Líderes Empresariais

Bill Gates: o homem que ganhou a era do software e aposta tudo em salvar vidas até 2045

Penelope H. Fritz
Bill Gates
Bill Gates
Photo: Moniruj / CC0, via Wikimedia Commons
Nascimento28 de outubro de 1955
Seattle
OcupaçãoEmpreendedor tecnológico e filantropo
PrêmiosComandante da Ordem do Impu00e9rio Britu00e2nico u00b7 Medalha Nacional de Tecnologia e Inovau00e7u00e3o u00b7 Pru00eamio Lasker-Bloomberg de Serviu00e7o Pu00fablico

No dia em que Bill Gates entrou numa sessão fechada do Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, sua fundação havia acabado de aprovar um orçamento anual recorde de nove bilhões de dólares. Ele estava lá não para falar sobre taxas de vacinação contra a malária ou programas-piloto para pequenos agricultores na África. Estava lá para responder sobre sua relação com Jeffrey Epstein. Essa combinação — generosidade em escala histórica convivendo com exposição política profundamente desconfortável — é, essencialmente, o que é a segunda metade da vida de Bill Gates neste momento.

Nasceu em Seattle em outubro de 1955, numa família onde a exigência intelectual era parte do mobiliário. Seu pai era um advogado de prestígio; sua mãe integrava o conselho do First Interstate BancSystem e presidia o conselho nacional da United Way. O que distinguia o jovem Gates não era tanto o talento quanto a teimosia: quando o Lakeside School instalou um terminal de teletipo conectado a um computador da GE, Gates e seu colega Paul Allen passaram tantas horas nele que esgotaram o orçamento de tempo computacional da escola. A escola os expulsou do laboratório e exigiu que eles ganhassem de volta o acesso corrigindo erros do sistema. Eles corrigiram.

Ingressou em Harvard em 1973 sem um plano claro, mas a era dos microcomputadores chegou mais cedo do que ninguém previa. Quando o Altair 8800 apareceu na capa da Popular Electronics em janeiro de 1975, Gates ligou para o fabricante e ofereceu um interpretador BASIC que ainda não havia escrito. Abandonou Harvard antes do terceiro ano — Allen saiu de seu emprego na Honeywell — e os dois foram para Albuquerque, Novo México, para cumprir a promessa. Chamaram a empresa de Microsoft.

A virada decisiva veio em 1980, quando a IBM precisava de um sistema operacional para seu novo computador pessoal. A Microsoft adquiriu os direitos sobre um sistema chamado QDOS, o reembalou como MS-DOS e o licenciou à IBM mantendo o direito de vendê-lo a outros fabricantes. Gates entendeu algo que a IBM aparentemente não entendeu: que o software, e não o hardware, se tornaria a infraestrutura da computação pessoal. O Windows chegou em 1985; quando a Microsoft abriu capital em 1986, fazendo de Gates um bilionário aos trinta e um anos, essa percepção já havia feito dele o homem mais rico do mundo.

Os anos 1990 testaram a ideia de que agressividade empresarial e conformidade legal podem coexistir. O Departamento de Justiça dos EUA apresentou em 1998 uma ação antitruste contra a Microsoft, alegando que a empresa usou seu monopólio sobre o Windows para esmagar a concorrência, especialmente por meio da integração forçada do Internet Explorer e acordos de licença restritivos. O depoimento de Gates durante o processo tornou-se um dos documentos mais peculiares da época — evasivo, combativo, em alguns momentos visivelmente alheio. Um juiz federal ordenou inicialmente a divisão da empresa. A sentença foi revertida em recurso, mas o acordo resultante impôs restrições que os advogados da Microsoft ainda gerenciam hoje. O caso não ameaçou a sobrevivência da Microsoft, mas expôs o método por trás da estratégia: controle os gargalos e o resto se resolve.

A Fundação Bill e Melinda Gates foi lançada em 2000, o mesmo ano em que Gates deixou a presidência executiva da Microsoft. A mudança foi real. Casou-se com Melinda French em 1994; têm três filhos: Jennifer, Rory e Phoebe. Divorciaram-se em 2021, após vinte e sete anos de casamento. Ele aplicou à saúde global a mesma abordagem rigorosa e orientada a dados que havia empregado na estratégia de mercado de software. A fundação investiu na erradicação da poliomielite, vacinas contra malária, controle da tuberculose e acesso a tratamentos para o HIV. Até 2025, havia gasto mais de cem bilhões de dólares.

Na sua carta anual de 2026, Gates estabeleceu uma data formal de encerramento: a fundação gastará aproximadamente duzentos bilhões de dólares nos próximos vinte anos e fechará suas portas em 31 de dezembro de 2045. É um dos compromissos filantrópicos mais explicitamente limitados no tempo da história. Ele também voltou a escrever: Source Code: My Beginnings, seu livro de memórias de 2025 sobre sua infância e anos de formação, é o primeiro volume de uma autobiografia planejada em três tomos.

O que essa história terá inevitavelmente de enfrentar é o caso Epstein. Documentos divulgados em 2025 pelo Epstein Files Transparency Act incluíam e-mails de 2013 com referências à vida privada de Gates que ele classificou publicamente como falsas. A fundação encomendou uma revisão externa de seus vínculos passados com Epstein. O próprio Gates declarou ao Congresso em junho de 2026 que se encontrar com Epstein havia sido um “grave erro de julgamento”, que nunca testemunhou comportamento criminoso e que nunca visitou as propriedades de Epstein. Se o depoimento encerra a questão politicamente é incerto. O que é claro é que o homem que passou vinte e cinco anos construindo uma identidade pública alternativa — de monopolista a humanitário — navega agora pelos dois ao mesmo tempo.

Em fevereiro de 2026, Gates viajou para a Índia para participar da Cúpula de Impacto da IA em Nova Delhi, onde discutiu com autoridades governamentais o uso da inteligência artificial para aumentar a produtividade de pequenos agricultores africanos em parcelas pequenas demais para os equipamentos de precisão que já funcionam em escala industrial. É o tipo de problema que a Microsoft nunca precisou resolver: aquele em que o sinal de mercado é fraco demais para justificar o investimento, e a única razão para tentar é que milhões de pessoas precisam que funcione. O prazo é 2045.

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