Filmes

Lou é um thriller modesto que só se sustenta por Allison Janney

Anna Foerster dirige em 2022 uma perseguição sob tempestade, com mais elenco do que roteiro.
Martha O'Hara
Adicione-nos no Google

Ilha Orcas, estado de Washington, 1986, com uma tempestade a caminho. Lou, a personagem de Allison Janney, vive sozinha com o cachorro Jax e desce à vila só para comprar o necessário. Ali, o xerife lhe recomenda uma pulseira de cobre para a artrite, e nada nela lembra uma heroína de ação. Aos poucos o filme revela que ela passou 26 anos como agente de campo da CIA. Em “Lou” (2022), Anna Foerster toma essa premissa de thriller e a empurra para o drama familiar, num roteiro que depende das atrizes para que a ligação entre as personagens soe verdadeira.

O ponto de partida é simples. Hannah (Jurnee Smollett-Bell) mora numa casa alugada por Lou e brinca de esconde-esconde com a filha pequena, Vee, quando a tempestade se aproxima. Chris, amigo de Hannah, sai para comprar mantimentos e dá carona a um desconhecido, que o mata. O homem corta a eletricidade da casa. Hannah sai para religá-la e, nesse intervalo, ele leva a menina e foge a pé. Ela corre até a casa de Lou, a senhoria reclusa, e a encontra no meio de uma tentativa de suicídio, que o filme registra sem se demorar. Antes que as duas saiam, a caminhonete explode: o sequestrador deixou uma bomba. A busca, noite adentro, deixa de ser só busca e vira acerto de contas com o passado de ambas. Janney faz de Lou uma mulher gasta, que carrega a habilidade letal como um fardo antigo. A atriz trabalha com pouco, e essa economia combina com alguém que passou a vida aprendendo a não chamar atenção.

YouTube video

O filme rende mais quando fica na relação entre as duas mulheres. Hannah conta que o sequestrador é Philip, pai de Vee, ex-boina-verde e criminoso de guerra que ela julgava morto. Pelo caminho, Lou mata os amigos dele, Tony e Gerry, com uma eficiência que entrega quem ela foi, e só então explica a Hannah o que fez da vida. Nessas passagens, vulnerabilidade e violência se alternam num ritmo razoável. Smollett-Bell dá à mãe uma urgência física que não descamba para a histeria, e o contraste com a contenção de Janney sustenta as cenas melhor do que as falas que o roteiro lhes reserva.

O problema está justamente nesse roteiro, que tropeça sempre que precisa conciliar ação e explicação. As perseguições são competentes e raramente passam disso: chuva, bombas, confrontos numa praia escura. A grande revelação, a de que Philip é filho de Lou, chega no último ato, em Eagle Bay, depois de um impasse armado. Lou o denunciou às autoridades para esconder Hannah e Vee, e antes disso o abandonou ainda criança para não pôr em risco uma missão secreta no Irã. O material é forte: uma mulher que largou o filho caminha ao lado de outra que atravessa a noite para não perder a filha. Só que a informação surge num diálogo atropelado, em meio à ameaça, e o filme não deixa que ela pese. O que poderia ser o centro dramático passa como mais uma peça a encaixar.

Foerster conduz bem as cenas íntimas. Quando a ação acelera, prende-se às convenções do gênero. A ilha, isolada e varrida pela tempestade, aparece mais como cenário do que como ideia, e dava para deixar esse isolamento alimentar a tensão entre Lou e Hannah em vez de correr para o confronto final. Um detalhe pequeno funciona: o xerife Rankin, vivido por Matt Craven, que na primeira cena recomenda a pulseira de cobre a Lou. Mais tarde, quando um telefonema do US Marshals Service o manda ficar fora do caso, que passou a ser federal, ele vai a Eagle Bay mesmo assim e entrega a pulseira a ela. É pouco, e funciona justamente porque ninguém o sublinha.

A recepção crítica foi dividida: Janney colheu os elogios, o roteiro levou as ressalvas. O texto publicado no site de Roger Ebert observa que a premissa exige escrita e direção robustas para vencer a descrença do público diante da ligação entre os personagens, e o filme só consegue isso em parte. O Decider, mais generoso, vê um suspense digno, amparado por boas atuações e pela direção.

No elenco de apoio, Logan Marshall-Green dá a Philip uma ameaça fria, embora o personagem tenha pouco espaço além da função de vilão, e Ridley Asha Bateman faz de Vee uma presença que justifica o desespero das duas. O desfecho junta a destruição do farol, cheio de explosivos, que Lou usa para sinalizar a um helicóptero da CIA que se aproxima, e uma última imagem na balsa: um braço de mulher, com uma cicatriz parecida com a de Lou e uma pulseira de cobre, observa Hannah e Vee de longe, por binóculos. A cena sugere uma continuação, mas o filme termina sem explicar nada.

Vale ver “Lou” por Janney e por uma noite de perseguição que se sustenta em duas atrizes. O roteiro deixa a revelação mais importante chegar tarde e sem espaço, e o filme sai menor do que a premissa prometia.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

  • Ridley Asha Bateman — Vee

Tags: , , , , ,

Adicione-nos no Google

Discussão

Há 0 comentários.