Atores

James Stewart, o ator que deixou o homem comum se desfazer

Penelope H. Fritz
James Stewart
James Stewart
Photo via The Movie Database (TMDB)
Nascimento20 de maio de 1908
Indiana, Pennsylvania, United States
Falecimento2 de julho de 1997 (89)
OcupaçãoAtor
Conhecido porJanela Indiscreta, Um Corpo Que Cai, A Felicidade Não Se Compra
PrêmiosOscar · Academy Honorary Award (1985) · AFI · Kennedy Center Honors (1983) · Presidential Medal of Freedom (1985) · Globo de Ouro · SAG

A voz arrastada é o álibi. Gerações inteiras reduziram James Stewart ao americano decente, hesitante, levemente tímido — o sujeito que se planta no plenário do Senado e se recusa a sentar. A redução tapa o resto da obra, que trata quase sempre desse mesmo homem se desfazendo. O senador que não cala é também o marido que grita com os filhos antes de procurar a ponte em A Felicidade Não Se Compra. É o fotógrafo incapaz de tirar os olhos da janela do vizinho. É o detetive aposentado que sobe um campanário atrás de uma mulher morta. Stewart passou quatro décadas provando, sem levantar a voz, que a decência era uma condição estrutural e não um temperamento, e que essa mesma postura podia ser preenchida por raiva, culpa, vertigem ou obsessão sem mudança de registro e sem aviso prévio.

Cresceu em Indiana, Pensilvânia, filho de um dono de loja de ferragens que acabaria pondo o Oscar do filho numa prateleira sobre as gavetas do estabelecimento. Vieram depois Princeton, arquitetura e uma temporada com os University Players de Joshua Logan, a companhia de verão de Cape Cod, onde Henry Fonda virou amigo para a vida toda. A MGM o contratou em 1935 por recomendação de uma Hedda Hopper já idosa, e durante três anos ele foi um coadjuvante com a voz errada para o registro heroico da época: fina demais, hesitante demais, pensante demais.

O ator que saiu das mãos de Frank Capra não era uma estrela ajustada ao formato. Era um formato novo. Do Mundo Nada Se Leva, em 1938, provou que a hesitação podia sustentar um protagonista; A Mulher Faz o Homem, um ano depois, transformou aquilo em mito nacional e lhe rendeu a primeira indicação ao Oscar. Núpcias de Escândalo lhe deu a estatueta em 1940 pelo filme errado — Stewart disse pelo resto da vida que havia votado em Henry Fonda por As Vinhas da Ira. Deixou o prêmio na loja do pai e poucas semanas depois tornou-se a primeira grande estrela de Hollywood a se alistar no Exército dos Estados Unidos. Pilotou vinte missões de combate sobre a Alemanha como comandante de um B-24 Liberator do 445.º Grupo de Bombardeio. A guerra não produziu um comunicado oficial no fim. Voltou, não falou do que viu e reapareceu nos sets mais magro, sem raiva visível, com um compasso ligeiramente diferente.

O primeiro filme do pós-guerra foi A Felicidade Não Se Compra, em 1946, que deu prejuízo para a RKO e foi educadamente despachado pelo New York Times. A caducidade do copyright nos anos setenta e as exibições gratuitas na PBS o transformaram no filme de Natal que os estúdios não tinham conseguido vender — uma reabilitação que quase encobre o que o filme tem de fato. O George Bailey do terceiro ato, que arranca uma coroa natalina do corrimão e pergunta à filha por que ela treina sempre a mesma escala, é o primeiro retrato sustentado de um personagem de Stewart genuinamente sem rumo. A canonização tardia tende a arquivar essa cena como o trecho escuro antes do desfecho reconfortante. Ela está muito mais próxima do restante de seu trabalho pós-guerra do que do villancico que a rodeia.

O ciclo Anthony Mann — Winchester ’73, Bend of the River, The Naked Spur, The Far Country, O Homem de Laramie, tudo em cinco anos — é a parte da filmografia que a lenda do homem comum tende a pular. Mann o pôs no cavalo perseguindo homens que o haviam ferido, e lhe deu um luto obsessivo, quase feio. Os filmes de Hitchcock fecharam o argumento. Janela Indiscreta fala de não desviar os olhos. O Homem Que Sabia Demais, no remake de 1956, fala de um médico se decompondo em tempo real enquanto finge manter a ordem. E Um Corpo Que Cai, escolha do cânone crítico tardio para maior filme de todos os tempos, é uma interpretação de Stewart organizada inteira em torno da falência da vontade. O ciclo Mann e o ciclo Hitchcock são em geral elogiados em separado, como se o ator tivesse um modo faroeste e um modo suspense. É o mesmo projeto: o americano decente da classe média se inclinando, devagar, para aquilo que a versão pública havia garantido que ele não viraria.

James Stewart
James Stewart · Universal Pictures / Public domain (Wikimedia Commons)

Anatomia de um Crime, em 1959, lhe entregou um plenário e uma queda diferente — um advogado de cidade pequena fluente o bastante em jazz e amoralidade para defender um cliente sobre quem tanto ele quanto o espectador têm dúvidas. Os anos sessenta o puxaram para o faroeste elegíaco, O Homem Que Matou o Facínora de John Ford entre eles, em que se sentou em frente a John Wayne e deixou a tela admitir que a lenda e o homem já não estavam na mesma sala. Aposentou-se parcialmente nos anos setenta, fez papéis vocais ocasionais até os anos noventa — seu último crédito foi um lobo em Fievel no Faroeste — e recebeu a longa sequência de homenagens: AFI Life Achievement, Kennedy Center, Oscar honorário, Medalha Presidencial da Liberdade. Gloria, sua esposa por quarenta e cinco anos, morreu de câncer de pulmão em 1994. Pouco apareceu em público depois. Morreu em sua casa de Beverly Hills em 2 de julho de 1997, de parada cardíaca após embolia pulmonar.

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A Fathom Entertainment vai trazer A Felicidade Não Se Compra de volta aos cinemas americanos em dezembro de 2026 pelo octogésimo aniversário, e em novembro do mesmo ano estreia um novo filme biográfico, Jimmy, dirigido por Aaron Burns e com KJ Apa no papel de Stewart. Os dois devem reforçar a versão de Stewart que ele mesmo passou cinquenta anos complicando — a que termina na ponte nevada, e não a que começa nos faroestes de Mann e termina no campanário. A obra é mais interessante do que a lenda. A lenda saiu na frente.

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