Filmes

Travis Knight deixa o conto artesanal da Laika mais longo e sombrio em O Bosque Selvagem

Carey Mulligan, Mahershala Ali e Angela Bassett lideram o elenco de vozes do filme mais ambicioso do estúdio, adaptado do romance de Colin Meloy e Carson Ellis
Camille Lefèvre
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Uma adolescente chamada Prue sai de Portland e entra na Mata Intransponível, a floresta que começa onde a cidade termina, para tomar de volta o irmão caçula dos corvos que o levaram. Essa é a premissa de O Bosque Selvagem (Wildwood), o novo longa em stop-motion da Laika, e ela serve também como retrato do próprio estúdio: uma pequena empresa do Oregon que passou toda a sua existência entrando na floresta à mão, quadro a quadro, enquanto o resto da animação se mudava para o computador.

O que torna O Bosque Selvagem importante além da premissa é o tamanho da aposta. A Laika não lançava um longa desde Link Perdido, e volta com seu filme mais longo, sua primeira classificação para adolescentes nos Estados Unidos e um orçamento estimado na casa das centenas de milhões. A crítica respondeu com elogios quase unânimes. A bilheteria respondeu com mais cautela, e a distância entre os dois veredictos é o dado mais interessante da primeira semana do filme.

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Uma jornada infantil com vozes adultas de peso

As duas crianças no centro da história têm a voz de Peyton Elizabeth Lee, como Prue, e de Jacob Tremblay, como Curtis, o colega de escola que a segue floresta adentro. Ao redor deles, o elenco funciona como declaração de intenções. Carey Mulligan dá voz a Alexandra, a governanta viúva cuja guerra pela floresta move a trama e que, segundo a sinopse, é uma mãe que perdeu o filho. Mahershala Ali é Brendan, líder dos bandidos; Angela Bassett é a General, uma águia-real colossal; Awkwafina, Richard E. Grant, Charlie Day, Amandla Stenberg e Tom Waits completam as facções da floresta. Um filme que quisesse ser só uma aventura leve não escalaria Mulligan como antagonista. Este quer o luto no centro e contratou uma atriz conhecida por interpretá-lo sem enfeites.

Knight volta à escala de Kubo

Travis Knight é o diretor-executivo da Laika e o diretor de Kubo e as Cordas Mágicas, a fábula samurai do estúdio sobre memória e o ato de contar histórias, antes de fazer Bumblebee para a franquia Transformers. O Bosque Selvagem o devolve ao registro épico de Kubo, com roteiro de Chris Butler, codiretor de ParaNorman e diretor de Link Perdido. A Laika comprou os direitos do romance de Colin Meloy e Carson Ellis menos de uma semana depois da publicação; Meloy é o vocalista do The Decemberists e Ellis ilustrou o livro. Knight já explicou que o estúdio precisou construir ferramentas novas antes de conseguir fazer justiça ao livro, e a gestação ocupou boa parte da história da empresa como produtora de longas.

Essa genealogia importa para ler o filme. O cinema da Laika, desde Coraline e o Mundo Secreto, volta sempre a crianças que enfrentam a morte e o abandono na própria altura, e o stop-motion sempre foi a arte de dar pulso à matéria inerte. O Bosque Selvagem leva o ofício mais longe: segundo os dados de produção, foram usados 136 cenários e 231 bonecos, com até 24 rostos impressos por boneco para cada segundo de filme, e os corvos foram construídos digitalmente a partir de escaneamentos de modelos esculpidos à mão. Knight descreveu a batalha final como uma mistura de animação desenhada, stop-motion e animação por computador. O diretor de fotografia é Caleb Deschanel, de O Corcel Negro e Os Eleitos; trazer um fotógrafo de cinema live-action para um filme de bonecos sugere um estúdio que quer iluminar e filmar seu mundo em miniatura como um lugar real.

Por que precisava ser PG-13

A classificação é o argumento mais claro do filme. Knight a defendeu nas entrevistas de lançamento. “O cinema atual tende, em geral, a tratar o público jovem com condescendência”, disse. “Mas os jovens vivem a perda. Eles sabem o que é sentir medo.” É a posição da Laika dita sem rodeios, e coloca O Bosque Selvagem numa tradição mais antiga de contos de fadas que assustavam as crianças de propósito. Dario Marianelli, que compôs as trilhas de Os Boxtrolls e Kubo, assina a música, e o The Decemberists contribui com uma canção inédita.

O que os elogios não resolvem

O aplauso tem limites que as próprias críticas apontam. Wendy Ide, da Screen International, em uma resenha favorável, destacou como a trama de fantasia é familiar, com ecos de As Crônicas de Nárnia e da própria Coraline. A Rolling Stone Italia achou a narrativa um tanto morna, e o site italiano Cinefilos deu duas estrelas e meia de cinco, argumentando que falta originalidade real diante de outros filmes do gênero. A estrutura é de fato conhecida: um portal para um país escondido, uma menina escolhida, uma guerra entre facções. As dúvidas comerciais são mais afiadas. Uma duração de 132 minutos e a classificação PG-13 encolhem o público familiar do qual as animações dependem, e nos Estados Unidos o filme é distribuído pela Fathom Entertainment, empresa controlada por redes de cinema e mais conhecida por sessões-evento do que por lançamentos amplos. Meloy disse que adaptar os dois livros seguintes depende de quanto este repercutir com o público, o que é outra forma de dizer que ninguém sabe ainda.

Festivais, críticas e o primeiro fim de semana

O Bosque Selvagem teve estreia mundial no Festival de Cinema de Londres do BFI, abriu o Alice nella Città, em Roma, venceu o prêmio do público em Sitges e abriu o AFI Fest, em Los Angeles. No Rotten Tomatoes, 99% de 148 críticas são positivas; o Metacritic registra nota 88, e o público da estreia deu nota A no CinemaScore. John Nugent escreveu na Empire que o filme “amplia os limites do que o stop-motion no cinema pode ser”. Na América do Norte, estreou em terceiro lugar com cerca de 12,2 milhões de dólares em 2.942 salas, atrás de Clayface e You Can See Everything, mais que o dobro da estreia de Link Perdido e perto dos 12,6 milhões de Kubo. A bilheteria mundial do primeiro fim de semana ficou em torno de 15 milhões, diante de um orçamento de produção reportado de 100 milhões.

Promotional artwork for Wildwood showing Prue reaching for her baby brother as crows carry him over a Portland bridge
Promotional artwork for Wildwood (2026): Prue reaches for her baby brother as crows carry him over a Portland bridge

O elenco de vozes original inclui ainda Jake Johnson e Maya Erskine como os pais de Prue, Jemaine Clement e Tantoo Cardinal; na versão dublada brasileira, Giulia Benite dá voz à protagonista. Arianne Sutner produz ao lado de Knight, e a FilmNation Entertainment cuida das vendas internacionais.

O Bosque Selvagem estreia nos cinemas brasileiros em 29 de outubro, com distribuição da Imagem Filmes e duração de 132 minutos. Nos Estados Unidos, o filme chegou às salas em 23 de outubro pela Fathom Entertainment, com classificação PG-13.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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