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Johnny Depp volta ao cinema grande depois do julgamento que parou o mundo

Penelope H. Fritz

O que é preciso entender sobre o Capitão Jack Sparrow é que ele nunca foi de verdade um pirata. Era um disfarce — o mais recente de uma longa série de construções excêntricas que Depp vinha montando desde o momento em que escapou da máquina de ídolo adolescente de 21 Jump Street. Por trinta anos, ele fez do desaparecimento uma disciplina: nas tesouras e na pele empoada de branco, no bambalear embebido em rum, num barbeiro vitoriano com assassinato na cabeça e uma voz de soprano que precisou provar a todos que de fato possuía. O que as câmeras nunca captaram completamente foi se havia alguém por baixo.

Chegou a Hollywood como guitarrista de Miramar, na Flórida — um adolescente que largou a escola, foi empurrado para a atuação por Nicolas Cage e encarou uma audição para A Hora do Pesadelo sem nenhuma preparação especial. A música nunca o abandonou; ao longo das décadas seguintes tocou em gravações de Iggy Pop, Oasis, Shane MacGowan, Marilyn Manson e Jeff Beck, e cofundou o supergrupo Hollywood Vampires com Alice Cooper e Joe Perry. Mas o cinema se tornou a prática que organizou sua existência profissional.

Sua resposta foi encontrar Tim Burton. Edward Mãos de Tesoura (1990) estabeleceu o modelo ao qual voltaria por décadas — o monstro bonito, o homem cuja estranheza era também sua ternura, o outsider que não encontrava a forma que o mundo tinha disponível para ele. Ed Wood (1994), Medo e Delírio em Las Vegas (1998), Sleepy Hollow (1999), Sweeney Todd: O Sinistro Barbeiro da Rua Fleet (2007): cada um um personagem que se movia pela sociedade comum num ângulo oblíquo, construído com uma atenção ao detalhe físico que seus contemporâneos raramente tentavam. O papel de Sweeney Todd rendeu-lhe um Globo de Ouro e sua terceira indicação ao Oscar.

O pico comercial chegou antes, por meio de um pirata. Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra (2003) lançou uma franquia que acabaria arrecadando vários bilhões de dólares globalmente. Em 2012, o Livro dos Recordes do Guinness o declarou o ator mais bem pago do mundo, com 75 milhões de dólares em ganhos anuais. Só Alice no País das Maravilhas (2010) arrecadou mais de um bilhão. A escala era inédita para um ator elogiado por uma década justamente por resistir a esse tipo de escala.

A máquina comercial que criou esse status exigia que ele continuasse produzindo o mesmo registro de atuação em filmes que se tornavam progressivamente menos interessantes do que o trabalho por trás deles. O Cavaleiro Solitário (2013) custou centenas de milhões à Disney. Mortdecai (2015) falhou em quase todos os aspectos. A qualidade de ator de personagem que o tornara singular se converteu, sob a pressão da franquia, num produto reproduzível. O produto parou de vender.

O que veio depois é difícil de narrar sem herdar a versão de um dos dois lados. Seu casamento com Amber Heard — conhecida no set de Diário de um Jornalista Bêbado em Cuba em 2011, casados em 2015 — terminou em 2017 em meio a acusações recíprocas que percorreram a imprensa tablóide britânica, dois tribunais e finalmente um júri na Virgínia. Em 2020, perdeu um processo por difamação no Reino Unido contra o The Sun e a Warner Bros. o tirou da franquia Animais Fantásticos em questão de semanas. Seguiram-se aproximadamente dois anos de inempregabilidade funcional pelos grandes estúdios que um dia lhe pagaram 75 milhões de dólares por ano.

O julgamento por difamação de 2022 no condado de Fairfax, na Virgínia — transmitido ao vivo, viral, transformado em meme e assistido por dezenas de milhões de pessoas — produziu um veredicto a seu favor: o júri lhe concedeu 10,35 milhões de dólares em indenização. O que o veredicto representava além do litígio, a indústria decidiu que podia aproveitar.

Desde então, trabalhou de maneiras que sugerem que não está tentando simplesmente recuperar a carreira de antes. Publicou uma coleção de pinturas — Amigos e Heróis, retratos de Al Pacino, Elizabeth Taylor, Bob Dylan, Keith Richards — que se esgotou em horas e gerou quase quatro milhões de dólares. Gravou e lançou o álbum 18 com Jeff Beck. E em abril de 2026, subiu ao palco da CinemaCon para apresentar imagens de Ebenezer: A Christmas Carol, dirigido por Ti West, no qual interpreta Ebenezer Scrooge. O filme estreia em 13 de novembro de 2026. Um thriller de ação, Day Drinker, ao lado de Penélope Cruz, está previsto para março de 2027.

O casting como Scrooge carrega uma piada que a imprensa especializada já capturou — um homem que passou anos tendo dinheiro e prestígio retirados interpreta o arquétipo literário de um homem que se recusa a se desfazer de ambos. O que isso sinaliza de verdade, além da piada, é que a relação de Depp com Hollywood voltou a ser transacional. Se também é criativa, no sentido dos anos de Burton, dependerá de filmes que ainda estão sendo feitos.

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