceu o Prêmio Oda Sakunosuke. Mothers (2011), sobre três jovens mães levadas ao limite, recebeu em 2012 o Prêmio Literário Bunkamura Deux Magots. Depois do desastre nuclear de Fukushima, em março de 2011, preocupada com a radiação, ela deixou Tóquio e foi para Okayama, onde nasceu sua segunda filha; em 2012, mudou-se com a família para Paris. Ficou por seis anos, e sua coletânea de ensaios sobre esse período — um livro sobre os desertos de Paris e as miragens de Tóquio — foi lançada em 2020.

De volta ao Japão desde 2018, ela entrou na fase mais premiada da carreira. Ataraxia (2019), romance sobre adultério e a crueldade silenciosa da vida conjugal, venceu o Prêmio Literário Watanabe Junichi. Unsocial Distance (2021), uma coletânea de histórias sobre jovens que se afastam das regras dos anos da pandemia — entre eles, um casal universitário que planeja uma viagem para se suicidar depois que o show da banda favorita é cancelado —, recebeu o Prêmio Tanizaki, um dos mais prestigiados da literatura japonesa. Meets the World (2022), em que uma tímida jovem de 27 anos, fã de um mangá sobre carne grelhada, é acolhida por uma anfitriã de Kabukicho, venceu o Prêmio Shibata Renzaburo. A adaptação cinematográfica de Daigo Matsui, estrelada por Hana Sugisaki, estreou em outubro de 2025 e foi a primeira adaptação de uma obra sua para as telas em 17 anos. Entre esses livros, vieram fishy (2020) e Natural Born Chicken (2024).

YABUNONAKA reúne tudo isso. O título faz eco à expressão japonesa «yabu no naka» — no meio do matagal —, extraída do conto de Ryunosuke Akutagawa sobre um crime narrado por testemunhas cujos relatos nunca coincidem; hoje, a expressão significa uma verdade inacessível. Kanehara aplica a ideia a um ex-editor-chefe de uma revista literária acusado de abusos cometidos no passado e dá voz, um a um, a oito personagens envolvidos no caso, entre eles o homem acusado. Nenhum narrador é dono da história. Tendo entrado no mercado aos 20 anos pelas mesmas revistas literárias e pelos mesmos prêmios que agora examina, Kanehara escreve de dentro da indústria.

Desde abril de 2026, ela também ocupa um espaço na televisão aberta. A TV Tokyo a escolheu como principal entrevistadora de Cambria Palace, seu longevo programa de entrevistas sobre negócios, sucedendo Ryu Murakami após 20 anos. Ao anunciar a mudança, ela admitiu que pensara em outros três escritores como candidatos mais adequados e que talvez fosse «um erro de escalação», antes de se deixar levar pela curiosidade. A emissora chamou atenção para a coincidência: Murakami escreveu o posfácio de seu livro de estreia, e ela escreveu o do romance mais recente dele.

Fora do Japão, para a maioria dos leitores, ela ainda é a autora de dois livros traduzidos há vinte anos. Isso talvez esteja mudando: contos seus foram publicados na Granta, e o tradutor Yuki Tejima publicou um trecho em inglês de Unsocial Distance. Seu romance em capítulos Additional Life vem sendo publicado na revista Subaru desde 2025 — a mesma revista que lhe concedeu um prêmio quando ela tinha 20 anos.

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