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Gangues de Nova York: Scorsese ergue uma cidade desaparecida e Day-Lewis a toma para si

Jun Satō

Uma fileira de facas está disposta sobre um pano como o instrumental de um cirurgião, e um homem de colete xadrez e cartola nomeia cada lâmina como quem recita uma escritura. Atrás dele ergue-se uma cidade que não existe mais e que nunca foi exatamente assim: os Five Points da baixa Manhattan, seus becos de lama e seus cortiços tortos, construídos inteiros num estúdio nos arredores de Roma. Gangues de Nova York começa nesse mundo construído e quase não sai dele, porque o mundo é o argumento.

Martin Scorsese queria fazer este filme havia uns vinte anos, e a vontade aparece em cada tábua. A história é uma vingança — um jovem irlandês, Amsterdam Vallon, volta ao cortiço para matar o açougueiro nativista que assassinou seu pai —, mas seu verdadeiro tema é um país que se funda no sangue, o momento em que a palavra “americano” ainda se decidia a golpes de cutelo no meio da rua. A vingança pessoal não para de ser engolida por algo maior: o recrutamento, os tumultos, a guerra por baixo da guerra.

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A cidade que Dante Ferretti construiu

O diretor de arte Dante Ferretti ergueu os Five Points nos estúdios da Cinecittà, em Roma: um bairro inteiro da Manhattan do século XIX em madeira e lama, iluminado por Michael Ballhaus entre fogo e fumaça. O detalhe é obsessivo e tátil: a madeira apodrecida, a sujeira em camadas, um avental endurecido pelo uso. A música de Howard Shore desliza do violino ao zumbido grave, e a montagem de Thelma Schoonmaker mantém as brigas legíveis até no auge do caos. O ofício não é cenário: sustenta a tese do filme de que a história é algo físico, feito à mão e pago com corpos.

Bill, o Açougueiro

E então há Daniel Day-Lewis. Como Bill “o Açougueiro” Cutting — senhor da guerra nativista, atirador de facas, rei autoproclamado dos Points — ele entrega uma das grandes atuações do cinema, uma espiral de charme e ameaça montada sobre um olho de vidro, um sotaque nova-iorquino antigo e achatado e uma quietude que detona sem aviso. É tão completo que expõe o filme à sua volta: o Amsterdam de Leonardo DiCaprio é sincero, mas superado, e a batedora de carteiras de Cameron Diaz fica encalhada num romance ao qual o roteiro nunca dá tempo. Toda vez que o Açougueiro sai do quadro, sente-se o chão ceder.

O filme entrou no Oscar de 2003 com dez indicações e saiu sem nada: uma zebra completa que virou pequena lenda, o preço de um projeto disputado na sala de montagem por seu produtor, Harvey Weinstein. O que sobrevive à interferência é a escala e o rosto: uma visão de como a cidade foi de fato feita, que nenhum cinema americano havia tentado, ancorada numa atuação que as pessoas ainda citam. É bagunçado e magnífico no mesmo fôlego, e o magnífico vence.

Daniel Day-Lewis como Bill, o Açougueiro, em Gangues de Nova York (2002), dirigido por Martin Scorsese
Daniel Day-Lewis como Bill “o Açougueiro” Cutting em Gangues de Nova York (2002).

Por que merece a nota

Os defeitos são reais e são de estrutura. A vingança é a coisa menos interessante de um filme que transborda história; o terceiro ato empurra os tumultos do recrutamento para o fundo do rancor de um só homem, e o romance mal se registra. Esses limites o mantêm fora do primeiríssimo time. Mas o mundo é total, a atuação central vai ficar e a ambição — filmar o nascimento violento de uma cidade que quase todo o cinema finge ter existido desde sempre — é honesta e singular. Funciona como espetáculo, como história e, toda vez que o Açougueiro fala, como algo perto do grande.

Gangues de Nova York estreou em 2002, dirigido por Martin Scorsese a partir de um roteiro de Jay Cocks, Steven Zaillian e Kenneth Lonergan, livremente baseado na crônica homônima de Herbert Asbury de 1928. Foi fotografado por Michael Ballhaus, com direção de arte de Dante Ferretti, montagem de Thelma Schoonmaker e trilha de Howard Shore. É estrelado por Daniel Day-Lewis, Leonardo DiCaprio, Cameron Diaz, Jim Broadbent, John C. Reilly, Brendan Gleeson e Liam Neeson; tem 167 minutos e recebeu dez indicações ao Oscar sem uma única vitória.

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