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Stars at Noon só se sustenta pela força de Margaret Qualley

Claire Denis adapta Denis Johnson em 2022, numa Nicarágua sufocante e com final seco e memorável.
Martha O'Hara
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Trish passa o filme inteiro tentando sair da Nicarágua, e a saída acaba custando caro. No meio da história, ela dança com Daniel num clube noturno deserto enquanto ele fala da mulher. É o momento mais terno de “Stars at Noon” e também o mais traiçoeiro, porque ali ninguém merece confiança: nem o dinheiro, nem o desejo, nem a profissão que cada um diz ter.

Claire Denis adapta o romance de Denis Johnson, publicado em 1986 e ambientado durante a Revolução Nicaraguense, em 1984. Ela leva a trama para o presente, com a pandemia de covid-19 e um governo em plena instabilidade. Trish, vivida por Margaret Qualley, é uma jornalista americana que escreve sobre viagens. Suas reportagens sobre execuções extrajudiciais a indispuseram tanto com os chefes quanto com o partido no poder. Está sem passaporte, mora numa pensão paga por um ministro solidário e troca sexo com autoridades por dinheiro e por itens básicos que a crise tornou raros. Num hotel para estrangeiros ricos, aborda Daniel (Joe Alwyn), um britânico que se apresenta como consultor de petroquímica. Trish está convencida de que ele é agente de inteligência.

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A melhor coisa do filme é Qualley. Ela faz de Trish uma mulher que negocia cada favor sem perder a teimosia, e muitas vezes carrega a cena sozinha, porque o roteiro lhe dá pouco. Alwyn, ao contrário, parece ausente. Seu Daniel oscila entre o distante e o simplesmente vago, e o romance, que deveria ser o centro de gravidade, fica sem peso. Entre os dois não acende nada. O filme pede que acreditemos numa paixão nascida de uma transação, e do lado dele falta faísca.

Benny Safdie, como o agente da CIA, aparece pouco, mas é quem mais prende o olhar quando entra em cena. Danny Ramirez, como o policial costa-riquenho que persegue o casal por um mercado, traz uma ameaça mais física e menos sutil. John C. Reilly faz o editor de uma revista americana numa participação que mal se registra.

A atmosfera é o que Denis controla melhor. O calor parece grudar na pele, os ambientes são abafados e o perigo chega sem alarde. É bonito de ver, e o filme sabe disso. O problema é que não encontra uso para esse clima. A trama de conspiração, em que um agente e um policial agem em conluio com o governo autoritário enquanto Daniel tenta de alguma forma desestabilizá-lo, nunca vira tensão. A narrativa deriva, e o ritmo lento, que num filme de Denis poderia ser método, aqui soa como indecisão.

O segundo ato tem mais ação do que o primeiro. Sem dinheiro, sem proteção e com Daniel dispensado pelo empregador, o casal rouba um carro e segue para a fronteira. No caminho, o homem da CIA oferece a Trish passagem segura para os Estados Unidos em troca de Daniel, e ela recusa. Na fronteira, ele repete a oferta e pergunta como os dois pretendem atravessar sem o passaporte dela. O carro é trocado por uma travessia de barco com contrabandistas, e o fim da viagem é violento. Os dois acabam numa igreja abandonada, cercados por soldados. Daniel convence Trish a abandoná-lo. Depois, um policial nicaraguense que já foi cliente dela devolve o passaporte, e o agente lhe paga e vai embora. Só nesse trecho o filme faz a pergunta que importa: quem trai quem? Denis parece interessada em saber se Trish, no fim, entrega o homem que diz amar, e se ele, por sua vez, nunca a usou.

É aí que está o que o filme tem de mais vivo, e Denis, que sempre se interessou por sexualidade e exploração, trata essa questão com mais empenho do que o thriller. A decisão de atualizar o livro para o presente também faz sentido. O romance acompanhava uma americana sem nome durante uma revolução. Aqui, a mesma figura vaga por um país sem saída em meio a uma crise sanitária, e o confinamento deixa de ser só político.

“Stars at Noon” competiu pela Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2022 e levou o Grand Prix, embora a estreia tenha dividido a sala. Saí com a imagem de Qualley na cabeça e com pouca lembrança do enredo. Como thriller, é uma derrota. Como retrato de dois impostores que se agarram um ao outro porque não têm mais ninguém, quase basta, e quase só não basta porque a atriz merecia um filme que acreditasse tanto nela quanto ela acredita em Trish.

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Fotos: The Movie Database (TMDB)

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