Atores

Andrew Garfield, o protagonista que se recusa a endurecer

Penelope H. Fritz

Andrew Garfield faz há quase duas décadas algo que Hollywood costuma punir: recusa-se a endurecer. Interpreta Spider-Man como um menino em plena onda de açúcar. Interpreta um jesuíta perdendo seu Deus como um homem se afogando em câmara lenta. Chorou diante de um monstro de feltro na Vila Sésamo falando da mãe morta — o segmento ganhou um Emmy. A maioria dos protagonistas, quando os prêmios chegam, já construiu uma marca em torno da contenção. Garfield foi pelo lado oposto e fez da transparência a marca.

Nasceu em Los Angeles e foi levado a Epsom, no condado de Surrey, aos três anos, o que o deixa tecnicamente com dupla nacionalidade e funcionalmente britânico — o sotaque de escola privada, a longa passagem pelo teatro de Londres, a desconfiança ainda audível em relação à sinceridade americana. A mãe, Lynn, era de Essex; o pai, Richard, da Califórnia; os avós paternos chegaram a Londres vindos da Polônia, Rússia e Romênia, e o sobrenome da família foi encurtado a partir de Garfinkel. Define-se como um artista judeu, e a frase lê-se menos como política identitária que como descrição do ofício: um intérprete para quem luto, estudo e discussão fazem parte do trabalho.

Formou-se na Royal Central School of Speech and Drama e entrou quase imediatamente para o Royal Court, para o National Theatre e para aquela faixa de drama de prestígio do Channel 4 que costumava lançar gerações. O papel que o abriu foi o de protagonista em Boy A, um pequeno telefilme sobre um ex-menino criminoso tentando desaparecer na vida adulta; rendeu-lhe o primeiro de seus grandes prêmios, um BAFTA de melhor ator de televisão. A estreia americana veio pouco depois — um papel pequeno em Lions for Lambs, ao lado de Redford, Cruise e Streep, o tipo de sala em que um ator de vinte e quatro anos não entra sem hesitar. Garfield, em tela, parecia apenas curioso.

Veio então o ano que definiu sua primeira década: Não me Abandone Jamais, de Mark Romanek, com Carey Mulligan e Keira Knightley, e A Rede Social, de David Fincher, em que seu Eduardo Saverin funcionou como o pulso moral do filme — ferido, decente, traído em primeiro plano. A interpretação lhe trouxe uma indicação ao Globo de Ouro e um lugar na lista BAFTA Rising Star, e em pouco tempo apareceu a máquina da Sony. Passou dois filmes como Peter Parker em O Espetacular Homem-Aranha e sua sequência, e descreve essa fase com a franqueza que lhe é típica como um período em que o sentido de si mesmo se desfez. Fala dela como outros atores falam de uma lesão que sobreviveram.

O que fez em seguida é o argumento mais forte a favor de seu temperamento. Pegou dois papéis em sequência que aterrorizariam quase qualquer um em sua posição. Interpretou Desmond Doss, o médico objetor de consciência, em Até o Último Homem, de Mel Gibson — primeira indicação ao Oscar — e o padre Sebastião Rodrigues em Silêncio, de Martin Scorsese, aquele filme jesuíta longo, ressecado, de fé em hemorragia, para o qual estudou os Exercícios Espirituais e perdeu peso sem contar à imprensa quanto. A interpretação com Scorsese é, por consenso do setor e preferência dele, o melhor trabalho que entregou. Foi também um fracasso comercial, o que Scorsese reconheceu e Garfield não pareceu se importar.

Foi acusado, com certa frequência, de se expor demais. Coletivas em que chora por Jonathan Larson. Um discurso de aceitação do Tony em 2018, pelo Prior Walter no revival de Anjos na América, de Tony Kushner, que terminou em dedicatória improvisada à comunidade LGBTQ+ — discurso que alguns chamaram de corajoso e outros leram como uma anexação, por um protagonista hétero, da dor alheia. O próprio trabalho respondeu à segunda crítica: o Olivier e o Tony pela mesma interpretação, a maratona de oito apresentações semanais do texto de Kushner, sete horas e meia de doutrina e agonia sustentadas, em grande parte, por ele. Em particular é famosamente generoso no palco; em público, às vezes confunde uma coletiva com um divã. O erro, até agora, não lhe custou nada.

A morte de sua mãe em 2019, de câncer de pâncreas, atravessa o meio de sua carreira como uma dobradiça. Largou o set de Os Olhos de Tammy Faye para passar com ela as últimas semanas; pouco depois, interpretou Jonathan Larson — outro artista perdendo a mãe enquanto o tempo se esgotava — em tick, tick… BOOM!, de Lin-Manuel Miranda, e ganhou o Globo de Ouro e a segunda indicação ao Oscar. Vieram depois o podcast sobre luto com Anderson Cooper e o segmento com Elmo na Vila Sésamo. Tem sido extraordinariamente consistente sobre para que serve o luto: não para superá-lo, mas para continuar perto dela.

Ultimamente trabalha num ritmo que sugere algo assentado. Voltou brevemente como Spider-Man em Homem-Aranha: Sem Volta para Casa, negou em todos os tapetes vermelhos e hoje admite, bem-humorado, que vai responder a essa pergunta pelo resto da vida. Levou Antes de Você, de John Crowley, com Florence Pugh, à conversa dos prêmios, e entrou depois em After the Hunt, de Luca Guadagnino — filme de recepção dividida que decidiu habitar mesmo assim. À frente, em 2026, dois dos maiores papéis até hoje: o protagonista de fantasia familiar em The Magic Faraway Tree, com Claire Foy e Rebecca Ferguson, e o homem à frente da revolta camponesa de 1381 em The Uprising, de Paul Greengrass. Depois: Artificial, em que interpreta Sam Altman no demissão e recontratação da OpenAI, e a série da Apple Wild Things, em que ele e Jude Law farão Roy Horn e Siegfried Fischbacher.

O interessante em Garfield neste ponto é que a transparência já não se lê como estratégia de início de carreira. Lê-se como o método. O filme de Greengrass medirá como ela aguenta em grande escala; a comédia de Guadagnino dirá se ele consegue desdobrá-la com ironia. Seja o que ele se tornar a partir daqui, fez a coisa mais rara para um ator de sua geração: recusou-se a fabricar uma carapaça.

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