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Campeón Gabacho, filme de boxe de Jonás Cuarón, estreia no México antes dos Estados Unidos

A adaptação do romance de Aura Xilonen, produzida por Alfonso Cuarón, chega aos cinemas mexicanos sem distribuição confirmada nos Estados Unidos
Veronica Loop
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Liborio é um garoto mexicano cujo único talento comprovado é apanhar. Ele atravessa o rio Grande, vai parar num bairro latino de Nova York, varre uma livraria para um homem que chama de “Chief” e dorme no mezanino, em cima das estantes. Uma briga de rua, um incêndio e uma academia de boxe o transformam em algo que a cidade não esperava: um candidato a campeão. Essa é a premissa de Campeón Gabacho, a adaptação que Jonás Cuarón fez do romance de Aura Xilonen, e o título carrega a piada e a ferida ao mesmo tempo. Campeón é campeão; gabacho é o termo pejorativo com que os mexicanos se referem a quem é dos Estados Unidos.

A história de mercado é quase um espelho da trama. O filme venceu o prêmio do público da mostra Narrative Spotlight no SXSW, abriu o Festival Internacional de Cinema de Morelia com Alfonso Cuarón no tapete vermelho como produtor do filho, e a Cinépolis Distribución agora o leva às salas mexicanas. Nos Estados Unidos, onde a história se passa e onde boa parte dela é falada em inglês, não há lançamento comercial confirmado. Um filme sobre um mexicano que precisa conquistar os Estados Unidos volta primeiro para casa.

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O elenco explica como o filme quer viajar. No centro está Juan Daniel García Treviño, que o site Moveable Fest destaca pela segurança que mostrou em La Civil, de Teodora Mihai, e em Perdidos en la noche, de Amat Escalante: um protagonista vindo do cinema de autor mexicano, não de Hollywood. Ao redor dele, uma moldura de nomes latinos conhecidos do público americano. Leslie Grace vive Aireen, a jovem que Liborio defende de valentões do bairro. Rosario Dawson é Doble-Ú, uma influenciadora que filma a briga de rua dele e quer torná-lo famoso. Rubén Blades comanda o abrigo infantil que o acolhe, Cheech Marin é o avô acamado de Aireen e Eddie Marsan é o dono da livraria. É um elenco pensado para vender a mesma história dos dois lados da fronteira.

Para Jonás Cuarón, é uma volta à fronteira com a temperatura mais baixa. Seu Desierto tratava a travessia como um thriller em que, como resume o Moveable Fest, não havia negociação possível com um americano que tomava para si o controle da imigração. Campeón Gabacho adota, nas palavras do mesmo crítico, “uma abordagem mais suave de ideias parecidas”. A oficina da família está completa: Alfonso Cuarón produz ao lado de Gabriela Rodríguez, Nicolás Celis e do próprio Jonás, e Mateo Cuarón assina a trilha original. A crítica já notou a herança. Christopher Llewellyn Reed, do Film Festival Today, descreve uma sequência em que Liborio sai voando rumo ao céu com a garota que ele corteja e admite que é difícil não pensar em Gravidade, que Jonás escreveu com o pai.

O material de origem dá ao filme uma credibilidade que nenhum diretor de elenco consegue comprar. Xilonen escreveu Campeón Gabacho aos 19 anos e venceu com ele o Prêmio Mauricio Achar de Literatura Random House; o romance se inspira na vida do avô dela, que também se chamava Liborio, e foi traduzido para o inglês como The Gringo Champion, além de francês, italiano, holandês e alemão. Ela mesma escreveu o roteiro com Cuarón, o que mantém a voz da autora na sala, e não só nos agradecimentos.

O segundo motor comercial é a música. O produtor e compositor Edgar Barrera supervisionou uma trilha que, segundo o site mexicano Plano Informativo, chegou a reunir cerca de 16 canções sobre migração, compostas para o filme e não tiradas de catálogo. A lista parece uma estratégia de gravadora para todo o mercado latino: Los Tigres del Norte, Santa Fe Klan, Grupo Frontera, Alemán e Edén Muñoz do lado mexicano; Maluma, Anitta, Arcángel, Eladio Carrión, Bomba Estéreo e Rawayana além dele. “Después de un Knockout”, do Rawayana, acompanha a parte do boxe, e “Pal Nord”, de Arcángel, é uma canção sobre migração construída como um huapango. Barrera explicou que cada faixa precisava de um motivo narrativo para estar ali. Seja qual for a bilheteria, as canções podem continuar rendendo nas playlists muito depois de o filme sair de cartaz. Para o público brasileiro, a presença de Anitta é o gancho mais óbvio.

A recepção crítica até agora é calorosa, com ressalvas claras. Reed deu três estrelas e meia de cinco e o definiu como realismo mágico e realismo de rua ao mesmo tempo, mas avisa que os monólogos para a câmera, as aproximações rápidas e as câmeras lentas às vezes parecem quase excessivos, uma distração pela repetição, e que a luta final não traz nada que não tenhamos visto antes. O Moveable Fest achou a Nova York do filme tão idealizada que lhe faltam detalhes reconhecíveis e disse que o filme nunca sabe bem o que fazer com Dawson. Na crítica da abertura de Morelia para o site Paloma y Nacho, Luis Ángel H. Mora elogiou García Treviño, mas viu um roteiro que acumula personagens e subtramas sem o desenvolvimento necessário e um trecho final que resvala no sentimentalismo.

Essa é a pergunta que o filme não resolve. O arco de redenção pelo boxe é um dos modelos mais confiáveis do cinema justamente porque resolve tudo no ringue, e uma história de migração contada como fábula para o grande público corre o risco de deixar a luta substituir os sistemas que descreve: o trabalho mal pago, os insultos, o despejo pelo fogo. Um prêmio do público em Austin prova que uma plateia de festival reagiu. Não prova que um distribuidor acredite que o filme pode encontrar público pagante nos Estados Unidos, e enquanto ninguém se comprometer, o argumento dele sobre pertencimento está sendo testado no México, não no país de que fala.

Juan Daniel García Treviño as Liborio in Campeón Gabacho, directed by Jonás Cuarón
Juan Daniel García Treviño as Liborio in Campeón Gabacho (2026)

Campeón Gabacho tem 108 minutos, é falado em inglês e espanhol e é uma produção mexicana feita com a Esperanto Filmoj e a Pimienta Films. Juan Daniel García Treviño, Leslie Grace, Rubén Blades, Eddie Marsan, Rosario Dawson, Cheech Marin, Marvin Jones III, Carlos Carrasco e Dolores Heredia lideram o elenco. Depois da estreia mundial no SXSW, em março de 2026, e da passagem pelo Festival Internacional de Cinema de Busan, o filme abriu em 16 de outubro a 24ª edição do Festival de Morelia.

A Cinépolis lança o filme nos cinemas do México em 29 de outubro de 2026. Ainda não há estreia confirmada no Brasil nem nos Estados Unidos até o momento. O México é o primeiro ringue certo para este lutador; a luta de verdade será conseguir espaço nas salas do país que ele chama de gabacho.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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